Catarina Martins não precisou de fazer parte de um Governo para influenciar a governação do país. A que escala o fez será sempre motivo de discórdia entre os bloquistas, comunistas e socialistas que participaram no laboratório político que foi a geringonça. De qualquer maneira, como não há mais nenhum candidato nesta eleição que possa disputar essa herança, a antiga coordenadora do BE utiliza-a como arma política. Quando num comício em Coimbra discursava sobre a necessidade de “quebrar tabus” para ter salários e empregos dignos no país, disse: “Vou insistir, porque já provei que sei fazer.”
Conjugando sempre os verbos na primeira pessoa do singular, explicou a que se referia: “Quando contribuí para afastar a direita do governo, consegui reverter os cortes da Troika em salários e pensões.” Depois, listou outras medidas que marcaram os primeiros dois Governos liderados por António Costa: “Aumentar o SNS, baixar o custo das propinas, generalizar os manuais escolares gratuitos, reduzir o custo do preço dos transportes”.
A candidata presidencial disse que fez tudo isso “contra a direita e contra a colaboração de António José Seguro com Passos Coelho“, lembrando os cortes de subsídios de Natal e de Férias e as alterações à lei laboral feitos por esse Governo PSD/CDS.
Mas antes de ser a própria a mencionar os principais feitos da geringonça, Marisa Matias já tinha subido ao púlpito para louvar Catarina Martins pelos mesmos. A candidata às presidenciais de 2016 e 2021 disse que a eurodeputada do BE é a única pessoa nesta eleição que “dá garantias” de cumprimento das funções de Presidente, lembrando a governação entre 2015 e 2022: “Quando a Catarina ganhou, ganharam as pessoas”.
A própria candidata assinalou esta terça-feira que o seu discurso no Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra, se realizava no mesmo sítio onde António Arnaut e José Semedo, quando estavam ambos doentes, apresentaram uma proposta conjunta para a revisão da Lei de Bases da Saúde. Catarina Martins apontou para essa associação entre um socialista e um bloquista como um real exemplo de “cruzar as fronteiras partidárias”.
Depois, em sentido inverso, criticou o pacto para a saúde — “que não significa nada”, qualificou — proposto nesta campanha por Seguro. A candidata apoiada pelo BE iria mais longe, afirmando que o candidato apoiado pelo PS “colaborou sempre com a estratégia de degradação do SNS”. Estratégia essa que Catarina Martins vê agora estar a ser executada às claras, naquilo que classifica como uma “sabotagem” deliberada à saúde pública por parte do Executivo de Luís Montenegro.
Inspirada pelo verso de Zeca Afonso que diz que “mulher na democracia não é biombo de sala”, a eurodeputada apelou aos que, face a esta situação, não querem “ter um biombo de sala na Presidência”. Depois começou a distribuir pareceres negativos aos seus adversários, criticando uns que “andam aos ziguezagues”, outros que “pedem Belém como prémio por 30 anos de dirigente partidário”, aqueles que “ficam calados sobre o que é mais importante” e também os que “falaram mas ninguém se conseguirá lembrar de uma ideia que propunham” — com mais do que um nome a poder encaixar em algumas das descrições.
Por fim, também visou Cotrim diretamente, porque “não consegue explicar o que lhe passou pela cabeça mas quer ser Presidente”. Mais cedo, Catarina Martins tinha considerado como “muito preocupantes” as suas declarações sobre não excluir votar em Ventura numa segunda volta. “Pergunto-me se quem já votou em voto antecipado em Cotrim de Figueiredo agora pode mudar o seu voto, porque nós temos aqui uma fraude política”, atirou, considerando que o episódio eram “as direitas a dizer que são iguais”. Sobre as denúncias de assédio ao candidato apoiado pela IL, Catarina Martins afirmou apenas que “toda a gente tem direito à presunção de inocência, incluindo quem faz uma denúncia”.