O regime de Bashar al-Assad levou a cabo durante dois anos uma operação clandestina para mover milhares de corpos de uma vala comum na Síria para uma localização secreta no deserto Dhumair. A notícia é avançada pela agência Reuters que, com base em vários testemunhas, incluindo o relato de um ex-oficial da Guarda Republicana de elite de Assad, revela que o objetivo seria encobrir os crimes cometidos durante a guerra civil síria e tentar restaurar a imagem do país.
Segundo a agência norte-americana, os corpos foram transferidos da vala comum de Qutayfah — uma das mais conhecidas na Síria que fica numa localidade a cerca de 40 quilómetros a norte de Damasco — para o deserto de Dhumair, a mais de uma hora de distância. O processo decorreu praticamente todas as semanas, durante quatro noites por semana, entre fevereiro de 2019 e abril de 2021. Envolvia diariamente entre seis a oito camiões.
O relato sobre a “Operação Mover a Terra” [em inglês, “Operation Move Earth”] tem por base entrevistas da Reuters com 13 pessoas com conhecimento direto do processo, a consulta de documentos produzidos pelas entidades envolvidas e a análise de centenas de imagens de satélite de ambas as valas comuns captadas ao longo de vários anos.
Durante a investigação foram detetadas 34 escavações com comprimento de cerca de dois quilómetros. A Reuters refere que será uma das mais extensas criadas durante a guerra civil síria e que, com base nos relatos de testemunhas e as dimensões, poderão estar enterrados dezenas de milhares de corpos.
Segundo as testemunhas, o regime de Assad começou por volta de 2012 a enterrar na vala comum de Qutayfah os corpos de soldados e prisioneiros que morreram nas prisões do ditador e hospitais militares. Os envolvidos na transferência para Dhumair — incluindo dois camionistas, três mecânicos, um operador de escavadora e o antigo membro da Guarda Republicana — descreveram recordar-se “vividamente” do mau cheiro. A Reuters questionou o atual governo, mas não obteve qualquer resposta.