Na madrugada desta segunda-feira, mais de 93% dos votos dos emigrantes na primeira volta das Eleições Presidenciais de 2026 estavam contados, faltando apenas sete consulados por apurar. Os resultados que já são conhecidos dão uma vitória clara a André Ventura em território estrangeiro: conseguiu 41,89 % do total da votação, com um total de 29.110 votos. E a liderança do candidato apoiado pelo Chega é ainda mais representativa olhando para os resultados dos continentes de África e da América, em que no global alcança, em cada um deles, mais de 48% da votação.
António José Seguro, que venceu a primeira volta em território nacional, arrecadou o segundo lugar no estrangeiro, com 23,24% da votação, num total de 16.151 votos. É seguido por João Cotrim de Figueiredo, que com 10.774 votos, 15,50 % do sufrágio da emigração, mas sem atrair o apoio dos portugueses nos países governados por representantes da sua família política.
Na quarta posição fica para já Luís Marques Mendes, com 8,03% dos votos, e no quinto lugar Henrique Gouveia e Melo, com 5,18 %. Catarina Martins conseguiu 2,64% da votação e Jorge Pinto 1,24 %, com António Filipe colado a ele, já que alcançou 1,01% dos votos — nenhum na Rússia.
Na Europa, Ventura também está à frente, com mais de 40% dos votos, e com resultados esmagadores em países com elevada taxa de emigração portuguesa, como na Venezuela, por exemplo, onde a sua posição de forte apoio à operação que derrubou o regime de Nicolás Maduro terá contribuído para um forte resultado. Depois há a Ásia, onde, aí, foi Luís Marques Mendes quem brilhou.
Ventura mobilizou eleitores em França e ainda mais na Suíça, onde a abstenção desceu muito e o candidato venceu com mais de 60%
Quase sete mil eleitores portugueses em França votaram em André Ventura (60,46%), com o candidato a vencer no país (e em cada um dos consulados) onde nas eleições presidenciais de 2021 tinha conseguido apenas 375 votos. Só em Paris, arrecadou mais de metade destes votos, num total de 4.208 eleitores a escolhê-lo para próximo Presidente da República.
Na Suíça, onde a comunidade portuguesa é muito substancial, o resultado de Ventura foi ainda superior ao de França: conseguiu 63,46% do total da votação (8.671 votos). Ficou à frente em todos os três consulados: Berna, Genebra e Zurique.
O candidato apoiado pelo Chega venceu nos dois países, ao mesmo tempo que a taxa de abstenção desceu significativamente. Em França, em 2021 apenas 3.000 eleitores foram às urnas — reelegendo Marcelo Rebelo de Sousa — número que quase quadruplica passado cinco anos, com cerca de 11.600 votantes a mobilizar-se para dar a vitória ao candidato apoiado pelo Chega.
Na Suíça a mobilização foi massiva — o número de votantes passou de 2,31% em 2021 para 8,37% em 2026 — no total, mais 10 mil pessoas votaram em comparação com as últimas eleições presidenciais. Aqui, António José Seguro ficou em segundo e João Cotrim de Figueiredo em terceiro, com resultados muito colados, respetivamente com 13,48% e 12,47 % do total dos votos dos emigrantes em território suíço.
Em França, Seguro conquistou mais votos (2.142) e o segundo lugar com 18,72%, distanciando-se muito mais de Cotrim de Figueiredo que só angariou 6,35%, que representam 727 votos.
Ventura também ficou em primeiro lugar no Luxemburgo, em menor escala, com 42,53% e 1.848 votos. Já na Bélgica, Alemanha e Chéquia foi António José Seguro a conquistar um maior número de votos.
Em Espanha, onde 3.347 eleitores votaram, João Cotrim de Figueiredo conquistou a maioria do eleitorado (39,86%), e em segundo lugar ficou Seguro, com 28,46% da votação.
Os portugueses em países liberais não quiseram Cotrim como Presidente
Mesmo com o apoio direto do primeiro-ministro eleito dos Países Baixos e com a crescente aproximação do seu partido às políticas de Javier Milei, João Cotrim de Figueiredo não conseguiu vencer na grande maioria dos países governados por partidos da sua família política.
