Passava pouco das 21h00 desta terça-feira quando foi conhecida a saída de Maria Lúcia Amaral do XXV Governo de Luís Montenegro, através de um comunicado do Presidente da República. Questionado pouco depois por jornalistas sobre a decisão da ministra da Administração Interna, o Presidente em exercício recusou comentar se a demissão pecava por tardia. “A senhora ministra entendeu que não tinha já condições, como dizia o comunicado. Transmitiu essa vontade ao senhor primeiro-ministro e eu aceitei esse pedido”, disse Marcelo Rebelo de Sousa.
Vincando que não ia “dizer mais nada” sobre o caso, Marcelo Rebelo de Sousa rematou: “Quem tomou a decisão, tomou; ponderou as circunstâncias, entendeu que não tinha condições.” “É uma situação complexa”, afirmou ainda.
Na altura em que foi conhecida a demissão da ministra, a primeira do segundo Governo de Montenegro, José Luís Carneiro estava a chegar para a reunião da Comissão Política Nacional do PS e disse aos jornalistas que a “demissão da Ministra da Administração Interna é a prova de que o Governo falhou na resposta a esta emergência, a esta tempestade.”
Ressalvou que “não é por substituir a ministra da Administração Interna, ou no outro dia qualquer a ministra da Saúde, que os problemas se resolvem de per si”. O líder do PS considerou ainda que “há um problema de acerto do Governo na resposta às crises, de que esta é apenas a expressão mais recente. Todos temos bem consciência do que foi a gestão do apagão no país”, lembrou ainda sobre outro momento de crise.
Henrique Gouveia e Melo, que esta terça-feira num artigo de opinião no Público tinha defendido precisamente a demissão de Maria Lúcia Amaral, estava a ser entrevistado pela SIC quando foi tornada pública a demissão da governante. “Achei que a situação já tinha passado para lá de um limite que é razoável e acho que a ministra achou o mesmo”, afirmou o ex-candidato presidencial.
“Aprendi a nunca dizer que não, mas não tenho mesmo nenhuma intenção [de aceitar o cargo], quero dedicar-me à minha vida pessoal”, respondeu Gouveia e Melo, quando questionado sobre a sua disponibilidade para vir a assumir o lugar de ministro da Administração Interna no Governo de Luís Montenegro.
“Não estou à procura de lugar nenhum no Estado neste momento”, reiterou, assumindo que o “país precisa de respostas”, mas que deverão existir várias pessoas qualificadas para o cargo que fica disponível com a demissão da ministra.
Na reação à saída de Maria Lúcia Amaral do Governo à Rádio Observador, o deputado da Iniciativa Liberal, Mário Amorim Lopes, assumiu que “como primeira impressão”, Gouveia e Melo para o cargo de novo ministro não lhe parece “descabido”.
Destaca que o almirante já “mostrou capacidade de logística, liderança e comunicação” e que sendo assim “reúne alguma das competências para poder ocupar esse cargo“.
Ventura diz que Montenegro “vai perdendo controlo do Governo” passo a passo. Mariana Leitão crítica demora na demissão
André Ventura reagiu à saída de Maria Lúcia Amaral do Governo na rede social X, considerando que “é a prova da incapacidade do Governo em gerir todas as adversidades” que o país tem vivido nos últimos dias.
Para André Ventura, esta decisão prova que Montenegro “vai perdendo o controlo do Governo”, passo a passo, “da saúde à administração interna”, lê-se na sua publicação. “Quanto mais tempo vai demorar até serem resolvidos os outros ‘erros de casting’ deste Governo?”, rematou.
Esta demissão da Sra. Ministra da Administração Interna é a prova da incapacidade do Governo em gerir todas as adversidades que o país tem enfrentado, desde os incêndios ao recente fenómeno das tempestades. É um falhanço evidente de Luís Montenegro que, da saúde à administração…
— André Ventura (@AndreCVentura) February 10, 2026
Mariana Leitão, líder da Iniciativa Liberal, recordou na rede social X que pedia “há cinco dias” a saída de Maria Lúcia Amaral. “Foram cinco dias que se perderam. O Governo deve enfrentar esta pasta com competência, resposta pronta e capacidade de comunicação em situação de crise. As populações estão desesperadas. São necessárias soluções já”, escreveu a liberal.
