Uma menina de 8 anos foi dada como desaparecida a 6 de janeiro na cidade de La Guardia, na Bolívia. Três dias depois de buscas intensas por parte das autoridades, o corpo de Yuvinka foi encontrado com sinais de violência, num terreno baldio a 500 metros da casa onde vivia com os pais.

O caso que ocorreu no departamento de Santa Cruz chamou à atenção pela crueldade. Mas também pela tentativa dos familiares de esconder o que realmente aconteceu com a filha. A investigação diz que a criança foi violada, espancada e sufocada com um cinto, sendo o suspeito dos crimes o cunhado de Yuvinka, que tem 24 anos. No dia 16, o juiz que analisa o caso expediu um mandado de prisão preventiva após a recolha de provas como manchas de sangue numa peça de roupa do homem e vestígios de saliva, avançou o El Día.

Antes de o corpo ser encontrado, os pais afirmaram não possuir dívidas a terceiros ou conflitos pessoais, o que afastava a possibilidade de ter sido um sequestro cometido por vingança. No entanto, foram detetadas contradições nos depoimentos de vizinhos e parentes sobre a última vez em que a menina foi vista. O procurador de Justiça de La Guardia, Rolando Díaz, disse às televisões locais que a família estaria a “acobertar” o suposto agressor da menina.

“Aqueles que têm conhecimento [sobre o que aconteceu] não devem ser cúmplices, mas sim cooperar com a investigação para encontrar o verdadeiro culpado”, disse Díaz. O caso foi registado como infanticídio, sendo o primeiro deste tipo na Bolívia neste ano, e está sob sigilo no Ministério Público do país sul-americano.

Manifestações contra casos de violência

Numa entrevista à EFE, a ativista Miriam Suárez, membro da organização boliviana Casa de la Mujer, expôs dados alarmantes. “Este não é um caso isolado. Muitas meninas, adolescentes e mulheres estão a passar por situações semelhantes [na Bolívia]”.

Suárez referiu estatísticas de 2025 da Procuradoria-Geral da República boliviana, que afirmam que cerca de 30 crimes contra a liberdade sexual são cometidos por dia naquele país. No último ano, o Ministério Público recebeu 10.816 denúncias de diversos crimes de violência sexual contra crianças, adolescentes e mulheres. Violações de bebés, crianças, meninas ou adolescentes correspondem a 2.313 denúncias.

A desigualdade económica e de género está indiretamente relacionada com os casos, segundo Suárez. “Num país que não tem capacidade para gerar empregos ou fontes de rendimento para as famílias, onde pelo menos 4 ou 5 em cada 10 mulheres são donas de casa, não podemos colocar nas mães a culpa pelos crimes”.

No dia 17, o Governo da Bolívia — em conjunto com ONGs e instituições de ensino — criou um Comité Interinstitucional de Ação Imediata para apoiar vítimas. O objetivo, segundo as pastas, é coordenar esforços e implementar estratégias para a prevenção e o combate à violência doméstica e de género. A campanha de sensibilização para o tema recebeu o nome de “nem uma menina a menos em Santa Cruz”.

“Queremos zelar pelos direitos das crianças. Este é um dever de todos nós enquanto sociedade civil”, afirmou Ingrid Rivero, responsável pela unidade de género do comité.