O vídeo de Rob Jetten, o grande vencedor das últimas eleições legislativas dos Países Baixos, a declarar publicamente o seu apoio a Cotrim de Figueiredo não surgiu necessariamente como uma surpresa. O neerlandês é o presidente do Democrats 66, o partido liberal que irá governar o país e que pertence, também, ao Renew Europe, o grupo liberal do Parlamento Europeu — do qual Cotrim é o vice-presidente.
Neste curto vídeo de 25 segundos, Jetten mostrou a sua esperança de vir a trabalhar com Cotrim de Figueiredo fora do ambiente de Bruxelas, mencionando os bons resultados que o eurodeputado português veio a acumular ao longo da campanha eleitoral. Não só o “ímpeto” referido pelo próximo chefe do Governo dos Países Baixos, João Cotrim de Figueiredo não conseguiu os votos suficientes para chegar à segunda volta das presidenciais, como a própria declaração pública de apoio de Rob Jetten não foi suficiente para mobilizar os portugueses residentes em território neerlandês a votar no liberal. No final da contagem dos votos na embaixada portuguesa em Amesterdão, António José Seguro conseguiu segurar mais 216 votos que Cotrim.
Do outro lado do Oceano Atlântico, fora do Parlamento Europeu, reside uma das maiores inspirações para a Iniciativa Liberal. Algumas das políticas liberais de Javier Milei têm sido, ao longo dos últimos anos, referidas por João Cotrim de Figueiredo e pelo resto da tribuna liberal como possíveis metas para aplicar em Portugal. Ainda assim, na Argentina, onde votaram 188 cidadãos portugueses, Cotrim recebeu apenas 11 votos. O liberal, da família política do Presidente argentino, ficou atrás de André Ventura — que recebeu 37,70% dos votos —, de Luís Marques Mendes e também António José Seguro, conseguindo apenas mais dois votos que Catarina Martins.
No Canadá, onde governa o Partido Liberal — também da família política da IL e do grupo do Parlamento Europeu do qual Cotrim de Figueiredo é vice-presidente —, os resultados também não foram favoráveis para o candidato. Dos 1.434 eleitores que se mobilizaram às urnas, a grande maioria (61,22%) decidiu que André Ventura era o candidato ideal para ser o sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa no Palácio de Belém. Cotrim, da família política do primeiro-ministro Mark Carney, ficou em terceiro lugar, atrás de Seguro, com apenas 7,57% dos votos.
Mas nem tudo foi negativo para Cotrim de Figueiredo em terras liberais. Na Irlanda, onde o liberal Micheál Martin será o primeiro-ministro durante a primeira metade do mandato — antes de trocar com Simon Harris, do outro partido da coligação governativa —, o eurodeputado português conseguiu chegar ao primeiro lugar. Foi um dos poucos países europeus em que Cotrim ficou à frente de António José Seguro e André Ventura — foram sete, no total —, mas o único cujo Governo pertence à sua família política, o Fianna Fáil. João Cotrim de Figueiredo conseguiu recolher 35,76% dos votos e mais 33 votos que o socialista que passou hoje à segunda volta.
Na CPLP a vitória foi de Ventura no Brasil, Angola e Moçambique. Seguro venceu em Cabo Verde e Guiné-Bissau
Na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), André Ventura também liderou em número de votos em três países. No Brasil, arrecadou mais do dobro dos votos de António José Seguro. O candidato apoiado pelo Chega teve 48,81% dos votos, e o candidato apoiado pelo PS conseguiu 21,90%. Em território brasileiro foi Luís Marques Mendes a ficar em terceiro lugar (12,43%). Registou-se uma abstenção de 98,14% entre o total de eleitores.
Em África, no total, menos de 6% dos eleitores inscritos foram votar, e André Ventura arrecadou o maior número de votos, quase 50%, com pouco mais de 20% a ficarem do lado de António José Seguro. Neste continente, foi Luís Marques Mendes a ocupar a terceira posição, com cerca de 10% dos votos.
Focando novamente nos países que fazem parte da CPLP, em Angola (42,06%) e Moçambique (30,19%), André Ventura foi o vencedor. Mas em Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Timor-Leste quem ganhou foi António José Seguro.
