A ideia foi interpretada como uma espécie de exílio, mas Jürgen Klopp nunca quis que assim fosse. Sete meses depois de sair do Liverpool após nove anos de uma relação intensa que deu frutos, o alemão deixou para trás os bancos de suplentes e abraçou os escritórios — e garante que dificilmente irá colocar a própria vida em marcha-atrás.

Jürgen Klopp chegou ao universo Red Bull em janeiro, assumindo o papel de diretor de futebol de todo o grupo: ou seja, tornando-se o homem que está a tentar uniformizar a filosofia de jogo, o desenvolvimento de treinadores e a estratégia de transferências do RB Leipzig, do RB Salzburgo, do RB Bragantino, do Paris FC, dos New York Red Bylls e ainda do RB Omiya Ardija, sem deixar de dar um toque no Leeds, onde a marca austríaca tem uma participação minoritária e mais reduzida.

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Em entrevista ao The Athletic, a primeira verdadeira entrevista desde que assumiu o cargo na Red Bull, o alemão fecha a porta a um eventual regresso à carreira de treinador. “Não quero voltar a trabalhar como treinador. É isso que penso. Mas não sei… Tenho 58 anos, se voltasse aos 65 toda a gente irá dizer ‘disseste que não voltavas!’. Peço desculpa, quando comecei a responder tinha 100% de certezas. É isso que penso neste momento. Não tenho saudades de nada”, sublinha, recordando que no início do século XXI disse à então namorada, atual mulher, que iria dedicar-se ao futebol “durante 25 anos e a toda velocidade sem olhar para a direita ou para a esquerda”.

“Mas o pensamento nunca foi fazer isto até ao fim da minha vida. Não sentia falta de nada porque nem sequer pensava sobre isso. Durante quase 25 anos fui a dois casamentos: um deles foi o meu e o outro foi há dois meses. Em 25 anos, foi quatro vezes ao cinema — todas nas últimas oito semanas. É bom poder fazer estas coisas agora. Estive em tantos países como treinador e não vi nada, só o hotel, o estádio e o centro de treinos. Mais nada. Não sentia falta disso, mas agora sinto”, acrescenta, lembrando a possibilidade de agora poder marcar férias “sem que seja a Premier League ou a Bundesliga a decidir quando”.

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Ainda assim, Jürgen Klopp esteve ligado ao Liverpool durante quase uma década. Conquistou a Liga dos Campeões, ganhou a primeira Premier League do clube em 30 anos e tornou-se um símbolo dos reds, a figura maior de uma era que recuperou o domínio do futebol inglês e até europeu. Quer isso dizer que se mantém atento à realidade de Anfield? Claro que não. 

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“Nem pensar. Fiquei super feliz com a maneira como o Liverpool jogou na temporada passada, vi alguns jogos, mas não é do tipo ‘oh, é sábado!’. Nem sabia quando é que havia jogos. Estava de fora. Pratiquei desporto, Aproveitei a vida, passei tempo com os meus netos, coisas completamente normais”, explica o alemão, que só voltou a Inglaterra para assistir ao último jogo da época passada, quando Arne Slot e a equipa receberam o troféu da Premier League.

No universo Red Bull, Klopp está a habituar-se à realidade corporativa que o obriga a passar por “cinco milhões de pessoas diferentes” para chegar a algum lado. “Venho de um mundo onde dizia que precisava de alguma coisa e acontecia. Agora até posso ouvir ‘ouvi que disseste isso’, mas não significa nada”, brinca o alemão, que não quer tornar-se uma figura antiquada ou parada no tempo.

“A última coisa que quero é ser o velho na sala. Aquele tipo que diz ‘antigamente é que era bom, fazíamos assim’. Espero sair antes de chegar a esse ponto. Quero ser a contrapartida. Quero ser, se necessário, a chamada de emergência de treinadores ou diretores desportivos, o tipo para quem ligam quando não sabem com quem falar. Quero criar essa relação”, indica, acrescentando que está mais do que preparado para partilhar essa experiência com quem quiser ouvi-la.

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“Se olharmos para a minha carreira, a verdade é que existem carreiras muito mais bem sucedidas do que a minha. Perdi mais finais da Liga dos Campeões do que a maioria das pessoas joga. Sei como perder e sei como a vida segue em frente. Não preciso de guardar essa experiência para mim. Nunca o fiz, mas também nunca tive tempo para falar com pessoas sobre isso porque tinha sempre o jogo seguinte. Agora se alguém me perguntar alguma coisa sou o livro mais aberto que conheço”, afirma.

Muito crítico do novo formato do Mundial de Clubes que se estreou este verão, Jürgen Klopp mantém a ideia de que não é possível continuar a acrescentar jogos e competições a um calendário que já está completamente assoberbado. “Diga eu o que disser, é a mesma coisa que estar a falar para o microondas. O efeito é o mesmo. As pessoas vão dizer ‘oh, mas tu ganhas muito dinheiro’. Eu sei disso. E sei que as pessoas dos clubes vão dizer que a culpa é dos treinadores e dos jogadores, que querem sempre mais dinheiro. Mas porque é que não se sentam todos à mesa e dizem aos jogadores que podem ter oito semanas de férias por ano? Podemos falar sobre isso? Tentem! Se me tivessem perguntado, aceitava logo”, defende o alemão.

“A minha experiência permite-me saber o quanto podemos esperar de jogadores de futebol. Sei muito sobre intensidade no treino e pedimos sempre mais. Mas a dada altura temos de cuidar das únicas pessoas sem as quais este jogo não iria existir: os jogadores. Não há solução sem ser parar de organizar novas competições durante o verão. Os melhores jogadores do mundo já não param. Isto não poderia acontecer em qualquer outra área. Imaginemos que colocávamos o melhor artista do mundo a atuar todas as noites até desfalecer e depois dizíamos ‘desculpem, perdeu a concentração'”, conclui Jürgen Klopp, que deixa a ressalva de que não quer ser “o Papa do futebol que diz às pessoas o que fazer”.