No dia que marca o final da primeira semana de campanha, Paulo Raimundo juntou-se a António Filipe para o maior evento da candidatura até à data. Perante uma sala com cerca de 800 apoiantes (sentados e em pé) em Vila Nova de Gaia, o secretário-geral comunista apelou à mobilização em força naquele que apelida de “candidatos dos trabalhadores”.
Os dois surgiram lado a lado uma rua abaixo do local escolhido para o comício, num curto desfile acompanhado e animado por dezenas de jovens. “Nem direita nem centrão, António é solução”, foram cantando, embalados pela boa disposição do líder do PCP para escalar a rua íngreme até ao destino final. “É difícil mas é sempre a subir“, brincou Raimundo, aproveitando para estabelecer um paralelo com a corrida ao Palácio de Belém. “É preciso aproveitar as descidas todas para embalar para depois ganhar força para subir”.
Chegados ao Espaço Herança Magna, foram recebidos com grande aparato por uma grande multidão. Na primeira fila da plateia, ao lado do líder partidário e do candidato presidencial, ficaram sentados o secretário-geral da CGTP Tiago Oliveira, o deputado comunista Alfredo Maia e Sofia Lisboa, mandatária nacional da candidatura.
“Que grande força, que grande determinação, que grande confiança está aqui nesta sala, nesta candidatura, neste rumo que queremos impor ao país”, começou por dizer Raimundo. “António Filipe, leva esta alegria, toda esta confiança, mas leva também daqui um abraço solidário e um obrigado. Um obrigado por seres a voz e o rosto dos interesses dos trabalhadores, das populações e da juventude”. Paulo Raimundo agradeceu ao candidato por trazer à campanha “a realidade da vida da maioria”, mas também por ser o “rosto da esperança”, e garantiu que vê a candidatura a ganhar mais força nos últimos dias.
De seguida, quis resumir as mais valias de António Filipe em três artigos da Constituição, por esta ordem: 64º, 65º e 7º. “O António Filipe é o candidato do artigo 64º, do direito à saúde do Serviço Nacional de Saúde. (…) Esse artigo que é incompatível com o desmantelamento do SNS que está em curso, que é incompatível com urgências e maternidades fechadas, com serviços encerrados, com a falta de médicos, de enfermeiros e técnicos, que é incompatível com os brutais retrocessos no Socorro e no INEM, com as desastrosas e trágicas consequências que estão à vista”.
“É o candidato do artigo 65º”, continuou, “do direito a uma habitação digna para todos e para cada um. Esse artigo está em confronto todos os dias com os despejos, ecom o caminho de especulação e da subordinação dos interesses à banca e aos fundos imobiliários”. Por fim, explicou, “é também o candidato do artigo 7º, o artigo da paz, o artigo da cooperação e da solidariedade entre todos os povos do mundo. E fazer cumprir a Constituição e o seu artigo 7º exige coragem, essa coragem que só o António Filipe tem”.
Tal como o candidato tem feito, Raimundo trouxe ao discurso a ideia de tornar as eleições num referendo às políticas do Governo. Em vez do pacote laboral, o líder comunista pede aos cidadãos que votem refletindo os principais problemas que sentem no país. “Que cada um leve ao voto os anos de trabalho que tem por turno, o seu injusto contrato a prazo e o seu falso recibo verde, que cada um leve ao voto o tempo que não tem para acompanhar os seus filhos, o mês cada vez maior para o salário cada vez mais curto, que cada um carregue para o voto o preço dos alimentos e o aumento do custo de vida, o preço das rendas, das dificuldades de acesso à habitação, a falta de vagas na creche”.
O discurso terminou com um alerta à mobilização, mas também com uma mensagem de confiança no candidato que os comunistas decidiram apoiar: “Caro António Filipe, amanhã estarás noutro local, nesta magnífica campanha que estás connosco a realizar. (…) Vai para outro local, vai para outra terra, mas vai descansado. Porque amanhã, aqui mesmo, em Gaia, no Porto, em Gondomar, em Matosinhos, em cada terra, em cada empresa, em cada escola, em cada serviço, em cada local de trabalho — aqui estão os construtores da tua, nossa, candidatura. Amanhã, tal como hoje, somos todos António Filipe”, exclamou.
Já o candidato, no discurso de encerramento do comício, pediu um “sobressalto democrático” para “enfrentar a última semana de campanha eleitoral com determinação, com a confiança de que vamos ter um grande resultado para os trabalhadores portugueses”.
O comunista apelou a um novo rumo, que só se pode materializar com “a valorização dos salários de quem trabalha e o aumento das reformas e pensões de quem trabalhou uma vida inteira e merece viver dignamente os seus últimos anos de vida, com a valorização dos serviços públicos e das carreiras de funções públicas e sociais com o reforço do Serviço Nacional de Saúde”.
Além disso, o “novo rumo” defendido pelo comunista também prevê um país com uma “política da habitação que não seja refém dos interesses imobiliários, em que não faltem professores nas escolas, em que os jovens tenham acesso aos graus mais elevados de ensino e não tenham de emigrar para ter salários decentes”. “Um novo rumo com o controlo público das empresas e setores estratégicos para a economia e a soberania nacional”, resume.
Perante “uma sala com esta dimensão, tão cheia, com tanto entusiasmo”, o candidato apoiado pela CDU garantiu nunca ter estado tão confiante no crescimento da candidatura, frisando que se sente representante de algo maior. “Estas intervenções dão-me a confiança inabalável de que esta minha candidatura não é a minha candidatura. É a nossa candidatura, a vossa candidatura, a candidatura dos trabalhadores, a candidatura do povo português”.