O PS pré-Carneiro já pedia, sem rodeios, a demissão de Ana Paula Martins de ministra da Saúde, na era Carneiro recolheu esse pedido, mas agora o líder socialista já faz o mesmo. Esta quarta-feira assumiu que já é tempo de o primeiro-ministro dizer à ministra da Saúde que não tem condições para se manter no cargo.

Convocou os jornalistas para uma conferência de imprensa de urgência para falar da notícia do jornal Público sobre uma instrução dada pela direção executiva do SNS aos para cortarem na despesa para 2026, reduzindo os gastos com medicamentos, prestadores de serviço e contratações de pessoal. Carneiro diz ter lido a notícia “com estupefação”, considerando a decisão “de uma gravidade inaudita, tendo em conta a gravidade em que já se encontrava o SNS”. O socialista diz esperar que “esta orientação política não venha a servir para externalizar serviços hoje garantidos pelo SNS, porque se assim for a gravidade agudiza-se a ponto da incompreensão”.

Direção Executiva do SNS emitiu ordem para hospitais cortarem na despesa em 2026, mesmo que atrase consultas e cirurgias

O caso fez com que Carneiro subisse de tom em relação à ministra da Saúde quem, agora, pede a demissão. “Compete ao primeiro-ministro transmitir, com gentileza, à ministra da Saúde que ela está sem autoridade política, que ela já deixou de o ser”, declarou.

Nesta área da governação, o socialista apontou problemas vários, a começar pelo “mais de um milhão e meio de portugueses sem médico de família, é mais de um milhão de portugueses à espera de uma primeira consulta, excluindo oncologia e cardiologia — são 4.973 cirurgias para a oncologia e mais de 24 mil consultas para efeitos de cardiologia”. A situação, considerou, “mostra bem a incapacidade de resposta de um governo que prometeu tudo e a todos e com celeridade.”

Acusou Montenegro que se refugiar “permanentemente numa agenda que não diz respeito às prioridades das pessoas”, apontando essa mesmo como uma estratégia com um objetivo concreto: “Às vezes dá a impressão que o Governo põe na agenda temas para desviar atenções do que é vital para a vida das pessoas.”

E nessa agenda vai colocando a declaração do primeiro-ministro de terça-feira à noite, depois de aprovado o Orçamento do Estado no Parlamento. Segundo José Luís Carneiro, a declaração teve apenas um propósito da parte do primeiro-ministro que foi o de se “esconder da aliança que fez com o Chega sobre a lei da nacionalidade”.

Nessa legislação, a posição do PS foi contrária à do PSD, que teve o apoio do Chega para avançar com as alterações à lei, mas no Orçamento tinha acabado de ter o apoio do PS. Confrontado com o aval socialista dado à proposta do Governo, sozinho ao lado dos deputados únicos do JPP e do PAN, Carneiro voltou a enumerar as razões (da estabilidade política à proximidade de eleições) que fizeram o PS decidir-se pela abstenção e acabou a garantir, referindo-se ao primeiro-ministro, que “um voto contra até lhe poderia dar jeito para responsabilizar o PS pela sua incompetência e pela sua irresponsabilidade, mas o PS não lhe deu essa satisfação”.

A partir daqui, Carneiro diz que Montenegro “não terá desculpas para não resolver e para não responder às questões fundamentais que se colocam aos portugueses e que ele prometeu resolver como se de uma varinha de condão se tratasse”. “Em 2026, vai ter de mostrar aquilo que vale para responder às necessidades da habitação, para responder às necessidades da saúde, para responder às necessidades dos rendimentos, para que os portugueses possam avaliar, no fim do exercício orçamental” e para todos avaliarem, “os termos em que cumpre ou não cumpre com os compromissos que assumiu com os portugueses”.