Foram 47 anos sem a informação que, de um segundo para o outro, mudou toda a vida: Henrik Lenkeit é neto de Heinrich Himmler, o braço direito de Hitler durante a Segunda Guerra Mundial. Na família, nunca ninguém lhe contou a realidade, nem sequer durante as visitas à avó Hedwig Potthast, e foi o conselheiro de casais a descobrir a verdade pelos próprios meios.
O jornal Telegraph conta que Lenkeit descobriu tudo há dois anos quando viu um documentário na televisão, “Who Was Himmler?”, e sentiu curiosidade para procurar mais sobre o homem que sabia ter sido muito próximo de Hittler. Numa dessas pesquisas deparou-se com uma fotografia da amante de Himmler e reconheceu o rosto da sua avó, que para Lenkeit era conhecida como Mutti. Chamava-se Hedwig Potthast, trabalhava como sua secretária particular do braço direito de Hittler durante a guerra e teve dois filhos com Himmler.
Para o neto, durante toda a vida o avô foi Hans Staeck, com quem Potthast casou em 1955. Porém, essa verdade não se confirmou e quando descobriu tudo a mãe e filha de Himmler, Nanette-Dorothea, já tinha morrido.
Henrik Lenkeit recorda-se do funeral da avó e estranhou o ambiente, ainda que na altura não tivesse qualquer possibilidade de o entender. “Percebi que o clima não era particularmente triste. Tinha apenas 17 anos, mas lembro de achar estranho que tão poucas pessoas parecessem estar lamentando sua morte.”
Dois anos depois do choque, Lenkeit recorda o momento em que juntou todas as peças do puzzle: “Levei um murro no estômago. Sentia-me uma panela de pressão prestes a explodir.” E entrou em negação: “Sou mesmo neto desse homem?”, perguntou à esposa.
Com as pesquisas a aumentarem, os resquícios de dúvidas desapareceram e o neto começou mesmo a perceber que há cartas trocadas entre os avós, que se sabe quem fez o parto e outros pormenores da relação que era tudo menos secreta.
A viver em Málaga com a mulher e os três filhos desde 2018, Henrik Lenkeit admitiu ao jornal The Telegraph que a descoberta o levou, em certo sentido, a “perder o sentido da vida”, mas reconheceu que se foi “reerguendo”, ainda que haja altos e baixos: “Não é linear, cheguei a questiona se tinha direito de continuar a viver.” Até por sentir que “a vida toda foi uma mentira”. “47 anos da minha vida não foram verdade, estou de luto, com todos os sentimentos de raiva, tristeza, depressão e medo que isso acarreta”, explicou.
Neste momento, Lenkeit diz ter de “perdoar” e dedica a vida a incentivar famílias alemãs para que falem abertamente sobre a herança do nazismo por considerar que a Alemanha passou por um processo nacional em termos políticos, culturais e psicológicos, mas acredita que há uma lacuna na capacidade de as pessoas encararem o passado das famílias.
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