Os hospitais da cidade de Lisboa somam sucessivas falhas nas escalas das urgências de ortopedia, uma situação que se tem vindo a agravar e que afeta também a resposta aos doentes pediátricos. Durante o mês de janeiro, está previsto que, o hospital de Santa Maria tenha a urgência de ortopedia fechada durante 11 dias distribuídos pelo mês, e o de São Francisco Xavier, três, o que faz com que os doentes tenham de ser encaminhados para o hospital de São José, unidade hospitalar que se depara com um aumento da afluência. Em causa está a falta de médicos para preencher as escalas, uma realidade que tem feito aumentar o número de encerramentos, denuncia a Ordem dos Médicos (OM).

“Vemos esta situação com preocupação. Tem havido um agravamento, o número de encerramentos tem aumentado”, alerta o presidente do colégio de ortopedia da OM, Nuno Diogo, acrescentando que praticamente todos os hospitais da zona de Lisboa e Vale do Tejo sentem “muitas dificuldades em constituir equipas para atendimentos nas urgências” de ortopedia. É o caso, salienta, do Hospital de Santa Maria, do Hospital São Francisco Xavier, do Hospital Amadora-Sintra, do Hospital de Loures, do Hospital Garcia de Orta ou do Hospital de Santarém.

Só no mês de janeiro, o Hospital de Santa Maria tem previsão de encerramento do serviço em cerca de um terço dos dias. Ao todo, são 11 dias de encerramento, de acordo com a escala a que o Observador teve acesso. A urgência encerra todas as sextas e sábados. No caso do Hospital São Francisco Xavier, são três os dias de fecho previstos (12, 19 e 26), de acordo com a escala da urgência. Também o hospital Amadora-Sintra, que serve uma área densamente povoada (de quase 600 mil pessoas), está sem urgência de ortopedia aos sábados. A isto somam-se as falhas constantes nas escalas do Hospital Garcia de Orta, em Almada.

Hospitais reconhecem dificuldades no preenchimento das escalas

Questionada pelo Observador, a Unidade Local de Saúde (ULS) de Lisboa Ocidental, que abarca o São Francisco Xavier, admite que a urgência geral funcionou sem ortopedistas nos dias 12 e 19 de janeiro, sendo que o mesmo acontecerá no dia 26 de janeiro. A ULS explica que as dificuldades em preencher as escalas se agravaram, devido à redução da cooperação com o Hospital ortopédico de Sant’Ana, na Parede, de dois para apenas um dia por semana.

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Já a ULS Amadora-Sintra diz que os constrangimentos na urgência “resultam de limitações temporárias de recursos humanos médicos” e não são recorrentes, ainda que o encerramento da urgência durante pelo menos um dia por semana se deva manter durante as próximas semanas. A ULS de Santa Maria não respondeu à questão sobre os dias de encerramento da urgência de ortopedia mas destaca que “foi possível diminuir no imediato em 40% o número de dias de indisponibilidade da urgência externa de ortopedia”, estando em “execução decisões com vista ao reforço do capital humano médico e a garantia da operacionalidade integral” da urgência.

Na Península de Setúbal, o cenário não é mais favorável para os doentes. A ULS Almada-Seixal, que abarca o Hospital Garcia de Orta, diz que, na primeira quinzena de janeiro, a urgência de ortopedia esteve fechada quatro vezes durante a noite e que “na segunda quinzena ainda existem turnos, sobretudo noturnos, por preencher, estando o Conselho de Administração (CA) da ULSAS a encetar todos os esforços para completar as escalas”. A ULS acrescenta que existe uma articulação com os restantes hospitais da margem (Setúbal e Barreiro) de forma a garantir que existe sempre resposta.

