Na passada semana, a Noruega apercebeu-se que a sua rede de autocarros de transporte público possui uma quantidade enorme de veículos eléctricos adquiridos à chinesa Yutong e que estes têm um sistema de gestão que incluía um cartão SIM, curiosamente de uma empresa romena, que concedia controlo remoto a partir da China e que, inclusivamente, permitia desligá-los à distância. Este controlo indevido e indesejado que, até à data, não era conhecido dos clientes — no caso a empresa Ruter, o maior operador de transportes públicos da Noruega —, foi descoberto durante um teste de rotina para determinar a capacidade de defesa destes veículos face a ciberataques. Depois do alerta lançado pela Noruega, instalou-se o pânico na vizinha Dinamarca, também ela com algumas centenas de autocarros eléctricos chineses da Yutong ao serviço da sua frota nacional de transporte público.

Noruega descobriu que autocarros chineses concedem acesso remoto secreto à China

Após a Noruega ter descoberto esta falha de segurança, a vizinha Dinamarca, surpreendida pelos resultados dos testes, entrou praticamente em pânico, uma vez que a empresa nacional de transportes públicos possui ao seu serviço 469 autocarros eléctricos chineses, 262 dos quais são fabricados pela Yutong, uma empresa controlada directamente pelo Estado. É certo que a esmagadora maioria dos automóveis modernos são conectados e, sobretudo os eléctricos, têm a capacidade de comunicar com a fábrica enviando e recebendo informações, a começar por actualizações de software, para melhorar o desempenho de sistemas delicados como os de controlo de estabilidade, funcionamento dos motores e gestão de energia das baterias e, em alguns casos, até os travões e a direcção. Mas uma situação é um país estrangeiro controlar centenas ou milhares de veículos particulares, outra é um país permitir que os seus transportes públicos, sejam eles autocarros, comboios ou aviões, possam ser controlados remotamente por um país estrangeiro, sobretudo um que se teme e com quem, potencialmente, se pode entrar numa guerra comercial ou reacender a polémica em torno da situação de Taiwan. E este temor não é específico dos países nórdicos, como se pode ler em baixo.

Israel. Exército recolhe 700 carros chineses que tinham sido atribuídos a oficiais, por receio de espionagem

O receio de que a China possa colocar em causa a segurança nacional dinamarquesa, bloqueando as grandes cidades ou o país — com acções como parar os autocarros ou trancar os passageiros no seu interior —, levou as autoridades locais a lançar uma investigação urgente para determinar a dimensão da ameaça e os potenciais riscos. De ressaltar que há autocarros da Yutong a circular noutros países, como Portugal e Espanha, sem que as respectivas autoridades tenham, até ao momento, tomado uma posição sobre o assunto.

[Há dúvidas até ao fim que acabam na vitória mais curta da História. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador sobre as Presidenciais de 1986. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Pode ouvir o último episódio aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui e o quinto aqui]

A Yutong respondeu à polémica levantada pelos dois países nórdicos afirmando ao The Guardian que “cumpre todas as leis e regulamentos aplicáveis”, bem como recorre a “soluções habituais na indústria automóvel nos locais onde os seus veículos são utilizados”. Garantiu ainda o construtor chinês que todos os dados recolhidos pelos seus veículos não são enviados para a China, mas sim armazenados na Alemanha, mais precisamente em Frankfurt, nos servidores da Amazon Web Services. Contudo, a empresa nada disse sobre as ameaças apontadas pela Noruega e Dinamarca — que certamente preocuparão muitos outros países europeus —, ou seja, a possibilidade de controlar os autocarros a partir da China, impedindo-os de circular.

De recordar que, no início de 2025, o Departamento de Comércio norte-americano fez aprovar uma lei a proibir a venda de qualquer tipo de produtos com sistemas de hardware ou software conectado com países como a China ou a Rússia.