O comediante israelita Guy Hochman foi detido e interrogado durante cerca de seis horas após chegar ao aeroporto internacional de Toronto, no Canadá, na segunda-feira. A detenção ocorreu no seguimento de uma denúncia de uma organização pró-Palestina, que o acusou de crimes de guerra e de “incitamento ao genocídio” em Gaza. 

A denúncia foi feita pela Hind Rajab Foundation, uma organização sediada na Bélgica que procura responsabilizar os militares israelitas por crimes contra a humanidade e “alcançar justiça para as vítimas do genocídio em Gaza”. Segundo o jornal britânico The Guardian, a organização apresentou uma pasta de 40 páginas às autoridades canadianas sobre Guy Hochman. Os grupos Canadian Lawyers for International Human Rights e Legal Centre for Palestine também se juntaram à queixa-crime.

A organização escreveu na rede social X que o principal argumento contra Hochman é o seu papel sistemático e público na incitação ao genocídio contra os palestinianos, “através de performances, redes sociais e propaganda ligada aos militares que desumaniza toda uma população e glorifica a violência em massa”. A Hind Rajab Foundation considera que a conduta do comediante é criminosa ao abrigo do direito internacional e da própria lei dos Estados Unidos, para onde Hochman viaja a seguir.

Numa outra publicação, a organização escreveu que “a retórica genocida não é arte, não é liberdade de expressão e não está protegida pela lei canadiana” e que “não há refúgio seguro para aqueles que são cúmplices das atrocidades de Israel”. A Hind Rajab Foundation mostrou ainda o momento em um dos seus advogados entregou um pedido urgente à CBSA (Agência de Serviços de Fronteiras do Canadá) no aeroporto internacional de Toronto, solicitando o impedimento da entrada de Guy Hochman no país.

A pasta que a organização entregou às autoridades canadianas inclui vários vídeos e fotografias que Hochman publicou nas redes sociais onde alegadamente apela ao “assassinato em massa e o extermínio dos palestinianos” e declarações feitas durante o período em que trabalhou com as forças armadas israelitas e em espetáculos, alguns transmitidos online.

De acordo com a Hind Rajab Foundation, o comediante defendeu o uso de armas nucleares contra Gaza, celebrou a morte de civis e apelou à fome, à deslocação e à punição coletiva dos palestinianos. Apelou ainda à destruição de locais religiosos, chegando a afirmar que “nenhuma mesquita permanecerá em Gaza”. O documento procura também apresentar evidências do apoio de Hochman a atos de violência sexual e tortura cometidos contra detidos palestinianos.

O comediante israelita confirmou a detenção numa publicação na rede social X, onde diz que o tentaram impedir de entrar no Canadá e de se apresentar à comunidade israelita num espetáculo mas, depois de seis horas, conseguiu. “E enquanto eles gritavam “Palestina livre” entre si com -10 graus, nós aquecíamos com risos — 400 israelitas lá dentro. É assim que se sente a vitória”, escreveu.

De acordo com o Times of Israel, Guy Hochman foi libertado após a intervenção do consulado israelita. Um porta-voz da Agência de Serviços de Fronteiras do Canadá recusou responder a perguntas sobre o caso, mas mais tarde afirmou em comunicado que os estrangeiros que entram no país podem ser sujeitos a uma “inspeção secundária” e que “em alguns casos, a inspeção pode demorar mais tempo devido à recolha de informações através de interrogatório”.

Foi também apresentada uma queixa-crime contra Hochman nos Estados Unidos, que ia aterrar em Nova Iorque no dia seguinte para um espetáculo ao vivo. “Todos os países do mundo têm o dever legal de procurar e punir todos os criminosos de guerra e genocidas dentro das suas fronteiras, e os Estados Unidos não são exceção”, disse Jake Romm, representante da Hind Rajab Foundation nos EUA, citado pelo The Guardian.