Ao fim de 298 horas em direto, Raphaël Graven, de 46 anos e influencer francês conhecido online por “Jean Pormanove”, foi encontrado inanimado debaixo de um edredão por outros influencers, que encerraram uma transmissão que já tinha arrecadado 36 mil euros, de acordo com as imagens que circulam nas redes sociais e foram analisadas pelo Le Monde. As autoridades de Nice abriram uma investigação ao incidente da passada segunda-feira e pediram uma autópsia para apurar a causa da morte.

A ministra de Tecnologias da França, Clara Chappaz, já reagiu no X, a confirmar que uma investigação já estava em curso “sobre as alegadas ações dos streamers” e que uma segunda investigação está a averiguar as causas da morte de Raphaël Graven. “Todas as plataformas têm a responsabilidade legal de remover qualquer conteúdo manifestamente ilícito de que tenham conhecimento. Quando confrontados com abusos, podemos tomar medidas coletivas, denunciando-os diretamente às plataformas”, disse ainda a ministra.

De acordo com a France24, o homem estava num lugar alugado para a transmissão, que decorria há 10 dias. Graven, um soldado aposentado, tinha um perfil na plataforma Kick com 500 mil seguidores, e costumava fazer transmissões na companhia de outros três influencers: Owen Cenazandotti, que é conhecido como “Naruto”, Safine Hamadi, conhecido online como “Safine”, e um homem que é identificado apenas como “Coudoux”, que de acordo com o jornal francês é uma pessoa com deficiência e sob tutela. Nos vídeos, Cenazandotti e Hamadi maltratavam os outros dois homens: era frequente golpearem as suas cabeças, estrangularem-nos, cuspirem-lhes e despejarem substâncias sobre as suas cabeças. A alegação é de que as lives tinham um objetivo “humorístico”.

Nas redes sociais, os dois influencers já reagiram. “Meu irmão, meu parceiro, meu amigo. Seis anos lado a lado, nunca a abandonar um ao outro. Amo-te, meu irmão, e vamos sentir a tua falta terrivelmente”, escreveu Cenazandotti no Instagram. “Descansa em paz, meu irmão”, reagiu Hamadi. Entretanto, ambos já tinham sido detidos em janeiro deste ano devido aos alegados episódios de agressão. 

Cenazandotti e Hamadi tinham sido denunciados em dezembro de 2024 num artigo publicado pela Mediapart, que revelava o conteúdo violento comum na plataforma, onde streamers franceses partilham agressões e humilhações em troca de dinheiro. Uma investigação preliminar foi aberta pelo Ministério Público de Nice, que considera três acusações: “incitamento público ao ódio ou violência contra uma pessoa ou grupo devido à deficiência via comunicação eletrónica”, “violência de grupo deliberada contra pessoas vulneráveis resultando na total incapacidade de trabalhar por menos de oito dias” e “transmissão de gravações de imagens relacionadas ao cometimento de ofensas envolvendo agressão deliberada à integração da pessoa”.

De acordo com as autoridades de Nice, “os dois suspeitos e as alegadas vítimas negaram qualquer crime“. Na época, a polícia também fez buscas na cidade de Contes, onde foram apreendidos os equipamentos de todos os envolvidos no grupo. A empresa por trás dos vídeos é a LeLokal, fundada em 2024 por Cenazandotti. Contatado pelo Le Monde, o advogado de Cenazandotti diz que está a aguardar “os resultados da investigação para determinar as circunstâncias da morte de JP e identificar os responsáveis”.

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