Deter os suspeitos antes de os (eventuais) crimes serem cometidos: era esta a premissa do filme “Minority Report”, de 2002, no qual o realizador Steven Spielberg projetava um futuro que começa agora a aproximar-se do presente. De acordo com o jornal The Telegraph, a polícia britânica está a avaliar perto de uma centena de projetos que preveem o uso de inteligência artificial (IA) no combate ao crime, com uma das apostas a passar pela utilização de “ferramentas preditivas”.

Um dos passos nesse sentido já foi dado pelo Governo britânico, ao avançar com um investimento de quatro milhões de libras na criação até 2030 de um mapa interativo da Inglaterra e do País de Gales, assente em IA, com vista a prever e inviabilizar a prática de potenciais crimes.

Com base em dados oficiais distribuídos a nível geográfico, as autoridades britânicas esperam assim identificar possíveis áreas com maior probabilidade na ocorrência de crimes. Além dessas informações, serão analisados os dados de determinados crimes — como ataques com faca — para perceber potenciais manifestações de comportamento antissocial.

A ministra do Interior, Shabana Mahmood, que já anunciou anteriormente a implementação de câmaras de reconhecimento facial em tempo real para a polícia, deverá apresentar um livro branco na próxima semana sobre a extensão da aplicação de IA e de tecnologia, numa medida que é apresentada como uma das reformas na área da segurança.

Na base dessa proposta estão já algumas ideias explanadas ao diário britânico por Andy Marsh, diretor da Escola de Polícia, que elencou o plano de vigiar os 1.000 homens no país já punidos por crimes sexuais contra mulheres e meninas e que evidenciem um maior risco de reincidência na prática dos crimes.

“Sabemos que os dados e os históricos de casos nos mostram que, infelizmente, não é incomum que esses indivíduos passem de uma vítima feminina para outra, e compreendemos todas as dificuldades de levar casos bem sucedidos a tribunal”, disse o responsável, prosseguindo: “O que queremos fazer é usar essas ferramentas preditivas para levar a batalha a esses indivíduos, para que sejam eles que fiquem com medo, porque a polícia está atrás deles e vamos prendê-los”.

Em paralelo, Andy Marsh salientou que a IA já está a ser usada para recolher e compilar dados sobre quais as comunidades que denotem maior vulnerabilidade ao crime, com vista a mobilizar preventivamente polícias para essas áreas. A ideia das autoridades britânicas é ainda elevar a eficácia da polícia e reduzir o tempo de resposta aos problemas.

Uma outra via de aplicação para IA no trabalho policial está a ser testada ao nível da verificação de imagens de vídeovigilância. Segundo Andy Marsh, um sistema de pesquisa está em avaliação pela capacidade superior de identificação de suspeitos em câmaras de sistemas internos CCTV e que pode acelerar em 60% o nível de velocidade e eficácia do que as alternativas existentes.

“Se funcionar tão bem quanto pensamos, com uma economia de 60%, não só seremos capazes de fazer isso mais rapidamente e com menos custos, mas também baixaremos o nível (de crimes) em que podemos aplicar isso para resolver crimes”, resumiu.