Quando as falhas na resposta nos hospitais da área de Lisboa se avolumam, principalmente no que diz respeito ao Santa Maria e ao Garcia de Orta, os doentes acabam por ser referenciados para o Hospital de São José, que fica sob pressão. “Tem um impacto nos atendimentos significativo“, diz fonte oficial da ULS de São José. Nuno Diogo, que também dirige o serviço de ortopedia desta ULS, garante que o hospital “tem tido capacidade para responder” mas é “evidente a sobrecarga das equipas”. O responsável defende que os atendimentos deveriam ser “distribuídos” de forma mais equilibrada por outras unidades hospitalares, o que, em determinados períodos, não acontece. Por dia, estima, são feitos cerca de 50 atendimentos em cada uma das urgências, um número significativo.

Tal como acontece noutras especialidades, os serviços de ortopedia têm vindo a assistir à saída de especialistas para o setor privado, um fenómeno que é agravado pela fraca capacidade de atração de médicos mais jovens — o que contribui para as crescentes dificuldades de preenchimento das escalas de urgência e também de resposta na área cirúrgica, salienta Nuno Diogo.

Serviços de ortopedia têm perdido médicos para o privado e não têm capacidade de atração

“Temos perdido muitos profissionais recentemente formados em Lisboa e Vale do Tejo. Os serviços estão descapitalizados, há um diminuto número de médicos disponíveis”, diz o médico ressalvando que, apesar de preocupante, as dificuldades nas urgências não são ainda críticas nesta altura do ano porque os ortopedistas ainda não esgotaram o número de horas extraordinárias a que estão obrigados por lei (150 ou 250 horas, dependendo dos casos). Por isso, na segunda metade do ano os serviços terão maior dificuldade em garantir as escalas, antecipa Nuno Diogo. No último mês de agosto, o Observador avançou que a urgência de ortopedia iria fechar 19 dias por falta de médicos.

Se a situação na ortopedia de adultos é preocupante, “é ainda mais grave a nível da ortopedia pediátrica”, salienta o médico. Os dois centros de referência na região (Santa Maria e Dona Estefânia) nem sempre têm capacidade para receber crianças, devido à falta de médicos com a subespecialidade de ortopedia pediátrica. Por isso, não são raras as situações em que as crianças têm de ser transferidas para o Hospital Pediátrico de Coimbra.

“Tem acontecido os hospitais de Lisboa terem de transferir doentes para Coimbra, o que deveria ser evitado. É algo que nos inquieta“, refere o presidente do colégio de ortopedia da OM, realçando que a OM permite que os ortopedistas de adultos possam intervir em casos pediátricos, desde que tenham “vontade e experiência em tratar”, de forma a evitar as deslocações das crianças para a zona Centro do país.

No que diz respeito à ortopedia de adultos, Nuno Diogo defende que faria sentido criar uma rede de referenciação com fechos programados e partilha de equipas, à semelhança do que o Ministério da Saúde quer fazer já este ano na área da ginecologia/obstetrícia. No caso da ortopedia, a proposta já existe há anos mas nunca avançou, lamenta o médico.

Ordem apresenta ao Governo 25 medidas para atrair médicos para o SNS

“Há necessidade de estruturar uma rede de comunicação e semaforização dos doentes e uma rede de suporte. Não existem meios para garantir cuidados em cada instituição“, alerta Nuno Diogo, numa opinião que, ressalva, não vincula a OM. De acordo com os rácios atuais da OM, são necessários dois a quatro ortopedistas para garantir a abertura de uma urgência externa de ortopedia, número que varia consoante o número de habitantes que o hospital serve (um critério que o presidente do colégio da OM contesta por poder não refletir as reais necessidades de cada serviço).

Nuno Diogo salienta que existe vontade por parte da OM de ajudar a “resolver o problema”, mas defende que os profissionais têm de ser envolvidos nas decisões. “Não há forma de decretar nada, o diálogo será o mais adequado”, diz. Já quanto ao reforço dos serviços com mais médicos, o responsável aponta para o pacote de 25 medidas já apresentado pela OM, em outubro.