No meio dos escombros provocados pelo violento sismo que abalou na noite de domingo o leste do Afeganistão, uma criança chora. Com as mãos sujas erguidas para o céu clama por Deus, enquanto à sua volta há dezenas de pessoas que tornam a comoção em ação e tentam resgatar as pessoas afetadas — às 7h30 de Lisboa (11h00 na região), os números divulgados pelo Governo talibã apontavam para 800 mortos e mais de 2.800 feridos.

A imagem da criança a chorar é, como a maioria dos registos disponíveis a esta altura sobre o abalo de 6,0 na escala de Richter, divulgada pela TOLO News. Se, num primeiro momento, os vídeos partilhados nas redes sociais eram apenas os registos do momento do terramoto às 23h47 (20h17 em Lisboa), entretanto os meios de informação locais começaram a chegar ao local e a divulgar para todo o mundo o impacto da destruição.

Outras imagens da agência afegã mostram o resgate aos afetados, realizado em conjunto com moradores e equipas de socorro, no meio dos escombros.

As autoridades enfrentam a difícil missão de apoiar todas as vítimas em zonas de acesso complicado — o sismo teve epicentro a 42 quilómetros de Jalalabad, capital da província de Nangarhar, no extremo leste do Afeganistão, perto da fronteira com o Paquistão, como pode ser visto no mapa registado pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos da América. Além desta província, o abalo teve mais impacto em Kunar.

O epicentro do sismo no Afeganistão, perto da fronteira com o Paquistão

O território da zona atingida é composto por 90% de montanhas, explica a BBC, o que dificulta o trabalho das equipas de resgate e obriga as autoridades a recorrer a meios aéreos. Os talibãs pediram às organizações internacionais para fornecerem helicópteros e, esta manhã, já tinham chegado mais de quatro (com equipas médicas) ao vale de Mazar, um dos locais mais afetados.

Além da magnitude registada, acresce ao impacto provocado pelo sismo a (pouca) profundidade do sismo: segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos da América, teve uma profundidade de apenas oito quilómetros. Em comparação, um dos últimos sismos mais graves registados na mesma região teve mais dois quilómetros de profundidade (nesse desastre, em 2022, morreram mais de mil pessoas e outras três mil ficaram feridas).

No entanto, o mais devastador dos tempos recentes, segundo dados dos talibãs, ocorreu a 7 de outubro de 2023, quando morreram pelo menos 4.000 pessoas. As Nações Unidas fazem uma avaliação diferente do impacto e apontam para 1.500 mortos no tremor de terra em Herat, no extremo oeste do Afeganistão.

Os sismos são muito frequentes no Afeganistão uma vez que o país está localizado sobre a junção de duas placas tectónicas — a indiana e a euroasiática. Os moradores do Afeganistão estão mais vulneráveis a terramotos por viverem, maioritariamente, em edifícios construídos com madeira, tijolos de barro ou cimento frágil, descreve a BBC, o que os torna menos resistentes a estas catástrofes.

O contexto do desastre agora registado ganha ainda maior relevo tendo em conta que a região afetada já tinha sido assolada nos últimos dias por cheias que fizeram cinco mortos. Ese facto obrigou as autoridades a cortar muitas estradas para evitar eventuais danos por deslizamentos de terra, o que dificulta ainda mais os acessos das equipas médicas.

As autoridades de Defesa dos talibãs envolvidas nas operações de resgate revelaram que há várias aldeias completamente destruídas e acredita-se que há “centenas de pessoas” mortas e feridas apenas no vale de Mazar.

A escala dos estragos provocados pelo sismo no Afeganistão é “inimaginável”, disse um alto funcionário talibã citado pela BBC. Por isso, atendendo a que a maioria dos corpos já está sob escombros, impera ajudar a resgatar os feridos. “Para nós a prioridade não é encontrar mortos sob os escombros, mas sim ajudar os feridos. (…) A maioria dos corpos está sob os escombros, estamos a fazer tudo, mas não parece possível em breve”.