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O Irão está há três dias sem comunicações. Desde 9 de janeiro que as autoridades iranianas implementaram um apagão nas comunicações — não há acesso à internet e não há chamadas, seja domésticas ou internacionais, limitando a informação que chega sobre os protestos que há dias assolam o país.

Os protestos contra o regime iraniano começaram na capital Teerão, mas depressa se alastraram a outras cidades do país, como Shiraz, Mashad, Isfahan ou Karaj. Os números mais recentes, revelados por uma organização não governamental, apontam para pelo menos 116 mortos e mais de 2.600 detenções devido aos protestos.

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Segundo o observatório Netblocks, o apagão no Irão prossegue, com “níveis de conectividade nacional que continuam estagnados em cerca de 1% dos níveis normais”. “Esta medida de censura representa uma ameaça direta à segurança e ao bem-estar dos iranianos num momento crucial para o futuro do país”, destacou o observatório na rede social X.

O radar da tecnológica Cloudflare, responsável por gestão de tráfego online, também dá conta de “volumes de tráfego extremamente baixos”.

Cloudflare radar, Irão Cloudflare Radar

A queda abrupta no tráfego online também foi registada pela Cloudflare

Amir Rashidi, um iraniano especializado em direitos digitais, explicou ao Guardian que, além do bloqueio das chamadas internacionais, também a rede doméstica não funciona. “Não há rede nos telefones. Não há antenas. Parece que se está a viver no meio do nada, sem torres de telecomunicações”, explicou ao jornal britânico.

Notou também que não é a primeira vez que o regime iraniano faz uma apagão deste género. Em novembro de 2019, o Irão esteve ‘desligado’ do mundo durante cinco dias. Na altura, as associações de defesa de direitos digitais descreveram a situação como “o apagão mais severo” que já tinham visto. Algumas pessoas e organismos continuaram a ter um acesso limitado, recordou a Euronews.

Ao aproximar-se da marca dos três dias em blackout, os especialistas admitem que este possa ser um apagão “sem precedentes”. Mas, tal como em 2019, algumas entidades ligadas ao regime continuam a ter acesso a comunicações. No próprio dia de início do apagão, o líder iraniano, o ayatollah Ali Khamenei, fez várias publicações na rede social X — até para comentar a situação na Venezuela.

O iraniano Amir Rashidi explicou ao Guardian que é “importante” para o governo manter-se ligado. “Se querem divulgar a sua propaganda, precisam de ter acesso ao Telegram, precisam de ter acesso ao Twitter, precisam de ter acesso ao Instagram”, exemplificou.

Doug Madory, outro especialista ouvido pelo Guardian, contextualizou que é provável que o governo iraniano tenha colocado alguns locais numa lista de exceções, permitindo aos organismos e instituições ligadas ao governo ter algum tipo de conectividade. O que, em teoria, poderia explicar o 1% de tráfego registado pela NetBlocks.

Mudança “dramática” de fenómeno localizado para um apagão nacional

Desde o início da semana que a associação Filter Watch está a monitorizar o acesso às comunicações no Irão. Segundo um relatório, divulgado a 9 de janeiro, detetaram a mudança para um apagão a nível nacional. Num relatório anterior, falavam em “disrupções localizadas”.

A mudança “dramática” nas “táticas estatais de censura” foi documentada a partir de dados de utilizadores, movimentações nas redes sociais e tendências de tráfego, a partir de dados da IODA, Kentik, Cloudflare ou ArvanCloud. Os primeiros sinais começaram a 6 de janeiro, com bloqueios “em cidades específicas”, como “Teerão, Shiraz e Tabriz”, com cortes localizados.

“A 8 de janeiro o padrão mudou. A monitorização da rede revelou um colapso sincronizado da conetividade“, disse a Filter Watch. Esta entidade de monitorização refere que alguns serviços fixos, como as linhas residenciais de banda larga, estão com uma “conectividade fantasma”. “Continuam tecnicamente a estar ligadas, mas estão severamente perturbadas, imitando a experiência de ligação a um router doméstico sem acesso à internet.”

Também falam num bloqueio do GPS e do serviço Starlink, que permite acesso à internet através de satélite. “Há esforços para bloquear sinais de GPS para disruptir o serviço Starlink”, afirmou a Filter Watch. As tentativas começaram às quatro da madrugada de 9 de janeiro, meia noite na hora de Lisboa. “O ataque foi tão intenso que os gráficos indicaram uma perda de 30% dos pacotes nas ligações Starlink. Os utilizadores descreveram esta interferência como ‘viver dentro de um micro-ondas'”, relatou a Filter Watch.

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Sem comunicações no país, o relatório também fala um impacto económico, já que muitos terminais de pagamentos e caixas automáticas tornaram-se inutilizáveis.

Especialista pede a agência das Nações Unidas para “dizer alguma coisa”

Amir Rashidi, especialista em cibersegurança e direitos digitais, pediu à ITU, a agência das Nações Unidas, para se pronunciar sobre o apagão das comunicações no Irão. “Digam alguma coisa”, pediu na rede social X este sábado.

“Olá, ITU, os cortes de internet no Irão são inaceitáveis e devem ser condenados”, escreveu. “Cortar o acesso à internet é uma violação clara dos direitos humanos e uma ferramenta de repressão, não uma medida legítima de segurança”, sublinhou.

Já este domingo, intensificou as críticas. “Olá, ITU, durante a guerra em Gaza condenaram de forma acertada o apagão de internet. Porque é que estão em silêncio agora?”

Questionou também “como é que um organismo internacional pode operar com duplos critérios”. “No Irão, a questão não é só sobre os cortes de internet — é uma disrupção deliberada de todas as ferramentas de comunicação.”