António José Seguro conhece bem a importância das perceções nos momentos decisivos. Já esteve no lado desfavorável da balança, quando em 2014 à beira de legislativas, a perceção dominante no seu próprio partido era de que não chegava lá e António Costa acabou por ganhar as primárias que decidiram quem deveria ser o candidato do PS a primeiro-ministro. Mais de dez anos depois, a corrida é outra. O salto do quarto para a dianteira das sondagens, a tão poucos dias das presidenciais, pode agora criar uma impressão a seu favor. E o candidato já posicionava a prancha para tentar arrancar na eventual onda ainda antes de Jorge Pinto vir agitar estas águas.
A “tendência favorável” nas sondagens, como lhe chamou Seguro esta terça-feira, é a face mais visível dessa ideia de reviravolta que garante já sentir “nas ruas”: “Sinto que este movimento e a minha candidatura está a crescer”. A outra mais discreta é a que se vai assistindo no PS, com cambalhotas na declaração de apoio ao candidato, mais ou menos acrobáticas consoante a maior ou menor resistência inicial à sua candidatura. Tudo junto pode ser decisivo para a criação da tal perceção.
Até aqui, no terreno, a estrutura tem aparecido sempre, como esta manhã em Grândola, em que o candidato que o PS apoia voltou a ter à sua espera — como tem sido prática — o líder do PS distrital (André Pinotes Batista) e o autarca socialista (Luís Vital Alexandre). Desta vez também apareceu um extra relevante, Ana Catarina Mendes. Afinal, em 2011, tinha sido diretora de campanha da candidatura de Francisco Assis contra a de Seguro, para a liderança do PS, e, depois, esteve sempre na frente da ofensiva costista em 2014 e daí em diante.
Agora, a eurodeputada socialista apareceu no seu distrito para um abraço ao candidato que, ainda assim, se mostra pouco interessado em andar de braço dado com estas figuras de um período de má memória, para si, no partido. Ana Catarina Mendes remeteu-se à discrição da terceira fila do desfile da caravana pelas ruas. Mas pode chegar para a criação da imagem de ajuntamento em volta de um potencial vencedor.
No partido — entre os apoiantes de sempre e também dos menos entusiastas — fala-se agora de forma mais aberta da possibilidade de haver Seguro na segunda volta, como tem ouvido o Observador no terreno, ao longo destes primeiros dias de campanha oficial. As apostas vão sobretudo para a passagem do socialista com Luís Marques Mendes ou mesmo com André Ventura, uma figura que o candidato começa progressivamente a colocar como principal adversário.
Pelo meio, outras importantes expressões do apoio socialista são ainda esperadas, como por exemplo a de Pedro Nuno Santos. Não trará tanto contorcionismo, já que foi ele mesmo que, como líder, começou por falar no nome de Seguro para estas presidenciais, mas nem por isso é menos importante. Afinal, Pedro Nuno tem uma ligação estreita com a esquerda (evidenciada nos tempos da geringonça) e o candidato socialista precisa de convencer esse eleitorado, sobretudo depois de uma afirmação inicial titubeante sobre o seu nível de esquerdismo.
VASCO COELHO/OBSERVADOR
Pressão total sobre a esquerda
A tentativa de entrar nesse campo tem sido clara nestes primeiros dias de campanha, com o candidato a repetir a cada canto que visita — e de forma mais vincada no dia em que a sondagem da CNN Portugal o colocou na frente — que é o único à esquerda como hipóteses: “Só há um candidato do centro-esquerda e da esquerda que pode passar à segunda volta.” A ideia de que pode chegar lá dá um empurrão grande a esta linha de argumentação.
“Vamos lá ver: os dados são muito simples, só há um candidato do centro-esquerda e da esquerda que pode passar à segunda volta. Essa é uma realidade. É um facto. E, portanto, aquilo que eu apelo é a todos os portugueses que queiram ter esse candidato na segunda volta, que votem em Seguro”, disse o próprio sobre si mesmo. E descreve este voto precisamente dentro das linhas que agradam à esquerda, ou seja, é aquele que “garante que quem defende a dignidade, quem defende o Estado Social, quem defende a nossa Constituição, esteja na segunda volta.”
Já quando os jornalistas lhe perguntam se tem afinado esta linha porque ainda acredita na desistência de alguma candidatura à sua esquerda a seu favor, o socialista desvia-se: “Não, eu dirijo-me aos eleitores e aos portugueses e dou-lhes razões para votarem na minha candidatura. A minha candidatura é a candidatura que conta.”
Na terça-feira, no debate televisivo com todos os candidatos, na RTP, Seguro jurou que não tentou acordos à esquerda, com a desistência de algum dos candidatos em vista, e que é assim que vai manter-se até ao fim da campanha. Ainda assim foi com indisfarçável agrado que ouviu Jorge Pinto declarar a dada altura: “Não será por mim que António José Seguro não será Presidente de Portugal”.
A poucos dias do voto antecipado, esta abertura da porta de saída da corrida por parte do candidato apoiado pelo Livre parece confirmar a expectativa de alguns socialistas, que já punham fichas nesta desistência. Já quanto à de António Filipe ou a de Catarina Martins, ninguém acredita que possa vir a ser uma realidade.
A confirmar-se, a saída de cena de Jorge Pinto seria um importante empurrão para Seguro nesta altura. E vai colocar uma pressão adicional sobre a restante esquerda, a quem o candidato tem deixado alguns avisos nos últimos dias. E até já deixou uma espécie de lição, quando ouviu Catarina Martins lembrar que, em 2012, Seguro ajudou a “viabilizar cortes contra a Constituição” e recusou responder-lhe: “Eu não me engano nos meus adversários.”
“Concentrar os votos”. É a expressão que mais tem usado nestes dias e que repetiu a cada esquina em Grândola, terra de esquerda, certo, mas que nas últimas autárquicas caiu do PCP para o lado do PS. Nesse périplo pelas ruas da “vila morena” chegou mesmo a juntar-se a três apoiantes alentejanos que, na esquina do museu, cantavam o hino da esquerda que foi uma das senhas usadas para o início da Revolução de 1974. Proclamou-se como “o candidato da liberdade” e seguiu caminho nessa tentativa de concentrar assim os votos da esquerda.
No dia anterior tinha usado ainda outro argumento para tentar puxar para si os que pensam votar em António Filipe, Catarina Martins ou Jorge Pinto. Disse que votar neles seria “meio voto” no partido que quer combater, o Chega, e “não ajuda o candidato da esquerda que está em condições de passar à segunda volta”. É argumento que serve na pressão à esquerda, mas simultaneamente na tentativa de tornar esta campanha numa luta entre duas frentes: a do populista influente sobre o PSD e o único que à esquerda pode passar.
Qualquer candidato sabe que se concorresse contra Ventura numa primeira volta, a Presidência ficaria automaticamente a um pequeno passo. No caso de Seguro, o candidato ainda sabe que a estratégia de amalgamar a direita sob o mesmo chapéu do populismo tem funcionado para a congregação da esquerda — que o diga António Costa e a sua maioria absoluta de 2022. Já funcionou uma vez, será que voltará a funcionar?
VASCO COELHO/OBSERVADOR