O serviço de Ginecologia/Obstetrícia do hospital de São Bernardo, em Setúbal, perdeu quatro médicos desde agosto devido à instabilidade dos cuidados de saúde obstétricos na península, diz ao Observador o diretor do serviço, José Pinto de Almeida, que se mostra preocupado com a indefinição em torno da futura urgência regional. O responsável explica que o serviço ficou reduzido a apenas sete especialistas, o que tem provocado constrangimentos no funcionamento da atividade programada e também da urgência — que se encontra encerrada ou apenas aberta a casos referenciados pelo Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) do INEM na maioria dos dias.
Segundo a ministra da Saúde, quando a futura urgência regional de Ginecologia/Obstetrícia da Península de Setúbal entrar em funcionamento, irá fazê-lo em complementaridade com a urgência do hospital de São Bernardo que se deverá manter ininterruptamente aberta para os casos referenciados pelo CODU. Trata-se de uma intenção a que o diretor do serviço não sabe como responder.
“Desde agosto até agora, já perdi quatro especialistas“, lamenta José Pinto de Almeida, acrescentando que, desde essa altura, não foi feita nenhuma contratação por parte do hospital, o que tem agravado a carência de médicos e provocado constrangimentos no funcionamento do serviço, nomeadamente no que diz respeito à própria atividade programada (consultas, cirurgias, exames). “Estamos com grande carência na atividade programada e com maiores dificuldades“, admite o especialista, acrescentando que, neste momento, o serviço conta apenas com sete médicos, sendo que, destes, apenas cinco realizam serviço de urgência. No entanto, uma das médicas do serviço só exerce na urgência a tempo parcial, 12 horas de urgência por mês, explica o responsável.
A crescente carência de médicos tem um impacto mais visível no serviço de urgência, admite, o que tem levado ao encerramento frequente deste serviço (que também serve a população do litoral alentejano). “Temos encerrado muitos dias” por falta de especialistas nas escalas, sublinha José Pinto de Almeida, lembrando, que, nos dias em que se a urgência está aberta (quase sempre de forma condicionada, recebendo apenas utentes via CODU), tal só é possível devido aos médicos tarefeiros que continuam a colaborar com o serviço.
Segundo o portal das urgências do SNS, a urgência de Ginecologia/Obstetrícia do hospital de São Bernardo, em Setúbal, está a funcionar com referenciação via CODU a partir das 21 horas desta quarta-feira e até às 9h de quinta-feira, altura em que encerra. Só volta a abrir na sexta-feira às 9 horas, também condicionada a casos encaminhados pelo CODU, até às 9 horas de sábado, quando volta a fechar portas.
Diretor critica indefinição em torno da reorganização das urgências obstétricas em Setúbal
Em setembro, numa audição na Comissão de Saúde da Assembleia da República, a ministra da Saúde referiu que a urgência regional de Ginecologia/Obstetrícia da Península de Setúbal iria funcionar em complementaridade com a urgência do hospital de São Bernardo, que teria se manter aberta de forma ininterrupta para os casos referenciados pelo CODU do INEM. No entanto, José Pinto de Almeida alerta que, para que tal fosse possível, o serviço teria de ver reforçado o quadro de especialistas. “Para estarmos sempre referenciados para o CODU, no mínimo teríamos de ser 14”, diz o responsável, lembrando a dificuldade que esta unidade hospitalar tem sentido, ao longo dos últimos anos, para atrair obstetras.
O médico realça que apenas tem conhecimento do plano da tutela e da Direção Executiva para o funcionamento da urgência do hospital de São Bernardo — no âmbito da reorganização dos cuidados obstétricos na península de Setúbal — através das declarações públicas dos dirigentes máximos da Saúde, uma vez que que nunca foi contactado pela Direção Executiva sobre o tema. “Nunca fui contactado nem convocado para nada”, garante. A urgência regional de Ginecologia/Obstetrícia da Península de Setúbal deverá abrir portas no final de março ou início de abril, como disse fonte conhecedora do processo ao Observador, esta terça-feira.
José Pinto de Almeida critica a indefinição em torno dos cuidados urgentes e emergentes na península de Setúbal e relaciona a instabilidade gerada pela dúvida sobre o seu funcionamento e como se irá refletir no trabalho dos médicos, com as saídas de especialistas do serviço (uma realidade que afetou também, durante o ano passado, o serviço de Ginecologia/Obstetrícia do hospital Garcia de Orta, de onde saíram nove médicos em poucos meses).
“Toda esta insegurança traz instabilidade e as pessoas vão embora”, vinca José Pinto de Almeida, realçando as dificuldades de gestão de um serviço nestas circunstâncias.
“Isto torna a gestão de um serviço insuportável”, diz o responsável, pedindo uma clarificação ao Ministério da Saúde e à Direção Executiva do SNS quanto ao papel do hospital de São Bernardo na reorganização das urgências obstétricas da península.
Questionada no âmbito deste artigo, a Unidade Local de Saúde da Arrábida, que abarca o hospital de São Bernardo, não respondeu às questões colocadas. Também foram enviadas perguntas à Direção Executiva do Serviço Nacional de Saúde (DE-SNS), que não respondeu em tempo útil.