Era um sábado de inverno em Lisboa, no fim de janeiro deste ano, e Alice (nome fictício) não queria cozinhar. A decisão foi prática e simples: pedir comida. Não queria ir ao supermercado, não queria lavar a loiça. Queria apenas, em poucos minutos, ter comida quente à mesa de casa. Pediu então dois menus numa grande cadeia de restaurantes, através da aplicação Bolt Food. O tempo previsto de chegada da refeição era de 15 minutos. Mas o pedido nunca chegou às suas mãos.

▲ A conversa entre a cliente e o suporte da Bolt Food, no chat da aplicação

Reprodução/Bolt Food

O estafeta, ao chegar ao restaurante, pediu à cliente por mensagem — no chat da própria aplicação — o “código de confirmação” do pedido, alegando ser este necessário para recolher a comida. Acontece que este código, na altura implementado há apenas uma semana na aplicação, tinha na verdade a finalidade de confirmar no sistema que o pedido chegou às mãos do cliente.

Por desconhecer a funcionalidade recente e não desconfiar da solicitação do estafeta — visto que a conversa fica registada no chat da aplicação —, Alice enviou o código. O entregador, então, recolheu os dois menus no restaurante e deu diversas voltas com a mota nos arredores. Ao verificar que este conduzia na direção oposta à de sua casa, a cliente enviou mensagem pelo chat. Por alguns minutos, foi ignorada. Depois, o estafeta chegou a conduzir até à rua que fica acima da morada de entrega. Mas não chegou a encontrá-la para lhe entregar o seu pedido. O homem marcou na aplicação que a entrega foi realizada, sem a ter, de facto, feito.

Alice, então, ficou sem a comida. E sem o reembolso da Bolt Food naquela noite, devido ao suporte da empresa recusar devolver-lhe o dinheiro pago pela entrega nunca realizada — mesmo que esta tenha explicado a situação. O dinheiro foi devolvido três dias depois, quando o Observador entrou em contacto com a empresa a questionar a frequência com que ocorrem estes casos.  A Bolt Food lamentou o apoio prestado e afirmou que até ao início de fevereiro a empresa “não teve mais nenhuma ocorrência” relativamente ao recém implementado código de confirmação de entregas.

▲ Após o contacto do Observador, a Bolt Food retomou o atendimento à cliente

Reprodução/Bolt Food

O sistema é também usado pela Uber, que contactada pelo Observador explicou ter implementado o código há vários anos, como uma medida de segurança. “O que foi descrito é fraude e fraudes na Uber podem levar à desativação permanente da conta”, respondeu a empresa, que afirma realizar “constantes atualizações” nas suas tecnologias “por forma a acompanhar a evolução de esquemas fraudulentos.”

No Portal da Queixa, há diversas reclamações registadas para as empresas Bolt Food, Uber Eats e Glovo, que correspondem, juntas, a 99% das entregas no país. Entre 31 de janeiro e esta quarta-feira, foram publicados no site dezenas de casos semelhantes, que referem situações de “apropriação indevida da encomenda”, “ridicularização” por parte de um estafeta quando este assumiu ter comido o pedido do cliente e alegadas falhas de contacto com os entregadores propositadas.

Reprodução/Portal da Queixa

Os casos relatados são quase sempre similares ao que ocorreu com Alice. Outro tipo de estratégia adotada pelos estafetas, constatada em diversas reclamações no Portal da Queixa, é a de tirar uma “falsa foto” do pedido a ser entregue para enviar ao cliente no chat. “[O estafeta] deixou a comida no chão, para tirar uma foto de como ‘entregou’ o pedido. Ao chegar no mesmo local, não encontrei nada. A receção do meu prédio alegou que ninguém apareceu lá para fazer uma entrega”, refere uma reclamação a 22 de fevereiro.

Reprodução/Portal da Queixa

Em 2025, os reembolsos foram o principal motivo de queixa dos consumidores portugueses que pedem comida em aplicações, segundo o relatório O Estado do Delivery, realizado pelo Consumers Trust Labs e divulgado no início deste mês. Janeiro e fevereiro daquele ano foram os mais críticos no âmbito operacional. O estudo verificou 3.263 reclamações feitas no Portal da Queixa ao longo de doze meses, constatando que houve um aumento de +20,36% face às 2.711 queixas de 2024. Lisboa é a cidade mais “insatisfeita” com os serviços prestados.

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