Benedetto “Nitto” Santapaola, uma das maiores e mais temidas figuras da máfia siciliana, morreu esta segunda-feira aos 87 anos na prisão, adiantou a agência de notícias italiana ANSA. Há 33 anos que o ex-líder histórico da Cosa Nostra cumpria várias penas perpétuas na cadeia Opera, em Milão, num regime de alta segurança — o 41bis — criado especificamente para líderes mafiosos. A chamada “prisão dura” pretende evitar que os chefes continuassem a comandar os seus grupos criminosas a partir da cela e nasceu depois deste capo ter ordenado atentados que derramaram muito sangue nas décadas de 80 e 90 em Itália.
A necessidade de separar a todo o custo Santapaola da sua organização decorre do seu poder dentro do “braço” ou “família” da Catânia, na Sicília, da Cosa Nostra, uma das mais poderosas organizações mafiosas de sempre, que surgiu no século XIX, precisamente na ilha mediterrânica.
Foi aí que “Nitto” (diminutivo de Benedetto), nasceu e cresceu, numa família pobre no bairro de San Cristoforo. Largou cedo a escola e começou a fazer do crime a sua vida, tendo enfrentado a justiça pela primeira vez na década de 60, acusado de roubo e conspiração criminosa. Essa tornou-se a sua porta de entrada na máfia, lembra o jornal MilanoToday.
Na mesma década, chegou a capodecina (do italiano capo, que significa chefe, e decina, dezena, em português) na “família” de Catânia, então liderada por Giuseppe Calderone. “Nitto” controlava pelo menos uma dezena de homens, estando mais próximo do círculo de confiança do chefe desta “família”, um dos muitos braços da Cosa Nostra, espalhada por toda a Itália e até pelos Estados Unidos da América.
No papel, Santapaola era vendedor de fruta e, mais tarde, vendedor de carros — chegando mesmo a abrir um stand de automóveis. Nas ruas, era o senhor da máfia, “caçando” rivais e todos os que “Nitto” considerasse empecilhos aos interesses da Cosa Nostra. Daí a alcunha “O Caçador” devido à paixão por armas e safaris na Sicília, mas também pela forma como identificava, rastreava e abatia inimigos, conta o Il Sole 24 Ore.
Ao mesmo tempo, salienta o Il Messaggero, gostava de ter ligações na política: por exemplo, o governador de Catânia, Giuseppe Abbadessa, e o comissário da polícia de Catânia — eleito pelo Governo central —, Emanuele De Francesco, estiveram presentes na inauguração do stand de Benedetto Santapaola, na altura já um líder mafioso em ascensão, à frente de uma rede de tráfico de droga, extorsão, controlo de negócios e contratos públicos.
Os atentados à bomba e o assassinato da mulher de “Nitto”
Na luta pelo poder dentro da máfia siciliana, percebeu-se bem porque lhe chamavam “O Caçador”. Homem-chave de Calderone na Catânia, aliou-se a Salvatore “Totò” Riina, o “capo de todos os capos” da Cosa Nostra, nascido em Corleone (o mítico lugar da máfia em que se inspirou o escritor Mario Puzo para o livro, e mais tarde o filme, O Padrinho) e chefe dos corleonesi — o braço da organização em Palermo. Com a ajuda deste clã, em 1978, Benedetto Santapaola matou Giuseppe Calderone e subiu à liderança da Cosa Nostra na Catânia.
“Nitto” ganhou destaque mediático em Itália em 1982, quando a 3 de setembro o governador Carlo Alberto dalla Chiesa, a sua mulher Emanuela Setti Carraro e o polícia Domenico Russo foram assassinados em Palermo. Porém, não se conseguiu provar a ligação de Santopaola ao crime, apesar de ser suspeito da investigação, coordenada pelo procurador Giovanni Falcone, que o capo viria mais tarde a matar.
Mas a justiça conseguiu ir mais longe noutros casos e chegar à conclusão que, como membro da Cupola — uma espécie de conselho central da máfia — , organizou o chamado massacre da Circonvallazione em 1992, em que foram usadas kalashnikov AK-47 (armas automáticas e semi-automáticas), para eliminar o rival Alfio Ferlito, tendo morrido quatro pessoas inocentes.
E também o responsabilizou como um dos mandantes do atentado à bomba de 1992 que matou Giovanni Falcone, a mulher, Francesca Morvillo, e três polícias. Não foi o único magistrado que mandou matar. Também o procurador Paolo Borsellino foi assassinado, em julho do mesmo ano, assim como os seus guarda-costas.
Depois de vários anos em fuga, “Nitto” foi finalmente detido em 1993 na sua casa de campo, à frente da mulher, e condenado por todos estes homicídios. Já na cadeia, recebeu nova sentença a prisão perpétua pela morte, em 1984, de um jornalista que denunciava os seus crimes na Catânia: Giuseppe “Pippo” Fava, baleado dentro do carro com cinco tiros quando saía do teatro.
Ao longo dos anos atrás das grades, “O Caçador” foi não só envelhecendo como ficando doente. Só podia ver os três filhos e outros familiares que o visitavam através de um vidro blindado. A mulher, Carmela Minitti, tinha sido assassinada a sangue frio em 1995 quando abriu a porta de casa ao que julgava ser um polícia. Era um rival de Nitto, do clã Ferlito-Pilera. Giuseppe Ferone admitiu ter agido por vingança, para que o capo sentisse a mesma dor que ele tinha sofrido com a morte do pai e do filho executados sem que Santapaola se opusesse, refere a Ansa. Aliás, só na luta com os Ferlito-Pilera, “O Caçador” causou mais de 220 mortes na Catânia (cidade e província), acrescenta a agência de notícias italiana.
Apesar de diabético e de outras complicações de saúde, “Nitto” nunca conseguiu passar para prisão domiciliária ou para o regime de internamento numa unidade médica prisional. Acusavam-no de, apesar de estar sob as condições do 41bis, ainda comandar o clã a partir da prisão. Agora, doente, tinha sido transferido para a ala médica prisional do hospital San Paolo, em Milão, onde morreu. Ainda assim, as autoridades pediram que fosse feita uma autópsia para que não restassem dúvidas sobre a causa da morte.