António José Seguro tentou ir para o debate a fazer-se de único presidenciável contra um simples líder partidário, um deputado. Do outro lado, André Ventura deu tudo em lembrar que ali estava um socialista e com a “conversa da chacha” dos “últimos 50 anos”. Pegaram-se nas questões levadas por Ventura sobre a imigração.

Foi de tal forma que o moderador nem conseguiu terminar com a questão que queria e terminou abruptamente o debate, que estava a ser transmitido pela CNN Portugal, com os dois candidatos a trocarem acusações. Enquanto Seguro acusava Ventura de “estigmatizar minorias” quando falava no peso dos imigrantes no SNS, o líder do Chega repetia a máxima que levava para atirar ao socialista da “conversa da chacha” e declarava que “uma vez na vida é preciso deixar de ter preocupação com os coitadinhos das minorias e ter um Presidente que meta os portugueses, os contribuintes em primeiro lugar”.

A cada interrupção, Seguro tentava remeter-se ao silêncio, para depois se queixar de Ventura não o deixar completar ideias. “Em retórica ninguém lhe ganha”, ia repetindo tanto como os tratamentos com que procuravam menorizar a posição de Ventura nesta corrida. Referiu-se a ele quase sempre como “senhor deputado” e disse-lhe mais do que uma vez que esperava encontrá-lo em Belém como líder de um dos partidos da oposição. Ventura acusou o toque e chegou a queixar-se do tratamento de que estava a ser alvo.

A picardia entre os dois começou logo nos primeiros minutos do debate, com ataques de parte a parte sobre as vidas partidárias. Ventura surgiu apostado em colar Seguro à “herança socialista”, chamando-lhe mesmo “o candidato do PS”, mas o adversário sacudia o rótulo como podia. Trazia um contra-ataque programado, empurrando-o para o sistema e para o PSD em particular: “Tem mais anos de atividade partidária neste século do que eu, contando os anos do PSD e do Chega”. Também o acusou de querer “ser tudo” em “tão pouco tempo”, enumerando as várias candidaturas que Ventura já encabeçou: nas legislativas, europeias e presidenciais.

Tocou num ponto sensível da candidatura de Seguro, ao acusá-lo de ter “vergonha do PS”, ao mesmo tempo que o empurrava sistematicamente para esse mesmo campo para responsabilizá-lo com a governação dos últimos oito anos. Seguro garantiu ter “orgulho” no apoio do partido que liderou, mas tentou manter-se no espaço apartidário onde quer estar, ao dizer que esta não é uma eleição para os partidos: “Se quiser debater com o PS dou-lhe o número de José Luís Carneiro.”

Novo distanciamento na reforma laboral, este sobretudo calculado por Ventura que quer descolar da reforma mas não de forma a ficar ao lado do seu adversário e do PS. Tal como Seguro criticou a reforma do Governo, mas sem deixar de defender uma “nova lei laboral” para acabar com”tipos que não trabalham há 20 anos e há 30 anos que se dizem líderes sindicais”. Isto para se distanciar de Seguro que apelava ao “diálogo” para que a lei possa resultar “mais equilibrada”, sem criticar a greve geral que está agendada para 11 de dezembro.

Ventura apostou sobretudo em colar Seguro a um certo imobilismo do sistema. Atirou para cima da reforma dos poderes presidenciais, para poder dar “um murro na mesa”, por exemplo, coisa a que Seguro se opôs. E quando o debate foi para a Saúde agarrou-se aos imigrantes para defender que no acesso ao SNS “os portugueses estejam em primeiro lugar”: “Aceita que alguém do Bangladesh e do Paquistão passe à frente dos portugueses?”.

Do outro lado, Seguro respondeu com acusações de “estigmatização”, mas também com uma proposta tirada do bolso para um pacto para a Saúde — que acabou por não ter grande espaço neste debate. Nem isso nem o polémico discurso do Presidente angolano em Luanda, com o Presidente português presente, a tocar no passado colonialista de Portugal. Ventura falou em “traição” de quem fica em silêncio, como Seguro, e o socialista ainda se irritou com um “não me dá lições de patriotismo”. Mas entre tantas picardias não houve tempo para mais.

Diálogo revelador:

André Ventura: “É o candidato do Partido Socialista, que deixou o País no estado em que deixou, nos salários, na Saúde, nos jovens a emigrar e etc. Com quem é que estou a debater aqui? Com o candidato do PS ou com alguém que parece que chegou agora sentou-se aqui e disse: “O país está todo errado”. E está. Mas isso eu ando a dizer há anos.”

António José Seguro: “O senhor deputado André Ventura tem mais atividade partidária neste século do que eu. Contando com os anos que esteve no PSD e agora que esteve no Chega. Há uma diferença entre ser o candidato do partido e o candidato apoiado pelo partido. Eu tenho muito orgulho em ser o candidato que se afirmou pela sua coragem, que apresentou a sua candidatura e que passado quatro meses o PS decidiu que devia apoiar. E tenho muito orgulho nesse apoio do PS.”

André Ventura: “Eu não teria.”

António José Seguro: “Se o senhor deputado quer debater com o PS, eu dou-lhe o número de telefone do dr. José Luís Carneiro e o senhor deputado debate com ele. Aliás, eu acho que o senhor está na eleição errada. Devia estar nas eleições legislativas. Ainda há seis meses andou a pedir aos portugueses para votarem em si e, neste momento, borrifou-se nos votos dos portugueses e está-se a candidatar a Presidente da República. Não acha que isso fere o contrato de confiança que os portugueses lhe deram quando votaram a si.”

André Ventura: “O que fere é quando vimos com uma herança atrás e queremos escondê-la.”