Os parentes de manifestantes mortos pela repressão estatal no Irão passaram a despedir-se dos seus entes queridos com celebrações da vida. Em vez das cerimónias solenes conduzidas por clérigos xiitas, algumas famílias iranianas têm transformado funerais em momentos marcados por música e dança. Segundo analistas citados pelo The Guardian, é uma forma de desafiar a cultura de piedade austera imposta pela teocracia iraniana.
Nos registos partilhados nas redes sociais, o ambiente destes funerais afasta-se do luto silencioso tradicional. Ouvem-se canções populares com som no máximo, há danças coletivas e surgem mulheres sem o véu islâmico, num cenário que transmite exaltação e desafio em vez de recolhimento.
“Muitos dos que hoje estão de luto… não querem que a dor pela perda dos seus entes queridos carregue qualquer traço do luto religioso que é emblemático da subcultura compartilhada pelos seus assassinos”, disse Hosein Ghazian, um comentador iraniano radicado nos EUA citado pelo jornal. “Em vez de expressar abertamente a dor, eles optam por demonstrar alegria. Essa alegria carrega uma poderosa mensagem política de persistência na luta contra opressores sanguinários.”
O caso de Reza Asadi ilustra esta transformação. O homem de 32 anos, natural de Ramhormoz, no sudoeste do Khuzistão, foi morto a 8 de janeiro, atingido mortalmente pelas forças do regime de Teerão. “Esta flor que foi espalhada foi sacrificada pela pátria”, exclama o pai durante o funeral de Reza, num vídeo publicado no X.
…و اینست پایان دینی تحمیلی و به زور شمشیر، به وارثان شاهنامه.
ایرانیان به آیین جشن ها و بزرگداشت های مراسم خود برمیگردند.دیو چو بیرون رود، فرشته در آید.
ویدئویی از مراسم خاکسپاری رضا اسدی جوان اهل گرگان که ۱۸ دیماه با شلیک مستقیم نیروهای حکومتی کشته شد، منتشر شده است. در… pic.twitter.com/GK2ZqRysSF
— Soraya (2nd)???????? (@Rahnavard_01744) January 29, 2026
O simbolismo destes funerais é reforçado pelos relatos sobre o que acontece antes mesmo das cerimónias. Há famílias que afirmam ter sido obrigadas a pagar quantias elevadas para recuperar os corpos das morgues oficiais, segundo o The Guardian. Outras dizem que só conseguiram a libertação após assinarem declarações classificando os mortos como membros da Basij, milícia pró-regime subordinada à Guarda Revolucionária Islâmica— uma prática que, segundo essas denúncias, ajuda a sustentar a narrativa oficial de que os manifestantes eram “terroristas” e a inflacionar o número de baixas do lado das forças estatais, explica o mesmo jornal.
Depois de Milad, de 17, ter sido morto num bairro da capital, as autoridades iranianas exigiram o equivalente a 5.000 libras (mais de 5.700 euros) para libertar o seu corpo. Familiares do jovem dançaram ao som da sua música favorita, Ghaf, uma balada romântica de Alireza Talischi.
“Eles fizeram o que o Milad teria desejado”, disse Reza, o seu irmão mais velho, que mora em Tallinn, na Estónia. “Entre lágrimas, eles dançaram no funeral. Mesmo em luto, honraram a sua vida vibrante.”
Shaghayegh, de 21 anos, admite que nem consegue falar sobre a quantia paga às autoridades. O primo, de 19 anos, tinha sido morto a tiro durante um protesto em Narmak, na zona norte de Teerão.
“Quando o corpo dele finalmente chegou a casa, a família preparou-se como se fosse um casamento. Instalaram altifalantes. Grandes tendas encheram a garagem. Os familiares cozinharam juntos, como se fosse uma festa”, descreveu Shaghayegh ao jornal britânico.
Embora o fenómeno esteja a ganhar visibilidade recentemente, após a onda de violência que assolou o país, dançar em funerais não é algo inédito no Irão. Em algumas regiões, existem tradições tribais antigas que combinam luto, música e movimento.
No rescaldo da recente vaga de protestos que abalou o país e desencadeou uma nova onda de repressão estatal, o gesto ganha ainda mais significado por ocorrer num país onde, durante décadas, o regime proibiu festividades públicas, danças femininas e até certas expressões públicas de alegria e tristeza.
Após a morte de Rahnavard, circularam imagens de si momentos antes de sua execução, dizendo: “Não quero que ninguém lamente sobre o meu túmulo. Não quero que leiam o Alcorão ou rezem. Celebrem, celebrem e toquem músicas festivas.”
Just before he’s hanged on Dec.12 by Iran's regime,they interrogate #MajidrezaRahnavard
His last words:I don't want Quran to be read or prayed on my grave,just celebrate
Sharia law is the reason he’s gone
His verdict:War with AllahOnly because he demonstrated for his rights pic.twitter.com/1uQpYhpGIq
— Darya Safai MP (@SafaiDarya) December 15, 2022
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