O veterano do exército britânico acusado de homicídio e tentativa de homicídio no massacre do Domingo Sangrento foi absolvido esta quinta-feira. De acordo com o The Guardian, o Tribunal de Belfast considerou que as provas apresentadas pelo Ministério Público não eram suficientes para sustentar a condenação pelo tiroteio de 30 de janeiro de 1972 em Derry, quando o Regimento de Paraquedistas abriu fogo sobre as pessoas que protestavam pelos direitos civis, provocando 13 mortos e vários feridos.

Durante o julgamento, que decorreu ao longo de cinco semanas, o veterano, conhecido como soldado F, manteve-se sob anonimato, protegido por um cortinado no banco dos réus. Tinha sido acusado de dois homicídios — os de James Wray, de 26 anos, e William McKinney, de 22 — e de cinco tentativas de homicídio. Declarou-se sempre inocente de todas as acusações e não apresentou testemunhas nem provas em sua defesa.

Patrick Lynch, o juiz que presidiu ao julgamento, afirmou na leitura da sentença que “para haver condenação, as provas têm de ser convincentes e manifestamente fiáveis”. Segundo o magistrado, as provas apresentadas pela acusação “ficaram muito aquém deste padrão e não atingem o elevado padrão exigido num processo criminal — o da prova para além de qualquer dúvida razoável”. Assim, declarou o veterano britânico “inocente de todas as sete acusações formais“.

Lynch reconheceu que o tempo decorrido — mais de 50 anos desde os acontecimentos — dificultou o processo judicial e enfraqueceu a credibilidade dos testemunhos. “As declarações, únicas e decisivas, de dois antigos camaradas do acusado não podem ser testadas da mesma forma que o seriam se os autores tivessem comparecido em tribunal. O atraso, na minha opinião, prejudicou seriamente a capacidade da defesa de testar a veracidade e a exatidão dessas declarações indiretas”, afirmou, considerando que os soldados G e H foram “sistematicamente desonestos”.

Ao anunciar o veredito, o juiz salientou, no entanto, que os acontecimentos de 1972 representaram “uma perda total do sentido de disciplina militar” por parte das tropas britânicas, acrescentando que “quem disparou sobre civis desarmados em fuga deveria baixar a cabeça de vergonha”.

O massacre do Domingo Sangrento marcou profundamente o conflito norte-irlandês, conhecido como “The Troubles”. Um inquérito inicial ilibou os soldados, mas uma investigação posterior, realizada em 2010, concluiu que as vítimas não representavam ameaça e que houve um encobrimento prolongado. Na altura, o então primeiro-ministro, David Cameron, pediu desculpa em nome do Governo britânico, descrevendo as mortes como “injustificadas”.

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Reações divergem entre a satisfação e um desfecho “profundamente dececionante”

A decisão do juiz provocou reações divididas à porta do tribunal: as famílias das vítimas consideraram que a justiça não funcionou da melhor forma, enquanto os veteranos do exército britânico celebraram a absolvição do soldado F.

Mickey McKinney, irmão de uma das vítimas, culpou o Estado britânico por ser “cúmplice de assassinato e encobrimento” e acrescentou que “o soldado F foi dispensado do banco dos réus, mas está a milhões de quilómetros de uma ‘dispensa honrosa'”.

Michelle O’Neill, primeira-ministra da Irlanda do Norte, também considerou o desfecho do caso “profundamente dececionante”. “Há 53 anos o exército britânico assassinou civis indiscriminadamente nas ruas de Derry”, disse, lamentando que “nenhum soldado britânico ou os seus superiores militares e políticos tenham sido responsabilizados”.

Por seu turno, Paul Young, porta-voz do Movimento dos Veteranos da Irlanda do Norte, disse que “os soldados do Reino Unido ficarão felizes com esta decisão” e manifestou a esperança de que “não haja mais soldados a serem levados a tribunal com provas que na verdade não tem maneira de serem aceites”

Também o líder do Partido Unionista Democrático, Gavin Robinson, afirmou que a maioria das tropas que serviram durante o conflito “agiu com honra”.

Um porta-voz do Governo britânico anunciou, entretanto, que o executivo tomou nota da decisão judicial e reiterou o compromisso de “encontrar um caminho que reconheça o passado, ao mesmo tempo que se apoia aqueles que serviram o seu país durante um período incrivelmente difícil na história da Irlanda do Norte”.