O Millennium BCP fechou os primeiros nove meses do ano com lucros de 775,9 milhões de euros, mais 8,7% do que no mesmo período do ano anterior. Destes lucros, 654,5 milhões dizem respeito à operação portuguesa (uma subida de 8%), com o restante resultado a ser obtido nas operações internacionais, designadamente na Polónia.

As declarações foram feitas durante a conferência de imprensa para apresentar os resultados trimestrais do maior banco privado português, um evento que, por coincidência, aconteceu no dia em que acabou por ser assinada a venda do Novo Banco ao BPCE. Na mesma manhã, houve buscas judiciais feitas pela Polícia Judiciária, não só no Novo Banco mas, também, na consultora KPMG.

Questionado pelo Observador na conferência de imprensa, o banqueiro evitou fazer “qualquer comentário” acerca deste caso. “Obviamente não faço nenhum comentário”, afirmou Miguel Maya, dizendo que “não conhece” as suspeitas que estão a ser investigadas.

Já tive oportunidade de dizer várias vezes que o Novo Banco é muito bem gerido, tem profissionais competentes e é um concorrente acérrimo. Não tenho qualquer comentário a fazer”, afirmou.

Em julho, em entrevista ao Observador, Miguel Maya tinha dito que quando se fala em custos para os contribuintes da resolução do Novo Banco, se faz uma confusão. “Os contribuintes somos nós”.

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“Não são os cidadãos portugueses que têm contribuído“, afirma: “são, sobretudo, os bancos, através das contribuições” que fazem há vários anos para o Fundo de Resolução. “São os bancos que vão andar aqui mais de 30 anos a fazer o pagamento da dívida da resolução”, argumentou Miguel Maya.

Resultados sobem apesar de descida da margem financeira em Portugal

A informação sobre os resultados trimestrais foi difundida nesta quarta-feira pelo banco em comunicado à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) e apresentada pelo presidente do maior banco privado português, Miguel Maya. Os lucros do banco geram uma rentabilidade dos capitais próprios (ROE) de 14,6%.

O banco viveu “um enquadramento mais complexo do que se antecipava“, afirmou Miguel Maya, destacando o impacto das “duas guerras” que tem impacto na economia portuguesa e europeia. Ainda assim, o banco foi capaz de resistir à descida dos juros, que pressiona a margem financeira negativamente nos bancos.

A margem financeira do BCP nestes nove meses aumentou 2,6% para 2.166,6 milhões de euros – embora na operação em Portugal tenha havido uma descida de 0,9% na margem financeira. Esse impacto negativo, que compara com os primeiros nove meses de 2024, em que as taxas de juro (Euribor) estavam num nível significativamente mais elevado.

BCP consumiu 44% do plafond da garantia pública. Garante "rigor" nas operações

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Os jovens elegíveis para a garantia pública pesam cerca de 47% na concessão de crédito do BCP, afirmou Miguel Maya, salientando que, no BCP, “à data de hoje temos cerca de 44% utilizado” do plafond” atribuído a este banco.

“Ainda temos plafond para chegar até ao final do ano e depois a partir do final do ano veremos como as coisas se vão processar”, afirmou Miguel Maya.

O presidente do BCP salientou, porém, que nestes créditos “do ponto de vista do rigor, é exatamente o mesmo ao tratar destas operações”. “Somos rigorosos naquilo que é o nosso dever de informar os clientes sobre a sua capacidade para pagar a dívida, independentemente da garantia”, afirmou o presidente do banco.

Por outro lado, a cobrança de comissões aumentou 4% para 628,8 milhões, o que faz com que o produto bancário (margem + comissões) tenha crescido 2,9% para 2.715,4 milhões de euros.

Os custos operacionais do banco, porém, subiram mais de 9% para 1.032,5 milhões de euros – com um crescimento maior nas operações internacionais mas, também, um aumento “relevante” na operação doméstica. Assim, o resultado operacional (core) baixou ligeiramente (0,4%) para 1.762,9 milhões de euros.

Bancos portugueses “carregam fardo” das contribuições, diz Miguel Maya

Recusando falar sobre as buscas no Novo Banco, Miguel Maya preferiu falar do “enorme fardo” que incide sobre o sistema financeiro português, com sede em Portugal. Em contribuições específicas de Portugal o BCP suportou 38,7 milhões de euros, praticamente o mesmo que os 39,5 milhões do mesmo período do ano anterior – isto apesar de, no ano em curso, não ter sido cobrada a contribuição de solidariedade que foi considerada inconstitucional e teve de ser devolvida aos bancos.

Os bancos pagam a contribuição cobrada ao setor bancário (28,6 milhões) e a contribuição para o Fundo de Resolução, que superou os 10 milhões de euros. Deixaram de pagar a contribuição adicional de solidariedade que tinha sido aplicada na pandemia de Covid-19. O ministro das Finanças já avisou, no entanto, que vai encontrar uma solução para obter dos bancos uma contribuição equivalente à que desapareceu.

"Para já, parceria com BPCE em França não está a ser reavaliada"

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O Millennium BCP tem uma parceria em França com o BPCE, o banco que acaba de assinar a compra do Novo Banco – ou seja, são parceiros em França mas concorrentes em Portugal.

“Temos ótimas relações, temos uma parceira em França que não está a ser reavaliada, estamos ambos satisfeitos com a parceria”, afirmou Miguel Maya.

“Em algum momento, se se justificar, faremos uma análise, veremos mais à frente o que é que isto tem de implicações e se se justifica ou não rever essa parceria”, afirmou o banqueiro, garantindo que esta “não é uma prioridade”.

“A minha leitura das palavras do senhor ministro das Finanças é que poderá haver uma solução que abarque o sistema financeiro” mas que não se limite à cobrança de contribuições ou impostos aos bancos que têm sede em Portugal e que “ajudam a economia a crescer”.

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O líder do BCP salientou que se fala muito nos impostos que são pagos pela banca e pouco sobre os impostos pagos por outros setores, salientando, mais uma vez, que o setor bancário está a “carregar” custos específicos da atividade, além dos impostos normais (IRC, etc.) – o que o coloca em desvantagem não só contra outros setores mas, também, contra os bancos de outros países europeus.

“Não consigo compreender como é que tardam em corrigir uma coisa que é injusta e condiciona” a atividade do banco, afirmou. “Não queremos nenhum favor, mas não nos penalizem” face aos concorrentes que estão ativos no setor financeiro português mas não pagam as mesmas contribuições por não terem sede em Portugal.