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Vitórias do PSD nas terras dos líderes da oposição, 17 bastiões com 50 anos e o bis de Sernancelhe — 10 curiosidades das eleições

Este artigo tem mais de 6 meses

Sociais-democratas ganharam Baião, Algueirão Mem-Martins e São João da Madeira. Em 17 concelhos, o mesmo partido governa há 50 anos. Nos Açores, uma eleição para uma câmara foi decidida por 7 votos.

Uma eleitora coloca o seu boletim de voto na urna de votos para a Câmara Municipal de Lisboa, 12 de outubro de 2025. Decorrem este domingo as eleições autárquicas em Portugal onde mais de 9,3 milhões de eleitores podem votar. Os eleitores vão escolher os órgãos dirigentes das 308 Câmaras Municipais, 308 Assembleias Municipais e 3.221 Assembleias de Freguesia, pelo que há três boletins de voto. ANDRÉ KOSTERS/LUSA
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ANDRÉ KOSTERS/LUSA

ANDRÉ KOSTERS/LUSA

As eleições autárquicas deste domingo resultaram na mudança de cor da Associação Nacional de Municípios, que depois de dez anos sob a batuta do PS é a partir de agora liderada pelo PSD, que conquistou 136 municípios, contra 128 do PS. As coligações encabeçadas pelos sociais-democratas venceram seis dos 10 concelhos mais populosos do país (Lisboa, Sintra, Gaia, Porto, Cascais e Braga), enquanto o PS ganhou noutros três (Loures, Amadora e Matosinhos).

Já o Chega perdeu cerca de 800 mil votos em relação às legislativas de maio passado e, como André Ventura reconheceu, ficou “aquém” dos objetivos. O partido conquistou apenas três presidências de Câmara, muito abaixo dos 30 municípios definidos como meta pelo presidente do partido.

Os movimentos independentes venceram em 20 municípios, a CDU em 12, o CDS-PP em seis, o Juntos pelo Povo e o Livre um cada. Mas analisados com maior detalhe, os resultados destas autárquicas revelam também alguns factos curiosos.

Os vencedores, os vencidos e o sobrevivente das autárquicas

Maior vitória eleitoral foi em Sernancelhe

O concelho de Sernancelhe, no interior do distrito de Viseu, foi o município onde o partido vencedor conquistou a maior percentagem de votos. Neste concelho, com apenas 5 mil eleitores, o PSD arrecadou 78,47% dos votos (2.952 votos), contra apenas 8,83% (332 votos) do Chega, que ficou na segunda posição — uma diferença de quase 70 pontos percentuais. No terceiro lugar, surge o PS, com 7,92% (298 votos).

Já nas eleições autárquicas de 2021, Sernancelhe tinha sido o concelho onde se registara a maior vitória entre os 308 municípios. Há quatro anos, o social-democrata Carlos Santiago tinha sido eleito com 81,89% dos votos.

Em Lisboa, partidos de esquerda tiveram menos votos coligados do que em 2021

A coligação ‘Viver Lisboa’ não conseguiu capitalizar o habitual efeito positivo das listas conjuntas. Os partidos que compunham a coligação de esquerda PS/Livre/BE/PAN que concorreu à Câmara Municipal de Lisboa tiveram menos votos em coligação este domingo do que tinham tido quando concorreram de forma autónoma em 2021.

Nas eleições autárquicas, a coligação de esquerda “Viver Lisboa”, encabeçada por Alexandra Leitão, obteve 90.068 votos, o equivalente a 33,95% dos votos.

Nas eleições autárquicas de 2021, a coligação PS/Livre, encabeçada por Fernando Medina, tinha obtido 80.869 votos. Nessas eleições, o Bloco de Esquerda ficou em quarto lugar, com 15.054 votos e o PAN conseguiu outros 6.625 votos — o que resulta numa soma de 102.548 votos, mais cerca de 12.500 votos do que nas eleições de 2025.

Após suspense ficou quase tudo na mesma: Moedas reeleito, PS a subtrair e CDU perde para o Chega por 11 votos

Chega venceu 13 juntas de freguesia, um terço das arrecadadas pelo CDS-PP

O Chega venceu as eleições autárquicas em três concelhos (São Vicente, Entroncamento e Albufeira) e 13 juntas de freguesia: Albufeira e Olhos d’ Água, Ferreiras e Conceição, no distrito de Faro; Quinta do Conde, Poceirão e Marateca, Quinta do Anjo e Atalaia Alto Estanqueiro-Jardia no distrito de Setúbal; Santa Eulália, no distrito de Portalegre; Boa Ventura, São Vicente e Ponta Delgada, na região Autónoma da Madeira; Maiorca, no distrito de Coimbra; e Nossa Senhora de Fátima, no distrito de Santarém.

O partido liderado por André Ventura ganhou cerca de um terço das juntas de freguesia conquistadas pelo CDS-PP, que venceu 43. Já em relação à CDU, a diferença é ainda maior. As coligação entre PCP e o partido Os Verdes conquistou 97 juntas de freguesia.

▲ Chega conquistou três câmaras municipais e 13 juntas de freguesia

Igor Martins

Bloco de Esquerda e PAN não elegeram ninguém nas autárquicas

O Bloco de Esquerda e o PAN não conseguiram eleger ninguém em listas próprias nas eleições para câmaras municipais nestas autárquicas. O Bloco de Esquerda tinha conseguido quatro eleitos em 2021. O PAN voltou a repetir o resultado de há quatro anos, com zero eleitos. Como termo de comparação, e tendo apenas em contas as eleições de vereadores, o CDS-PP teve 28 eleitos nas eleições deste domingo, a Iniciativa Liberal dois, o PCP 93, o Chega 136, o PSD 409 e o PS 769.

