Para uns é uma escolha, para outros uma imposição. Uns fogem por esta razão, outros chegam pelo mesmo motivo. O Irão discrimina as pessoas transgénero, muitas vezes vítimas de violência, e obriga homossexuais a mudarem de sexo. Mas agora, o país está a receber — e a atrair— estrangeiros transgénero que desejem submeter-se a essas cirurgias de transição. São várias as empresas que se destinam ao turismo médico, que para além das típicas intervenções plásticas ao nariz ou aos transplantes de cabelo, estão a investir nas vaginoplastias, mastectomias e construções penianas.
Na verdade, o Irão está a tentar capitalizar a sua experiência de 40 anos num momento em que o país tenta sobreviver economicamente a sanções do Ocidente. Como o New York Times recorda, o líder da República Islâmica, Ayatollah Khomeini emitiu nos anos 80 uma fatwa — parecer jurídico islâmico que muitas vezes ganha força de lei — que autorizava o reconhecimento legal da mudança de género apenas se a pessoa se submetesse a uma cirurgia de transição.
Ou seja surpreendentemente, um país que persegue gays e lésbicas, acaba por ser um dos poucos Estados no mundo islâmico que permite cuidados médicos a pessoas transgénero, subsidiando-os até, não pelos motivos que ativistas LGBTQ quereriam, mas sim como consequência da fatwa.
Problema: no Irão, os homossexuais podem ser punidos com a pena de morte ou com a flagelação pública pelo que os gays e lésbicas que não são trans são “pressionados a submeter-se a cirurgias de redesignação sexual sem o seu consentimento livre”, constatou o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas. Isto é, uma pessoa homossexual no Irão, tem (de modo muito geral) duas possibilidades: ser morto ou submeter-se a uma cirurgia de mudança de sexo para não ser punido.
Agora, num momento em que a economia é afetada pelas sanções e o rasto de guerra com Israel, o Irão aposta no turismo médico, prometendo a estrangeiros transgénero uma cirurgia mais barata e estadias em hotéis de luxo.
Operadoras tratam de tudo, da cirurgia ao cartão SIM
Ansioso por investimento externo, o governo tem como objetivo gerar mais de 6 mil milhões de euros com o turismo médico por ano, de acordo com a imprensa iraniana. Alireza Jahangiri, presidente da associação iraniana de serviços deste sector, enfatizou a vantagem de estrangeiros procurarem tratamento médico no Irão não só pelas técnicas avançadas do país, mas também porque trazem moeda estrangeira, muito necessária neste momento. “Em média, cada turista [destes] contribui com pelo menos 2.200 euros para a economia iraniana”, avança ainda Jahangiri ao Tehran Times.
“Nós tratamos de tudo, do princípio ao fim, e fornecemos os melhores serviços clínicos para assegurar uma experiência tranquila”, diz Farideh Najafi, a gerente de duas empresas de turismo médico MabnaTrip e MedPalTrip. Isto “inclui reservar hotéis, hospitais, transportes e mais”. O preço mais acessível atrai pessoas transgénero de países como a Austrália, os Estados Unidos, Inglaterra e Europa, revelam operadores turísticos e cirurgiões. Também vêm, porém, do Iraque, onde este tipo de tratamento é fortemente proibido.
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O roteiro de uma destas empresas, a IranMedTour, começa por uma consulta online, passa por um planeamento da viagem, a receção no aeroporto, o tratamento, a recuperação, e até uma city tour. Bónus? Um presente surpresa da Silk Road Company. Neste programa, a agência de turismo médico organiza não só a cirurgia em si, mas também cuida do visa, do cartão SIM, do seguro e dos hotéis.
“Nos Estados Unidos, esta cirurgia custa à volta de 45.000 dólares (38.731 euros), na Tailândia, aproximadamente 30.000 dólares (25. 821 euros)”, lê-se no site da IranMedTour. “Mas o preço da cirurgia de transformação de sexo no Irão é mais baixo, chegando a valores como 12,000 dólares (10. 328 euros)”. Ainda há outras empresas que anunciam procedimentos em hospitais públicos por 4.500 dólares (3. 873 euros).
O paradoxo da cirurgia no país
Pessoas trans no Irão apontam para o paradoxo que é ver pessoas de outros sítios viajarem até ao seu país, de livre vontade, para mudar de sexo e depois voltarem para as suas casas, enquanto a realidade para elas no Irão não é assim tão fácil. A violência, o assédio, e a instabilidade social é algo de que se queixam ao New York Times.
Raha Ajoudani, uma ativista e mulher trans de 20 anos, fez a viagem oposta que tantos estrangeiros fazem. Fugiu do Irão para a Alemanha em 2024 para evitar uma cirurgia de transição forçada e fugir à perseguição do Estado pelo seu ativismo. Ajoudani diz que foi detida duas vezes pelas autoridades em 2022, depois de o seu namorado ter colaborado com os serviços secretos para facilitar a sua detenção.
“Eu nunca quis ser submetida a cirurgia de transformação de sexo,” dizia Ajoudani. “Defino-me como estando fora deste binário. Não queria viver de acordo com a definição do Estado sobre as expetativas culturais de ser uma mulher ou um homem. Nem me submeti à fatwa de Khomeini.”
Najafi, operadora turística, afirma que apesar do medo de alguns dos seus clientes relativamente às reações dos iranianos ao procedimento, e de reconhecer a realidade para muitos indivíduos trans, “nunca teve nenhum problema de segurança”.
Um relatório do Ministério do Interior (equivalente ao Ministério da Administração Interno português) do Reino Unido estimou que cerca de 4.000 pessoas se submetem, por ano, a esta cirurgia no Irão, um número mais alto do que o total realizado no Reino Unido e França, em conjunto.
Um cenário que contrasta com a visão que o Ocidente tem do Irão, um regime com normas sociais de género tão rígidas que castiga (e mata) mulheres por não usarem hijabs e mostrarem o cabelo.
Ainda assim, a qualidade destas intervenções cirúrgicas suscita dúvidas. Em 2015, o relator especial dos Direitos Humanos na República Islâmica do Irão avisava que eram mal executadas, levando muitas vezes a complicações. “Sangramentos graves, infeções, dificuldades de cicatrização, dores crónicas e órgãos sexuais colocados e formados de maneiras anormais”, são alguns dos exemplos que se pode ler no relatório.
Enquanto os especialistas dizem que este é um procedimento que exige tempo, implicando meses de planeamento e recuperação, muitas das empresas turísticas promovem as estadias como “escapadinhas” tão curtas como uma semana.
Shahryar Cohanzad, urologista em Teerão, que já fez 300 cirurgias de mudança de sexo, sublinha que o objetivo das empresas é fazer o máximo número de operações possível em pouco tempo, alertando para os perigos que isso envolve.
Texto editado por Dulce Neto