(Notícia atualizada pelas 9h45 de quinta-feira com confirmação de que o atleta foi oficialmente desqualificado.)

Na própria manhã em que iria competir nas provas de skeleton em Cortina d’Ampezzo, nos Jogos Olímpicos de Inverno em Itália, Vladyslav Heraskevych foi oficialmente informado de que estava desqualificado da competição. A notícia foi confirmada pelo próprio à agência Reuters, nesta quinta-feira.

O atleta ucraniano já tinha sido impedido pelo Comité Olímpico Internacional (COI) de competir com o chamado “capacete em memória”, decorado com os rostos de desportistas ucranianos mortos na sequência da invasão russa – um gesto que pretendia levar para a competição como forma de homenagem.

O ucraniano foi informado da desclassificação após uma reunião com a presidente do Comité Olímpico Internacional, Kirsty Coventry, esta manhã – a poucas horas do início da competição oficial nesta modalidade. A sua equipa, acrescenta a Reuters, irá recorrer da decisão no Tribunal Arbitral do Desporto.

O capacete que está no centro da polémica

O capacete, que Heraskevych chegou a usar num treino na segunda-feira, presta homenagem a várias figuras da comunidade desportiva ucraniana, entre elas a halterofilista Alina Perehudova, o pugilista Pavlo Ischenko, o jogador de hóquei no gelo Oleksiy Loginov, o ator e atleta Ivan Kononenko, a mergulhadora e treinadora Mykyta Kozubenko, e a dançarina Daria Kurdel.

Foi após essa sessão de treinos que o atleta recorreu às redes sociais para relatar que tinha sido impedido de competir – uma decisão que acabou por ser um preâmbulo da desqualificação oficial comunicada nesta quinta-feira. Heraskevych explicou que a decisão lhe foi comunicada pessoalmente na Vila Olímpica por Toshio Tsurunaga, o representante do COI responsável pela ligação entre atletas, comités olímpicos nacionais e a organização.

“Esta é uma decisão que, simplesmente, me parte o coração. A sensação de que o COI está a trair os atletas que fizeram parte do movimento olímpico, não permitindo que sejam homenageados na arena desportiva que esses atletas nunca mais poderão pisar”, escreveu no X.

A Ucrânia ainda tentou reverter a situação. Na terça-feira, apresentou um recurso formal a defender que o capacete deveria ser autorizado em competição, mas o pedido foi rejeitado. O COI justificou a decisão com a Regra 50.2 da Carta Olímpica, que determina que “nenhum tipo de manifestação ou propaganda política, religiosa ou racial é permitida em quaisquer instalações, locais ou outras áreas olímpicas”, noticiou a Reuters.

Apesar da recusa, terá havido margem para negociação. Segundo o porta-voz do Comité, Mark Adams, citado pela CNN Internacional, decorreu uma reunião informal com o atleta, o treinador e representantes da delegação ucraniana. “Houve uma reunião informal ontem à noite com o Sr. Heraskevych, o seu treinador e a delegação, e reiteramos a nossa compreensão do desejo do atleta de homenagear os seus colegas ucranianos – que ele já fez durante os treinos e nas redes sociais”, disse Adams. Como solução de compromisso, o organismo abriu uma exceção: “Após a reunião, reiteramos que abriremos uma exceção às diretrizes para permitir que ele use uma braçadeira preta durante a competição”.

Nesta terça-feira, Heraskevych, o primeiro ucraniano de sempre a competir em skeleton, voltou a questionar o COI, apontando para o que considera incoerências: “Agora, nos Jogos Olímpicos, já vimos um grande número de bandeiras russas nas arquibancadas, no capacete de um dos atletas – e para o COI, isso não é uma violação. No entanto, foi constatada uma violação no ‘capacete em memória’, que homenageia os membros da família desportiva ucraniana que foram mortos desde a última edição dos Jogos Olímpicos.

Heraskevych lembrou outros precedentes, referindo-se aos Jogos de Pequim de 2022, quando o próprio exibiu um cartaz com a mensagem contra a guerra dias antes da invasão em larga escala: “Naquela época, naquela ação, eles viram um apelo à paz e não aplicaram nenhuma sanção contra mim… no entanto, foi constatada uma violação no ‘capacete em memória’”.

O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, agradeceu publicamente ao atleta por “lembrar ao mundo o preço da luta” ucraniana, evocando também outros desportistas ucranianos mortos pela Rússia. “Esta verdade não pode ser inconveniente, inadequada ou chamada de ‘manifestação política num evento desportivo’. É um alerta para todo o mundo do que é a Rússia moderna”, escreveu.

O caso fez o debate sobre a neutralidade reacende-se dentro do próprio movimento olímpico. A nova presidente do COI, Kirsty Coventry, tem defendido uma linha dura na separação entre desporto e política, sublinhando que os Jogos devem permanecer livres de interferências externas.

“Somos uma organização desportiva”, afirmou no seu primeiro discurso numa Sessão do COI em Milão, segundo o New York Times. “Compreendemos política e sabemos que não vivemos isolados do mundo. Mas o nosso objetivo é o desporto”.

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