Há 5 dias. Foram 5 dias que se perderam. O governo deve enfrentar esta pasta com competência, resposta pronta e capacidade de comunicação em situação de crise. As populações estão desesperadas. São necessárias soluções já. pic.twitter.com/qaDFWhguIh
— Mariana Leitão (@marianalqcl) February 10, 2026
Inês Sousa Real, porta-voz do PAN, também já reagiu à saída da ministra da Administração Interna, referindo que “já era expectável”. “Ou existe de facto uma visão de Luís Montenegro em que passa a dar prioridade à prevenção (…) ou então, seja qual for a figura que colocar neste cargo, vamos estar sempre a correr contra os prejuízos”, alertou a deputada única em declarações à TSF.
A falar à mesma rádio, o deputado do Livre, Paulo Muacho, defende que a demissão da até então ministra da Administração Interna surge na véspera do debate quinzenal com um objetivo: proteger Luís Montenegro.
Paulo Muacho reconheceu ainda que o país “já tinha percebido” que Maria Lúcia Amaral não tinha condições de continuar a assumir a pasta da Administração Interna. O deputado do Livre pede também um reforço dos meios no terreno para dar resposta às necessidades da população em virtude do mau tempo e alerta que “nada estava preparado”.
José Manuel Pureza, coordenador do Bloco de Esquerda, defendeu que “a demissão da ministra da Administração Interna era a única saída”, face à gestão que o Governo tem feito da crise que o país atravessa.
“Entre a falta de prevenção e o erro na resposta, o Governo falhou no seu dever mais básico: proteger o nosso povo. Milhares de famílias pagaram o preço da incompetência e do abandono. O país exige mudanças, não apenas demissões”, escreveu na rede social Instagram o bloquista.
Sindicato Nacional da Polícia diz que Maria Lúcia Amaral “não tem qualquer tipo de empatia” e que foi uma das “piores ministras” da história
“Uma pessoa que não tem qualquer tipo de empatia” e que “não faz esforços para o diálogo social, não faz esforços para que haja o relacionamento institucional e diplomático saudável entre as partes”. Assim caracteriza Armando Ferreira a ministra demissionária Maria Lúcia Amaral, e vai mais longe: “É uma pessoa que vai ficar de facto na História de ser uma das piores ministras da Administração Interna que nós já tivemos”.
Ao Observador, o líder do Sindicato Nacional da Polícia (SINAPOL) frisou que, nas tempestades que antecederam a saída da governante, “ficou demonstrada a fragilidade que todos nós temos quando, de um momento para o outro, vemos a acontecer no nosso país aquilo que costumamos só ver na televisão a acontecer no país dos outros”.
“Que isto seja um alerta para o senhor primeiro-ministro e para o próximo ministro da Administração Interna, de que tem que vir com um sentido de cooperação com os representantes das forças de segurança dos sindicatos, no sentido de vir melhorar a causa pública da segurança e não de vir afrontar, porque não é isso que vai ser bom para o País”, continuou Armando Ferreira.
“O próximo ministro tem que vir com um sentido de diálogo construtivo com os sindicatos e com uma retórica muito comunicativa e não como a senhora ministra tinha de embate em que não estava disponível para fazer absolutamente nada”, rematou.
Paulo Santos, o presidente da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP-PSP), considerou ao Observador que a saída de Maria Lúcia Amaral era “inevitável”.
“Havia muitas dificuldades de comunicação, porque a senhora ministra da Administração Interna não tinha, na nossa opinião, a sensibilidade de compreender aquilo que nós dizíamos e que efetivamente tinha alguma dificuldade em dar respostas àquilo que eram as nossas reivindicações”, explicou ao Observador.
“Aquilo que nós pretendemos é que venha para ministro da Administração Interna alguém que tenha a noção daquilo que é a complexidade deste Ministério, que venha com vontade de resolver problemas, mas tenha também a legitimidade política por parte do Governo e do seu primeiro-ministro, para que possa resolver questões com com autonomia e a todos os níveis”, de forma a “cumprir o acordo que foi celebrado com os sindicatos da PSP e as associações da GNR em julho de 2024”, disse, numa referência aos aumentos do suplemento de risco negociados com Margarida Blasco.
“O senhor primeiro-ministro, enquanto responsável máximo do Governo, é que traça a linha política e a ação política do Governo. Terá que ter o devido cuidado e a devida atenção para ter este ministério ativo”, concluiu o líder sindical.
[Gregorian Bivolaru dá todos os passos do manual de manipulação. Mas quem vive no interior da seita vai demorar a perceber. Ouça o terceiro episódio de “Os segredos da seita do yoga”, o novo Podcast Plus do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir aqui o primeiro episódio e o aqui o segundo.]