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O Irão está há três dias sem comunicações. Desde 9 de janeiro que as autoridades iranianas implementaram um apagão nas comunicações — não há acesso à internet e não há chamadas, seja domésticas ou internacionais, limitando a informação que chega sobre os protestos que há dias assolam o país.
Os protestos contra o regime iraniano começaram na capital Teerão, mas depressa se alastraram a outras cidades do país, como Shiraz, Mashad, Isfahan ou Karaj. Os números mais recentes, revelados por uma organização não governamental, apontam para pelo menos 116 mortos e mais de 2.600 detenções devido aos protestos.
Segundo o observatório Netblocks, o apagão no Irão prossegue, com “níveis de conectividade nacional que continuam estagnados em cerca de 1% dos níveis normais”. “Esta medida de censura representa uma ameaça direta à segurança e ao bem-estar dos iranianos num momento crucial para o futuro do país”, destacou o observatório na rede social X.
⚠️ Update: #Iran's internet blackout is now past the 60 hour mark as national connectivity levels continue to flatline around 1% of ordinary levels.
The censorship measure presents a direct threat to the safety and wellbeing of Iranians at a key moment for the country's future. pic.twitter.com/QoEREOlxj0
— NetBlocks (@netblocks) January 11, 2026
O radar da tecnológica Cloudflare, responsável por gestão de tráfego online, também dá conta de “volumes de tráfego extremamente baixos”.
Iran's Internet shutdown is now in its third day. Traffic volumes remain extremely low.
Follow the latest status at https://t.co/uMVu3O3zue#IranProtests2026 #IranDigitalBlackout pic.twitter.com/vif3SdkZeq
— Cloudflare Radar (@CloudflareRadar) January 11, 2026
A queda abrupta no tráfego online também foi registada pela Cloudflare
Amir Rashidi, um iraniano especializado em direitos digitais, explicou ao Guardian que, além do bloqueio das chamadas internacionais, também a rede doméstica não funciona. “Não há rede nos telefones. Não há antenas. Parece que se está a viver no meio do nada, sem torres de telecomunicações”, explicou ao jornal britânico.
Notou também que não é a primeira vez que o regime iraniano faz uma apagão deste género. Em novembro de 2019, o Irão esteve ‘desligado’ do mundo durante cinco dias. Na altura, as associações de defesa de direitos digitais descreveram a situação como “o apagão mais severo” que já tinham visto. Algumas pessoas e organismos continuaram a ter um acesso limitado, recordou a Euronews.
Ao aproximar-se da marca dos três dias em blackout, os especialistas admitem que este possa ser um apagão “sem precedentes”. Mas, tal como em 2019, algumas entidades ligadas ao regime continuam a ter acesso a comunicações. No próprio dia de início do apagão, o líder iraniano, o ayatollah Ali Khamenei, fez várias publicações na rede social X — até para comentar a situação na Venezuela.
O iraniano Amir Rashidi explicou ao Guardian que é “importante” para o governo manter-se ligado. “Se querem divulgar a sua propaganda, precisam de ter acesso ao Telegram, precisam de ter acesso ao Twitter, precisam de ter acesso ao Instagram”, exemplificou.
Doug Madory, outro especialista ouvido pelo Guardian, contextualizou que é provável que o governo iraniano tenha colocado alguns locais numa lista de exceções, permitindo aos organismos e instituições ligadas ao governo ter algum tipo de conectividade. O que, em teoria, poderia explicar o 1% de tráfego registado pela NetBlocks.
Mudança “dramática” de fenómeno localizado para um apagão nacional
Desde o início da semana que a associação Filter Watch está a monitorizar o acesso às comunicações no Irão. Segundo um relatório, divulgado a 9 de janeiro, detetaram a mudança para um apagão a nível nacional. Num relatório anterior, falavam em “disrupções localizadas”.
A mudança “dramática” nas “táticas estatais de censura” foi documentada a partir de dados de utilizadores, movimentações nas redes sociais e tendências de tráfego, a partir de dados da IODA, Kentik, Cloudflare ou ArvanCloud. Os primeiros sinais começaram a 6 de janeiro, com bloqueios “em cidades específicas”, como “Teerão, Shiraz e Tabriz”, com cortes localizados.
“A 8 de janeiro o padrão mudou. A monitorização da rede revelou um colapso sincronizado da conetividade“, disse a Filter Watch. Esta entidade de monitorização refere que alguns serviços fixos, como as linhas residenciais de banda larga, estão com uma “conectividade fantasma”. “Continuam tecnicamente a estar ligadas, mas estão severamente perturbadas, imitando a experiência de ligação a um router doméstico sem acesso à internet.”
Também falam num bloqueio do GPS e do serviço Starlink, que permite acesso à internet através de satélite. “Há esforços para bloquear sinais de GPS para disruptir o serviço Starlink”, afirmou a Filter Watch. As tentativas começaram às quatro da madrugada de 9 de janeiro, meia noite na hora de Lisboa. “O ataque foi tão intenso que os gráficos indicaram uma perda de 30% dos pacotes nas ligações Starlink. Os utilizadores descreveram esta interferência como ‘viver dentro de um micro-ondas'”, relatou a Filter Watch.
Sem comunicações no país, o relatório também fala um impacto económico, já que muitos terminais de pagamentos e caixas automáticas tornaram-se inutilizáveis.
Especialista pede a agência das Nações Unidas para “dizer alguma coisa”
Amir Rashidi, especialista em cibersegurança e direitos digitais, pediu à ITU, a agência das Nações Unidas, para se pronunciar sobre o apagão das comunicações no Irão. “Digam alguma coisa”, pediu na rede social X este sábado.
“Olá, ITU, os cortes de internet no Irão são inaceitáveis e devem ser condenados”, escreveu. “Cortar o acesso à internet é uma violação clara dos direitos humanos e uma ferramenta de repressão, não uma medida legítima de segurança”, sublinhou.
Já este domingo, intensificou as críticas. “Olá, ITU, durante a guerra em Gaza condenaram de forma acertada o apagão de internet. Porque é que estão em silêncio agora?”
Questionou também “como é que um organismo internacional pode operar com duplos critérios”. “No Irão, a questão não é só sobre os cortes de internet — é uma disrupção deliberada de todas as ferramentas de comunicação.”
Hey @ITU, during the war in Gaza you rightly condemned internet shutdowns. Why are you silent now? How can an international body operate with such double standards? In Iran, the issue is not just internet shutdowns — it is the deliberate disruption of all communication tools.
— AmiR Rashidi (@Ammir) January 11, 2026