António Manuel Baptista Dias, antigo membro das FP-25, é um dos candidatos do Partido Socialista à Câmara Municipal de Setúbal. O professor, de 67 anos, é o número cinco na lista socialista. A inclusão na candidatura do PS está a ser criticada por familiares das vítimas do grupo terrorista de extrema-esquerda. “Parece que não há mais ninguém dentro do PS Setúbal que pudesse exercer o cargo sem ter o passado manchado”, disse ao Observador Manuel Castelo-Branco, filho de Gaspar Castelo-Branco, diretor dos Serviços Prisionais, morto em 1986 à porta de casa. “É algo que ofende todas as famílias das vítimas”, assegurou.
Já a candidatura socialista a Setúbal destacou, em resposta ao Observador, que o professor se enquadra numa “equipa de pessoas com percurso profissional e cívico reconhecidos, que querem e vão promover a mudança”. “Nos últimos 25 anos tem um percurso profissional, cívico e político dedicado à causa pública e que por duas vezes foi reconhecido pela autarquia com a atribuição da medalha da cidade”, justificam.
Não é a primeira vez que António Manuel Baptista Dias se candidata a um cargo político. Em 2009 e em 2013 já tinha sido o cabeça de lista dos socialistas à junta de São Sebastião — perdeu das duas vezes para a CDU —, e, entre 2013 e 2017, chegou a ser presidente da Assembleia desta mesma freguesia. Baptista Dias foi galardoado pelo município de Setúbal duas vezes: em 2001 recebeu uma medalha de ouro, a mais alta distinção da autarquia, na categoria de cultura; em 2020 foi homenageado com a medalha de honra da cidade na classe Ciência e Tecnologia.
Ao longo do percurso político António Manuel Baptista Dias tem enfrentado várias críticas pelo seu envolvimento nas FP-25. O antigo membro do grupo terrorista foi preso pela primeira vez a 12 de fevereiro de 1982, sendo um dos três operacionais apanhados em flagrante pela PSP a tentar pôr no ar uma emissão de rádio clandestina, a partir de um carro carregado de metralhadoras e granadas estacionado no Parque Eduardo VII. De acordo com a acusação do Ministério Público, participou em vários assaltos e atentados à bomba. O agora candidato foi condenado pela tentativa de homicídio do agente da PSP que, em outubro de 1985, o abordou dentro de um carro parado nos Olivais, em Lisboa. Um tribunal determinou uma pena de três anos de prisão suspensos e o pagamento de uma indemnização de 500 contos à vítima.
Ao Observador, Manuel Castelo-Branco não esconde a indignação. “O último crime que este senhor cometeu foi a morte do agente Álvaro Militão. Foi em 1987, mais de 12 anos depois do 25 de Abril. Não havia aqui nem PREC, nem euforia revolucionária, nem nada que se pareça. Já tínhamos entrado na comunidade europeia, éramos uma democracia consolidada“, afirmou, acrescentando que “nenhum dos operacionais ou dirigentes das FP-25 se arrependeu ou pediu desculpa”.
“Surpreende-me que um partido que está no arco governativo, que fez parte do Governo deste país durante tantos anos, tenha nas suas listas um elemento que mais atentou contra a democracia em Portugal, que é o caso de António Batista Dias”, disse, não deixando porém de recordar que a sua presença nas listas socialistas “já não é novidade”, lembrando também os cargos no ensino e na Assembleia de Freguesias. “Não apareceu de repente na lista do PS (…) É um branqueamento do que foi o passado deste senhor, como se nada tivesse acontecido”.
No programa “E o Vencedor é”, da Rádio Observador, Nuno Gonçalo Poças, autor do livro “Presos Por Um Fio – Portugal e as FP-25 de Abril”, referiu que António Manuel Baptista Dias esteve “envolvido em vários dos grandes assaltos” do grupo terrorista. “Foi não só um dirigente, mas foi um operacional bastante peculiar das FP25. Era conhecido por não ser particularmente habilidoso no disparo e, portanto, gostava de arrebentar com tudo à bomba”, indicou.
Nuno Gonçalo Poças apontou que o Bloco de Esquerda já apresentou como candidatos alguns antigos membros das FP-25, mas que no PS é um “caso único”. “É agora candidato a vereador. O PS salvo erro elegeu quatro dirigentes em 2021, portanto estará ali mais ou menos na calha, ou pelo menos no fundo a representar o Partido Socialista no executivo da cidade, nem que seja, algumas vezes, em regime de substituição, isto se for mesmo eleito”, acrescentou.
Questionada pelo Observador sobre a escolha do candidato e as críticas de que está ser alvo, a candidatura do PS à Câmara Municipal de Setúbal refere que “o PS avançou para estas eleições sem estar agarrado ao passado, mas com os olhos postos no futuro”. “Avançamos com uma equipa de gente competente, apaixonada pela nossa terra e que vai promover a mudança que urge em Setúbal. António Batista Dias é o número 5 na lista do PS à Câmara Municipal de Setúbal porque se enquadra nessa equipa de pessoas com percurso profissional e cívico reconhecidos, que querem e vão promover a mudança”, sublinha-se em resposta escrita.
A candidatura considerou que não se trata de uma questão nova e que “é, na verdade, recauchutada”, notando que foi noticiada quando António Manuel Baptista Dias foi candidato em 2009 e 2013 à presidência da Junta de Freguesia de São Sebastião. Defendeu também que não há qualquer polémica: “Entendemos ser totalmente artificial e inqualificável, promovida pela direita e pela extrema direita e patrocinada por quem, sem capacidade para dar notícias novas ou apresentar propostas para a cidade, tenta no passado mitigar os insucessos do futuro”.
“A escolha de António Batista para número 5 da lista e próximo vereador da Educação é facilmente justificável. António Batista Dias foi durante duas décadas Diretor do Agrupamento de Escolas Luísa Todi, num percurso irrepreensível e reconhecido por toda a comunidade escolar. Foi deputado e presidente da Assembleia de Freguesia de São Sebastião, deputado na Assembleia Municipal, foi membro da Comissão Organizadora para a Alfabetização do Distrito de Setúbal, membro do Conselho de Escolas e membro do Conselho Municipal de Educação”, recordam os socialistas.
Numa de várias publicações no Facebook para apresentar os elementos da lista do PS para Setúbal, Fernando José, que lidera a candidatura, já tinha destacado vários pontos desse percurso. “Um percurso profissional fortemente enraizado em Setúbal leva António Baptista a juntar-se a esta equipa, por acreditar que é possível fazer a diferença, criando novas dinâmicas com todos os agentes académicos, culturais, desportivos, sociais, económicos e empresariais”, lê-se na publicação.