Esta terça-feira, o helicóptero INEM estacionado em Évora foi acionado para uma “missão primária” — um transporte do exterior para um hospital — em Castro Verde. Saiu da base às 14h49, fez uma paragem naquela localidade do sul do Alentejo e chegou ao hospital de Faro às 16h30. Uma hora depois, estava de volta à base alentejana. A missão de socorro mostra que, ao final desta tarde de terça-feira, o aparelho da Gulf Med estacionado em Loulé continuava a não poder ser utilizado. Ao Observador, fontes do instituto admitem que só esta quarta-feira o helicóptero deverá voltar a estar disponível — quatro dias depois de ter sido dado como “inoperacional”.
Em causa está uma peça em falta no kit médico do helicóptero do INEM alocado à base de Loulé. “Haverá uma falha na sela sanitária/kit médico, com a qual o helicóptero não pode voar [em missão de socorro médico]. É uma falha técnica que não envolve a mecânica da aeronave, mas que não foi possível ultrapassar”, diz ao Observador o presidente do Sindicato dos Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar (STEPH), Rui Lázaro. Um profissional do INEM que trabalha a bordo dos helicópteros que compõem o Serviço de Helicópteros de Emergência Médica (SHEM), e que pediu para não ser identificado, detalha que o problema está relacionado com uma peça em falta, e que deverá chegar até esta quarta-feira.
“Por vezes, há peças que não estão em ordem e têm de ser substituídas”, explica, garantindo que é relativamente “frequente” o INEM ter de recusar o helitransporte por falta de condições técnicas dos aparelhos. “Quantas vezes não abortámos missões por problemas destes“, diz a mesma fonte.
Esta segunda-feira, o INEM explicou que “o helicóptero com base em Loulé ficou inoperacional cerca das 15h de sábado, dia 1 de novembro, por motivos de manutenção e logísticos”, sem adiantar mais detalhes. O Observador pediu ao INEM para que fossem detalhados os problemas do aparelho, mas não obteve esclarecimentos até à publicação deste artigo.
A inoperacionalidade do helicóptero foi conhecida depois de, no último sábado, não ter sido possível transportar através do SHEM um bebé em estado crítico entre os hospitais de Faro e Dona Estefânia, em Lisboa — acabando o recém-nascido por ser transportado de ambulância. O bebé nasceu na sexta-feira no Hospital de Portimão, tendo sido detetada uma hemorragia cerebral. A equipa médica decidiu então encaminhar o recém-nascido para o Hospital de Faro, de modo a poder ser avaliado pela especialidade de Neurocirurgia. A situação ter-se-á revelado grave, pelo que foi pedida pelo Hospital de Faro a transferência do bebé para o Dona Estefânia, em Lisboa a unidade mais diferenciada do país em cuidados intensivos neonatais. No entanto, a viagem teve de ser feita de ambulância, num percurso de 270 quilómetros, uma vez que tanto os helicópteros de Loulé como de Évora se mostraram indisponíveis para realizar a missão.
Em outubro, quando se comprometeu com o arranque da operação completa (quatro aparelhos, 24 horas por dia, sete dias por semana), a Gulf Med também disse ao Observador que teria uma quinta aeronave afeta à operação em Portugal, localizada em território nacional, e que se destinaria a substituir alguma das outras quatro aeronaves, em caso de avaria. Não foi isso que aconteceu este sábado — ou sequer até este momento. O próprio presidente do STEPH lembra esse dado: “Onde está o helicóptero de substituição? Teria de haver, segundo o contrato”, diz ao Observador Rui Lázaro.
INEM alegou estado do tempo para helicóptero não voar
Segundo o INEM, mesmo que o helicóptero de Loulé estivesse operacional, não poderia ter feito a viagem para Lisboa, devido às condições meteorológicas que se faziam sentir na capital. “O transporte interhospitalar do bebé, entre Faro e Lisboa, não poderia ter sido assegurado por via aérea a partir de qualquer das bases, Évora ou Loulé, devido às condições meteorológicas adversas que se faziam sentir na altura do pedido, também em Lisboa. Ou seja, mesmo que o helicóptero de Loulé estivesse operacional, o transporte não poderia ser concretizado com recurso a este meio aéreo”, explicou o instituto já esta segunda-feira.
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Segundo o profissional do INEM que falou com o Observador, a decisão acerca das condições para realizar uma missão é sempre tomada pelo piloto. Neste caso, o piloto que estava aos comandos do helicóptero alocado à base de Évora entendeu que não haveria condições para realizar o transporte, por causa do estado do tempo que se fazia sentir em Lisboa. “Não havia condições meteorológicas para aterrar em Lisboa, segundo o piloto de Évora“, diz ao Observador o presidente do STEPH, Rui Lázaro.
O pedido de transferência do recém-nascido foi feito pela Unidade Local de Saúde do Algarve cerca das 18 horas de sábado. Nesse dia, 1 de novembro, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) tinha emitido um alerta laranja para o distrito de Lisboa até às 6h da manhã, que passou a amarelo das 12h às 15 horas. Depois disso, não havia qualquer aviso emitido, sendo que a intensidade do vento era fraca ao final da tarde.
O Observador questionou o INEM sobre que condições meteorológicas em concreto impediram os dois aparelhos — de Loulé e de Évora — de realizar a missão no sábado, mas também não obteve resposta a essa questão.
INEM trocou helicópteros três horas antes do pedido de transporte de recém-nascido
No mesmo dia, a 1 de novembro, pelas 15 horas, o helicóptero do INEM que tinha estado alocado à base de Loulé nas últimas semanas foi deslocado para a base de Viseu, a única que não tinha ainda um aparelho atribuído, sendo que um outro aparelho (que não estava ainda ao serviço do INEM) foi transferido para Loulé. Nesse sábado, ao final da tarde, quando ainda não tinha sido tornado público o caso da falha na transferência do bebé por via aérea, o INEM congratulava-se com “a disponibilidade permanente” das quatro aeronaves, sediadas nas bases de Macedo de Cavaleiros, Viseu, Évora e Loulé, “assegurando cobertura aérea em todo o território continental” em regime de “24 horas por dia, sete dias por semana”.
Algo que nunca terá chegado a acontecer, uma vez que o helicóptero enviado para Loulé no sábado (e que substituiu o aparelho que passou a estar alocado à base de Viseu) já veio com a falha no kit médico, que só terá sido detetada no próprio dia, apurou o Observador. “O helicóptero que estava em Loulé foi para Viseu. O que foi para Loulé veio da formação dos pilotos e não estava a fazer emergência médica real”, esclarece o presidente do STEPH, pelo que, num contexto de treino, poderia voar com a falha no kit técnico. Ao serviço do INEM, isso não é possível, até por uma questão de segurança clínica para os doentes, explica o funcionário do INEM ouvido pelo Observador, referindo, no entanto, não saber em concreto que peça falta na sela sanitária.
O Observador perguntou ao INEM se existe alguma estimativa para que a falha no aparelho de Loulé seja ultrapassada e quando este helicóptero poderá ficar operacional, mas, mais uma vez, não obteve resposta.
Quanto ao bebé que foi transportado para Lisboa, continua internado em estado grave nos cuidados intensivos do Hospital Dona Estefânia, confirmou ao Observador a ULS de São José.