Mais de dez formas do verbo “humilhar” surgem no relatório conjunto do Conselho Europeu para as Relações Exteriores (ECFR) e da Fundação Cultural Europeia, divulgado esta terça-feira. Neste caso, o sujeito ativo são os EUA e o passivo a União Europeia (UE). No estudo concluiu-se que a administração Trump está a travar uma “guerra cultural” contra a Europa, promovendo agressivamente os aliados políticos e ideológicos do movimento MAGA no continente e humilhando publicamente a UE a nível global.
Pawel Zerka, o investigador principal do ECFR que assina o relatório, compara o cenário atual ao de um reality show em que “a Europa está presa num Truman Show, e a América de Trump está na cadeira do realizador”.
“Tal como Truman, os líderes europeus passam agora os dias a lidar com dramas que, em grande parte, não são da sua responsabilidade”, alega Zerka, apontado a “tarefa de evitar uma guerra comercial com os Estados Unidos” — que guiou a recente visita de Estado de Trump ao Reino Unido — e a necessidade de “garantir o contínuo compromisso dos EUA com a segurança europeia face a uma Rússia beligerante”.
O estudo defende ainda, com clareza, que o Presidente dos EUA procura ativamente interferir nas eleições europeias, bem como direcionar a relação transatlântica com vário países aos valores conservadores e mobilizar os populistas de direita da Europa em torno de tema da liberdade de expressão.
Nem tudo, no entanto, são más notícias ou sinais de uma batalha perdida para a União Europeia. “Ao unirem-se para defenderem os seus valores e saírem da sombra dos EUA, a UE e os países europeus podem mostrar que não são meros acessórios no palco de Trump, mas sim atores autónomos na política transatlântica e global”, lê-se também no relatório, que nota “as condições propícias para tal”.
Estudos de opinião recentes mostram que o sentimento europeu é, no cenário atual, “notavelmente forte entre a população europeia”. “Quase todos os governos dos Estados-membros são ainda liderados pela corrente dominante e pró-europeus”, defende-se.
Portugal, através do Chega, é apresentado com o “papel de tentador” na guerra de Trump contra a UE
Portugal, bem como Espanha, os Países Baixos e a República Checa inserem-se no lote dos “tentadores”, ou seja, os países cúmplices dos EUA. Inserem-se nessa categoria devido ao crescimento de forças partidárias de extrema-direita e populistas, mas continuam, lutando contra a maré, a reger-se por valores e políticas pró-europeias.
“O partido populista de direita Chega, que está com mais de 20% dos votos nas sondagens e ficou em segundo lugar nas eleições legislativas de 2024, vê-se como parte da mesma onda política que trouxe Trump de volta ao poder”, destaca-se no perfil de Portugal no relatório.
É referido que André Ventura “admira abertamente Trump”, imitando o seu “estilo combativo” e são recordadas as declarações recentes do líder do Chega num comício dos Patriotas pela Europa, em Madrid, em que criticou a imigração, a “ideologia de género” e a “classe política dos parasitas”.
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
Apesar daquilo que une o político português ao Presidente norte-americano, é recordado que Ventura também “criticou a posição de Trump em relação a Gaza” e o “ceticismo deste último em relação à UE e à NATO”, sendo este “um reflexo dos limites da política anti-UE numa sociedade fortemente pró-europeia”.
O papel do governo de centro-direita do primeiro-ministro Luís Montenegro é classificado como “claramente pró-europeu”. “Lisboa equilibra o seu compromisso com a Europa com a cautela em relação a Trump“, é assegurado, acrescentando-se que “muitos na corrente dominante estão indignados com o seu desrespeito pelas normas transatlânticas”.
Ainda assim, entende-se que o objetivo nacional não é o de “provocar Washington”, como demonstra a “aceitação por parte de Portugal das tarifas americanas e do acordo de 5% para as despesas de defesa, mesmo quando os líderes as consideram abaixo do ideal”.
Na lista de países europeus do relatório do ECFR, Itália não surge como “tentadora”, mas faz parte da “equipa do realizador”. Os laços estreitos de Giorgia Meloni com Trump e com a órbita do MAGA colocam o país nessa posição, ao lado da Húngria — com Viktor Orban — e da Eslováquia — com Robert Fico.
Já França é um dos três únicos países, juntamente com a Alemanha e a Polónia, que “seguram a porta”. São tidos como os porteiros da União Europeia que “serão provavelmente cruciais para decidir o arco da história da UE”.
O relatório destaca que França “rivaliza apenas com a Dinamarca na defesa da autonomia estratégica europeia”, mas que uma vitória presidencial da extrema-direita em 2027, que sondagens apontam como possível, poderá alinhar Paris com Washington.