Os Estados Unidos da América (EUA) estão a pressionar a Bolívia para expulsar alegados espiões iranianos do país latino-americano, adianta a Reuters. Além disso, a administração Trump também exige que La Paz classifique a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) como organização terrorista, diz a mesma agência com base em “duas fontes próximas do assunto”. Mas, segundo as mesmas fontes, as pretensões de Washington não ficam por aqui: os EUA também querem que, além do IRGC, a Bolívia inclua o Hezbollah e o Hamas na mesma categoria.
Uma delegação norte-americana deslocou-se este mês a La Paz para estabelecer linhas vermelhas que definem as potenciais designações terroristas, adiantaram as mesmas fontes à agência de notícias norte-americana. Esta iniciativa está inserida numa campanha mais ampla dos EUA na região que levou, em setembro, o Equador a designar o IRGC, o Hamas e o Hezbollah organizações terroristas, enquanto a Argentina designou a Força Quds do Irão na semana passada.
Na base desta posição da Casa Branca está, por exemplo, o alegado plano de assassinato do embaixador de Israel no México, entretanto desfeito pelos serviços de segurança mexicanos em novembro. A operação terá sido desenhada pelo IRGC, através de um oficial da Força Quds — um dos braços armados da organização — com funções encobertas em Caracas, contou na altura a Axios.
No caso do Hezbollah, que opera há muito tempo na América Latina, segundo fontes da Reuters, o grupo adquire receitas “através de redes de contrabando” e, “ocasionalmente”, na organização de ataques terroristas. Porém, contam responsáveis norte-americanos à agência, a dimensão desta organização na América Latina é, pelo menos, questionável.
Mas esta pressão dos EUA deve-se, acima de tudo, ao desejo de os norte-americanos conseguirem reforçar a sua influência geopolítica na América Latina e, simultaneamente, reduzir a dos seus adversários nos centros de decisão da América do Sul. A mesma agência recorda, por isso, o exemplo mais recente: depois de capturar Nicolás Maduro, a Casa Branca pressionou, de seguida, a Presidente interina da Venezuela, Delcy Rodriguez, para ‘adormecer’ as relações entre Caracas e Teerão, nos planos económico e de segurança, citando uma fonte com conhecimento sobre o assunto.
A mesma questão coloca-se agora para a Bolívia, cujo Ministério dos Negócios Estrangeiros afirma à Reuters que “ainda não existe uma posição completamente definida sobre a matéria”, não desmentindo a existência de espiões iranianos naquele país. O que dá ainda mais força às crenças da Casa Branca e à tese de antigos e atuais responsáveis dos EUA, que garantem que a Bolívia se tornou num pilar preponderante nas operações diplomáticas e secretas de Teerão na América Latina.
Entre os atrativos de um país com cerca de 12 milhões de habitantes que, à primeira vista, não é o aliado mais provável para este tipo de operações que abrem a porta da América do Sul ao Irão, está a sua localização estratégica. Praticamente ao centro daquele continente e sem litoral, a Bolívia faz fronteira com cinco Estados: Argentina, Brasil, Peru, Chile e Paraguai.
A localização é um dos fatores chave para Rick de la Torre, antigo alto responsável da CIA em Caracas, que falou com a mesma agência, mas garante que não é a única vantagem. “O valor da Bolívia para Teerão residia no clima político permissivo, numa vigilância menos rigorosa e na sua geografia central”, defende de la Torre, que ainda assim, relembra que a Venezuela continua a ser o principal aliado do Irão na América Latina. “Na prática, o padrão que se observa em toda a América Latina é o Irão e o Hezbollah utilizarem as jurisdições menos apertadas como centros de apoio, projetando depois discretamente a sua influência para Estados vizinhos mais capazes ou de maior valor estratégico”, afirma.
O “clima permissivo” apontado pelo antigo alto responsável da CIA refere-se a duas Presidências bolivianas apontadas como “pouco recetivas” — lê-se — para afastar Teerão de La Paz. A primeira, com Evo Morales, começou em 2006 e terminou em 2019. A segunda, com Luis Arce, começou em 2020 e terminou em novembro de 2025. Ambos os ex-Presidentes faziam parte do partido MAS (Movimiento al Socialismo), um partido de esquerda cuja máxima autoridade — precisamente Evo Morales — já acusou Trump de ser “o novo Hitler do mundo”. Um forte sintoma do quão longe está o partido e os seus integrantes da possibilidade de a Bolívia, no seu entender, vir a aproximar-se dos EUA.
Evo Morales não é o único rosto de uma relação tensa entre os EUA e a Bolívia, pelo menos entre 2006 e 2025. A animosidade parte também da Casa Branca, como, por exemplo, num comunicado escrito por Trump e partilhado pela embaixada dos EUA na Bolívia, que realçou a saída de Evo Morales da Presidência boliviana, em 2019, como “um momento significativo para a democracia no hemisfério ocidental” que “preserva a democracia e abre caminho para que o povo boliviano tenha sua voz ouvida”.
O final de 2025 trouxe uma luz de esperança para aqueles que desejam uma relação diplomática próxima entre norte-americanos e bolivianos. Rodrigo Paz, do PDC (Partido Democrata Cristão), foi eleito presidente e pode abrir uma porta para uma aproximação entre os dois Estados, fechando outra que aproximava La Paz ao Oriente, com o fim de quase 19 anos de Presidências de esquerda.
É na sequência desta eleição e da detenção de Maduro, na Venezuela, que os EUA continuam a sua busca por uma expansão diplomática no sul das Américas, com vista a uma neutralização dos esforços orientais na mesma região.
Essa busca de Washington, DC, vai ganhando cada vez mais intensidade, com contactos efetivos da Casa Branca. Conta a mesma agência, citando as mesmas fontes, que uma delegação norte-americana deslocou-se este mês a La Paz para estabelecer linhas vermelhas que definem as potenciais designações terroristas. O tempo dirá se Rodrigo Paz faz jus ao seu apelido e ao nome da capital administrativa da Bolívia nas futuras relações com a Casa Branca. O primeiro passo nessas relações é dado agora, com um eventual decisão boliviana sobre a eventual presença de espiões iranianos no mesmo país.