O Banco Português de Fomento (BPF) registou, nos primeiros nove meses do ano, um “crescimento histórico” na atividade de apoio à economia. O financiamento às empresas, através de crédito com garantias, ultrapassou os cinco mil milhões de euros (5.150 milhões) até ao terceiro trimestre de 2025, um valor mais de dez vezes superior ao registado em todo o ano passado.
Na apresentação do impacto e dos resultados do banco, que decorreu esta quinta-feira, o CEO do BPF, Gonçalo Regalado, detalhou ainda que em percentagem do PIB, o impacto do BPF na economia foi de 1,8%, que compara com 0,2% em 2024. A “ambição” da instituição é alcançar os 2% do PIB, somando financiamento, dívida emitida e garantias face ao stock bancário.
O número de empresas apoiadas passou de 2.400 para 12.500, com 82% de novos clientes.
Ainda até ao terceiro trimestre, o banco liderou o apoio a três projetos de dimensão nacional, num montante superior a 3,4 mil milhões de euros: o novo hospital de Lisboa Oriental, a alta velocidade ferroviária e dois data centers em Lisboa. Ao novo hospital, o BPF concedeu 15 milhões de euros de financiamento direto, num projeto que terá um investimento total de 455 milhões. A linha de alta velocidade será financiada com 110 milhões de euros em garantias. O investimento total do projeto será de 2.680 milhões. Já os dois centros de dados em Lisboa receberam 25 milhões em investimento direto, num investimento total de 253 milhões.
Há ainda quatro projetos em pipeline “em fase avançada”, no valor de cerca de 600 milhões de euros, para receberem apoio. O primeiro será um projeto do setor automóvel, que terá um investimento total de 400 milhões (a fábrica da Autoeuropa em Palmela). Está ainda em vias de receber apoio um projeto de hidrogénio, outro de armazenamento, na zona Centro, no setor industrial de produção de motores elétricos e geradores. E ainda um projeto na área da agricultura, com um investimento total de 129 milhões, em Santarém, que quer transformar Portugal no principal hub europeu de produção contínua de cenouras bebés.
Candidatura à gigafactory tem “músculo para ser escolhida”
O BPF ainda lidera o consórcio que está a tentar atrair a primeira gigafactory para Portugal, num investimento que, a concretizar-te, será superior a quatro mil milhões de euros, apoiados pela União Europeia. Segundo Gonçalo Regalado, já estão mobilizadas “60 grandes empresas em muitos setores” como a Volskwagen, a Renault, a Airbus (na indústria) ou a Bial, a Bluepharma e a Hovione (na saúde), além de startups e universidades públicas.
A candidatura, que será formalizada no início de 2026, tem “músculo para ser escolhida” pela Comissão Europeia, acredita o CEO do BPF. Espera-se que o projeto tenha um investimento recorrente de 2,5 mil milhões de euros a cada cinco anos, devido à necessidade de renovação dos GPU, e que o impacto no PIB seja de 0,8%. Poderá criar 700 empregos a tempo inteiro.
O BPF estabeleceu uma parceria com a empresa de chips Nvidia para que, caso Portugal vença o projeto, haverá disponibilidade de GPU para permitir “termos o investimento em Portugal com base de serviço europeu”. Os GPU de suporte serão os B300 da Nvidia. A candidatura assume que a fábrica a instalar em Portugal será em Sines.
Com mais de mil milhões em imparidades, BPF cria estratégia para recuperar crédito
Segundo o CEO do Banco de Fomento, o banco criou uma “estratégia robusta” de acompanhamento e recuperação de crédito. O banco tem mil milhões de euros de imparidades que “vêm do passado”, sendo que, deste valor, 450 milhões utilizaram o aval do Estado, o que significa que há uma perda. 600 milhões de euros foram registados como imparidade nas contas do banco e do grupo. O rácio de NPE é quase dez vezes o rácio europeu.
Nesse sentido, banco está a criar uma “máquina de recuperação de crédito semelhante à da banca comercial”, com 60 pessoas, 10% dos quadros do grupo, que vão “cuidar do lado sombrio”. A carteira de crédito em incumprimento foi segmentada em quatro grupos, com base na probabilidade de recuperação e no montante a recuperar.
“Quanto maior é a maturidade e longevidade do incumprimento menor é a probabilidade de sucesso de recuperação”. A expectativa é, no entanto “positiva”, porque 60% das empresas em incumprimento “estão vivas e em atividade”.
Segundo Gonçalo Regalado, com as equipas de recuperação próprias, a automatização e a máquina de ação judicial em funcionamento, “vamos conseguir recuperar o máximo possível, e só chegaremos ao último patamar, de venda de carteiras, se sentirmos que em todo este caminho não foi possível recuperar”.
O CEO do BPF detalhou que “mais de 80% são valores muito pequenos, não há tickets de 20 ou 30 milhões de euros”, e que o bolo diz respeito a 13 mil empresas. “São incumprimentos na casa dos 60 mil euros de ticket médio”. “Há uma enorme capilaridade”. O banco vai dar às empresas planos de recuperação para pagar as dívidas. O BPF não tem tido uma entrada significativa de imparidades, pelo que “o desafio é o stock e não o fluxo”.
Na apresentação, que decorreu no museu do Tesouro Real, em Lisboa, o BPF apresentou também os seus resultados financeiros. O resultado líquido nos primeiros nove meses foi de 10 milhões de euros, com Gonçalo Regalado a destacar que a rentabilidade do banco “será só a necessária”. “É possível passar para 20, 50 ou 100 milhões, aumentando o valor que as empresas pagam pelos nossos serviços, mas isso seria um imposto encapotado às empresas, e não vamos fazer isso”, garantiu.
Não foram distribuídos dividendos aos acionistas (todos públicos), com o CEO a admitir que o banco pode vir a ter uma política de dividendos de 20 ou 30%, “mas se continuar a ser marginalmente positivo… são 7,5 milhões de euros a distribuir por um conjunto de instituições públicas”. Para Gonçalo Regalado, “é irrelevante onde fica o lucro do BPF, “o que importa é o multiplicador de financiamento e de investimento”.
IFIC tem sido “uma grande alegria”
No início do verão, no âmbito da reprogramação do PRR, foi lançado o IFIC, um instrumento financeiro destinado a investimentos inovadores em empresas, com uma dotação inicial de 315 milhões de euros, que vêm de verbas não utilizadas do PRR. O instrumento é gerido pelo BPF, que já lançou quatro avisos para as empresas (linha Reindustrializar com 150 milhões, linha para a Economia de Defesa e Segurança com 50 milhões, linha IA para PME com 100 milhões e linha Deep Tech com 15 milhões). Segundo Gonçalo Regalado, o IFIC tem sido “uma ótima surpresa e uma grande alegria”.
Foram recebidas 1750 candidaturas na IA, num valor superior a 200 milhões de euros, na dimensão da defesa e da reindustrialização também já há candidaturas, e a expetativa é de que a disponibilidade dos empresários para investir seja “superior ao dos avisos lançados”. Com isso, há a expectativa de que as dotações sejam reforçadas. “Só se podem reforçar dotações se a procura o justificar”. Gonçalo Regalado diz que a lista das empresas candidatadas aos fundos de IA abrangem “todos os setores” e algumas das “melhores empresas portuguesas”.