Um antigo camionista italiano, de 80 anos, é um dos suspeitos sob investigação em Itália de alegadamente ter participado em viagens de ‘turismo de guerra’, na qual cidadãos estrangeiros viajavam até Sarajevo e pagavam a soldados sérvio-bósnios para dispararem como snipers sobre a população civil apenas por diversão.
Segundo o jornal britânico The Guardian, houve, durante os quatro anos de cerco à cidade nos anos 90, inúmeros estrangeiros a deslocarem-se até Sarajevo para, simplesmente, atirarem de forma furtiva e matarem civis. Entre 1992 e 1996 morreram mais de 10 mil pessoas em Sarajevo por via de bombardeamentos e disparos de francoatiradores, na sequência da declaração de independência em 1992 relativamente à antiga Jugoslávia.
O suspeito, oriundo da região de Veneto, no norte de Itália, ter-se-á gabado de “realizar uma caçada humana” naquele território e é agora o primeiro suspeito formal desde que o inquérito foi instaurado pelas autoridades italianas em novembro passado.
De acordo com o que a imprensa italiana avançou então, o objetivo é identificar suspeitos de homicídio agravado por crueldade, depois de terem surgido denúncias de que grupos de italianos e outros estrangeiros, descritos como “turistas atiradores“, pagavam a membros do exército sérvio da Bósnia para serem levados às colinas que rodeavam Sarajevo e atirarem sobre a população local.
Com a cidade inserida num vale, a existência de atiradores furtivos e as mortes de civis de forma indiscriminada e aleatória criaram um clima de medo permanente e originaram massacres. Estes ‘turistas de guerra’ estrangeiros terão pagado quantias avultadas a soldados do exército liderado por Radovan Karadžić, o antigo líder sérvio-bósnio que em 2016 foi considerado culpado de genocídio e crimes contra a humanidade.
O inquérito teve origem numa queixa do escritor e jornalista Ezio Gavazzeni, que destacou que estes indivíduos eram “ricos, de extrema-direita, fanáticos por armas” e faziam viagens no estilo de “safaris humanos”. “Estamos a falar de pessoas que pagavam para matar por diversão”, afirmou então à agência de notícias italiana ANSA.
Gavazzeni relatou que começou a aprofundar o tema depois de assistir ao documentário Sarajevo Safari (2022), do realizador esloveno Miran Zupanič. No filme, um ex-soldado sérvio afirma que grupos de cidadãos ocidentais eram levados às zonas de tiro para disparar sobre civis.
O escritor refere que, após iniciar uma conversa com o realizador, “expandiu a investigação até recolher material suficiente para apresentar ao Ministério Público”. Disse, ainda, que identificou alguns dos alegados italianos envolvidos, que deverão ser ouvidos nos próximos meses. “Havia muitos, muitos italianos, alemães, franceses, ingleses. Pessoas de vários países ocidentais que pagavam para ir atirar sobre civis”, sublinhou.
Existiria também, segundo Gavazzeni, uma “tabela de preços” que facilitava os ataques: “As crianças custavam mais, depois os homens, de preferência armados ou fardados, depois as mulheres. Os idosos podiam ser mortos de graça”. Os suspeitos reuniam-se em Trieste, viajavam para Belgrado e eram então conduzidos por militares sérvios até às colinas de Sarajevo. “Era um tráfico de turistas de guerra. Eu chamo-lhe indiferença perante o mal”, resumiu.
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