Na Rússia preferem Gouveia e Melo a António Filipe, que só conseguiu um voto na Venezuela
Temas geopolíticos e os atuais dilemas de política externa marcaram o debate ao longo de toda a campanha eleitoral. Antes disso, tópicos como a Guerra na Ucrânia e o conflito no Médio Oriente foram levantados nos 28 debates presidenciais que envolveram os oito principais candidatos.
André Ventura, que se tem colocado do lado de Israel no seu conflito com o Hamas em Gaza desde os ataques do grupo palestiniano no dia 7 de outubro de 2023, foi o claro favorito dos cidadãos portugueses que se mobilizaram para votar em Telavive. A amostra é pequena, uma vez que houve uma taxa de abstenção de 99,71%, mas o presidente do Chega conseguiu 67 votos, 46,21% dos que votaram, enquanto candidatos que se têm colocado assumidamente do lado palestiniano do conflito, como Catarina Martins e Jorge Pinto, conseguiram três votos no total (dois para Catarina, um para Jorge Pinto).
No conflito às portas da Europa, que tem sido apontado como um dos temas mais importantes que o próximo Presidente da República terá de lidar nos próximos cinco anos de mandato, os (poucos) eleitores das comunidades portuguesas na Rússia e na Ucrânia também revelaram em quem mais confiam para liderar Portugal, votando a partir de um país em guerra. Apesar de existir uma vasta comunidade ucraniana em solo português, existem também alguns cidadãos portugueses em solo ucraniano. Mas dos 107 recenseados, apenas seis decidiram contribuir para eleger o próximo Chefe de Estado de Portugal. Os mais votados foram António José Seguro e João Cotrim de Figueiredo, fortes defensores do apoio à Ucrânia desde o início do conflito em 2022, ambos com dois votos cada. Jorge Pinto e Luís Marques Mendes receberam os restantes votos, deixando os outros 7 candidatos a zeros. Na Rússia, do outro lado da guerra, o ex-Almirante Henrique Gouveia e Melo recebeu um terço dos nove votos que chegaram à embaixada portuguesa em Moscovo. António Filipe, o candidato apoiado pelo PCP e que, durante os debates, chegou a equiparar Volodymyr Zelensky a Vladimir Putin, não recebeu um único voto.
Mas este não foi o único círculo em que o comunista recebeu menos votos do que estava à espera. Na Venezuela, poucos dias após o exército norte-americano ter entrado no país para capturar o Presidente Nicolás Maduro e derrubar o seu regime, a comunidade portuguesa teve de se mobilizar às urnas na embaixada em Caracas para eleger o próximo Presidente português. André Ventura, de todos os candidatos, foi o único a celebrar sem levantar qualquer questão a queda de Maduro e a operação militar orquestrada por Donald Trump, enquanto mais à esquerda do espectro político, a condenação total foi quase imediata. No final da contagem, os portugueses na Venezuela revelaram identificar-se mais com Ventura, que recebeu 50,25% dos votos. Catarina Martins, por sua vez, acabou a noite eleitoral com 1,43% dos votos desta comunidade (um total de 26), Jorge Pinto com 0,82% (15 votos) e o comunista António Filipe conseguiu apenas um voto.
Luís Marques Mendes vence na Ásia, com quase todos os votos da China. Ventura com o maior número de votos na Austrália
Luís Marques Mendes ficou em primeiro lugar na Ásia, onde votaram 4.014 eleitores portugueses, sendo que ainda existem dois consulados por apurar. Para já, é a China que o coloca à frente, porque lá conseguiu 1.076 votos, de um total de 1.171, quase todos portanto.
Os resultados de 2021 na China deram a vitória a Marcelo Rebelo de Sousa, com 64,60%. Também nas Legislativas de 2025, a AD ficou à frente, com 33% dos votos.
Já António José Seguro teve o maior número de votos dos candidatos no Japão e na Coreia do Sul, onde arrecadou 20 votos. Na Índia, por exemplo, votaram apenas 16 pessoas, sendo que André Ventura arrecadou oito deles.
Na Austrália, já numa escala maior, foi o candidato do Chega a arrecadar mais votos, 292, o equivalente a cerca de 48% da votação. Seguro conseguiu o segundo lugar — com 21,71%— e João Cotrim de Figueiredo o terceiro, com 11,02%.