Castelo de Paiva foi o concelho com menor taxa de abstenção

As eleições autárquicas de 2025 registaram a menor taxa de abstenção (40,74%) desde 2005, segundo dados provisórios da Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna. Nas últimas autárquicas, em 2021, a taxa de abstenção foi de 46,35%, a segunda mais alta em eleições locais, um pouco abaixo do valor recorde de 47,4% atingido em 2013. Apesar da melhoria registada este ano, a taxa de participação não foi suficiente para superar a abstenção registada em 2005 (39,02%).

Nas eleições autárquicas de 2025, o concelho de Castelo de Paiva, no distrito de Aveiro, foi o que registou uma taxa de abstenção mais baixa — apenas 19,17% (mais de 20 pontos abaixo da média nacional). Fornos de Algodres, no distrito da Guarda, surge logo a seguir com 21,2% de abstenção.

17 câmaras resistem e nunca mudaram de cor desde 1976

Este domingo, os eleitores foram chamados a votar nas 14ªs eleições autárquicas da história da democracia em Portugal. As primeiras eleições locais realizaram em dezembro de 1976 e, desde aí, 17 câmaras só conheceram um partido vencedor. São os conhecidos ‘bastiões’. Apesar de serem cada vez menos, alguns resistem. Nestas autárquicas, sete caíram mas outros 17 mantiveram-se.

É o PSD que continua a conservar o maior número de bastiões: sete (Arcos de Valdevez, Oleiros, Santa Maria da Feira, Valpaços, Calheta, na Madeira, e Câmara de Lobos). O PS ainda mantém seis bastiões: Alenquer, Campo Maior, Gavião, Odivelas, Olhão e Portimão. Já a CDU mantém quatro bastiões, dois no Alentejo e outros dois na Península de Setúbal (Arraiolos, Avis, Seixal e Palmela).

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▲ Alenquer é um dos bastiões socialistas que resiste desde 1976

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PS e PSD juntam-se em Santiago do Cacém para derrubar bastião da CDU

Desde 1976 que a CDU somava vitórias folgadas em Santiago do Cacém, no distrito de Setúbal. Essa realidade mudou nas eleições autárquicas deste domingo. Militantes do PS e PSD decidiram formar um movimento independente, chamado Somos Todos Cidadãos (STC), para tentar retirar a câmara aos comunistas. E com sucesso. O STC conseguiu 40,35% (5.647 votos), mais 93 votos que a CDU (que obteve 39,67%). Em terceiro lugar, ficou o Chega, com 11,61%.

PSD ganhou em Baião, São João da Madeira e Algueirão Mem-Martins

O PSD venceu as eleições autárquicas em três concelhos ligados a atuais e ex-líderes da oposição. Na terra natal do secretário-geral do PS José Luís Carneiro, Baião, a coligação PSD/CDS-PP conquistou 6.056 votos (51,68% do total), à frente dos 4.766 do PS (que obteve 40,67% do total). Esta foi uma das muitas câmaras que mudou de cor, já que tinha sido ganha pelos socialistas em 2021.

Já em São João da Madeira, também no distrito do Porto, a coligação PSD/CDS-PP também conquistou a câmara ao PS, ao recolher 44% dos votos, contra 39,2% dos socialistas.  São João da Madeira é a terra natal do ex-secretário-geral do PS Pedro Nuno Santos.

Na terra natal de André Ventura, também foi o PSD a “cantar” vitória. Em Algueirão-Mem Martins, a coligação entre os sociais-democratas, o CDS-PP e o PAN ganhou na votação para a Câmara de Sintra e também conquistou ao PS a presidência da junta de freguesia (por cerca de 200 votos). Esta é a mais populosa freguesia do país, com quase 70 mil habitantes.

No duelo de irmãos em Aveiro, ganhou o mais novo

Para além do facto de Ribau Esteves (PSD) estar a terminar um ciclo de 12 anos à frente da Câmara de Aveiro, o que poderia abrir a porta à mudança de cor da autarquia, as eleições locais de 2025 tinham outro fator de interesse: os dois principais candidatos, apoiados por PSD e PS, eram irmãos. E a vitória sorriu a Luís Souto de Miranda, cinco anos mais novo. O candidato da coligação PSD/CDS-PP/PPM conseguiu obter 39,35% dos votos, à frente dos 33,67% de Alberto Souto de Miranda, do PS.

“Indecente.” “Isaltino de terceira.” “O tempo dele já foi.” O duelo dos manos rivais de Aveiro descambou

Em Santa Cruz das Flores, sete votos decidiram a presidência

Apesar de, na maioria dos concelhos, os resultados terem sido suficientemente díspares para concederem ao partido vencedor uma maioria absoluta, noutros a votação foi extremamente renhida, o que criou incerteza até final da contagem dos votos. Em Vila do Bispo, no distrito de Faro, o PS perdeu a presidência da câmara por 44 votos para o PSD. Em Caminha, no distrito de Viana do Castelo, a diferença foi ainda mais curta: o PSD também aqui retirou a autarquia aos socialistas, mas por apenas 30 votos.

No entanto, a contagem mais renhida registou-se na Região Autónoma dos Açores. Em Santa Cruz da Flores, na ilha das Flores, um movimento independente, chamado Movimento Cívico pelo Concelho, ganhou por apenas sete votos ao PSD. O PS, que liderava a câmara, foi relegado para terceira força política.

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