Quarenta anos depois da última eleição presidencial a duas voltas, há um candidato socialista que ouve que “é fixe”. Esta tarde, na Avenida da Igreja em Lisboa, o grito eleitoral histórico para o PS lá estava, com outro sujeito: “Seguro é fixe.” O candidato de 2026 faz as diferenças para o de 1986, mas espera conseguir seguir-lhe os passos, mesmo sem conseguir congregar (como o fundador) a esquerda — pelo menos na primeira volta.
A meio da descida pela avenida de Alvalade, o candidato é questionado pelos jornalistas sobre o grito de ordem adaptado de 86 que a sua comitiva ia atirando. “Traz a memória do ‘Rock da Liberdade’0 que o Rui Veloso tão bem cantava. Este país precisa de ser livre, porque é em liberdade que somos felizes”, afirmou. Mas não quis estabelecer paralelismos, nem fazer de Soares — que morreu há nove anos neste mesmo dia — a sua única inspiração presidencial. “Cada Presidente no seu tempo deixa uma marca. E eu espero deixar várias”, declarou.
Mas o que gostava mesmo de ter era a marca de Soares no dia 18 e chegar à segunda volta. Seguro apareceu novamente mais convicto nessa passagem e a garantir que vê “uma onda de esperança e de confiança à sua volta” e a sua “candidatura a crescer”. As sondagens dos últimos dias, que o colocam na frente, vieram dar alento e também vincar o apelo ao voto útil.
VASCO COELHO/OBSERVADOR
“Tendência favorável” nas sondagens dá gás a Seguro na pressão sobre a esquerda
Tal como Soares, também Seguro enfrenta um quadro muito dividido à esquerda e no dia seguinte ao debate televisivo que juntou os onze candidatos, a questão de uma eventual desistência de Jorge Pinto ou, pelo menos, negociação nesse sentido pairava no ar. Mas Seguro nega ter feito esforços nesse sentido: “Não cedo a pressão nenhuma e não negoceio nada”. E avisou ainda que é ele quem “decide o caminho e natureza” da sua candidatura.
Quanto a Jorge Pinto em concreto, que no debate disse que não seria por ele que António José Seguro não seria Presidente, o candidato diz que fica “feliz”. “Não devia ficar feliz com quem faz elogios à minha candidatura ou diz que devo ser o próximo Presidente? Claro que fico feliz”, assumiu.
Certo é que nesta altura tem mais do que Soares tinha em 86 e não tem, apesar de tudo, uma divisão fratricida no seu próprio partido, com um concorrente interno. Tem o namoro de alguma esquerda e, mesmo que com algumas resistências internas, não tem um adversário do próprio partido. Mas no fim, tal como o fundador, não tem a esquerda na primeira volta.
Na ação de campanha mais participada até agora, Seguro parou por várias vezes: para entrar numa livraria e comprar um livro (sobre Maria Barroso), entrar na papelaria e até para se sentar a falar de séries dos serviços de streaming, numa esplanada, junto de uma jovem que estava sozinha a tomar um chá.
Numa das conversas, com quatro crianças, ouviu uma pergunta que tem procurado contornar: “Para que partido trabalha?” Respondeu que “é originário do PS”, mas logo de seguida explicou que, nas presidenciais, não são os partidos que concorrem e que a sua “candidatura tem muita gente que vem de outras áreas políticas, do PSD, da IL, do BE, do CDS. Não é bonito juntar as pessoas todas que são de partidos diferentes?” Por agora, a conta é feita aos apoiantes, agora falta saber se a contagem do dia 18 tudo isto é suficiente sem a esquerda.
VASCO COELHO/OBSERVADOR