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RITA CHANTRE/OBSERVADOR

RITA CHANTRE/OBSERVADOR

Hospital Garcia de Orta perde nove obstetras em poucos meses. Cuidados às grávidas e serviço de urgência "estão em risco"

Situação tem piorado no maior hospital da margem sul. Urgência de Obstetrícia já fecha 4 dias por semana e saem médicos todos os meses. Novo presidente do hospital acusado de ter postura "hostil".

Desde o início do ano o Hospital Garcia de Orta, em Almada, perdeu sete obstetras e outros dois vão sair nos próximos dois meses, o que vai fragilizar ainda mais o atendimento às grávidas da margem sul do Tejo. Segundo uma obstetra do serviço, os cuidados prestados às grávidas, que já eram deficitários, vão ficar “em risco” por causa da saída de mais especialistas. O problema de falta de médicos no serviço de Obstetrícia não é novo, mas tem vindo a agravar-se nos últimos meses desde a tomada de posse do novo Conselho de Administração, que os médicos acusam de ter uma atitude “hostil”.

Pelo menos cinco obstetras do Garcia de Orta saíram até ao mês de abril, sendo que outros dois abandonaram o hospital no final do mês de maio. O Conselho de Administração, liderado desde fevereiro por Pedro Azevedo, recebeu já as cartas de rescisão de outros dois especialistas que vão deixar o Hospital Garcia de Orta durante os meses de junho e julho — fazendo antever um período de verão marcado por grandes dificuldades nos cuidados obstétricos na Península de Setúbal. Com as duas saídas previstas para as próximas semanas, o serviço ficará apenas com apenas três obstetras.

A maternidade do Hospital Garcia de Orta é a maior da margem sul do Tejo e a referência para as grávidas, contando com um serviço de Neonatologia diferenciado. As carências no serviço de Ginecologia/Obstetrícia têm vindo a agravar-se ao longo deste ano, sendo que as saídas de especialistas comprometem várias valências.

“Serviço está em risco”, diz obstetra do Garcia de Orta

“O serviço está em risco neste momento, o hospital vai ficar com apenas três obstetras”, diz uma médica obstetra ao Observador, que não quis ser identificada. “Com os recursos que existem, é incomportável vigiar grávidas, fazer diagnóstico pré-natal, fazer urgência interna“, denuncia a especialista, alertando para os problemas em manter também em funcionamento a urgência aberta ao exterior.

"Com os recursos que existem, é incomportável vigiar grávidas, fazer diagnóstico pré-natal, fazer urgência interna"
Médica obstetra do Garcia de Orta, sob anonimato

Ao Observador, o presidente da Comissão Nacional da Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente considera a situação do Garcia de Orta “preocupante” e deixa um aviso. “Se não houver sentido de responsabilidade dos autarcas e dos responsáveis das ULS [Unidade Local de Saúde Almada-Seixal, que engloba o Garcia de Orta], daqui a pouco não há nenhum obstetra no Garcia de Orta e do Barreiro”, diz Alberto Caldas Afonso, numa alusão à necessidade de criar uma urgência metropolitana na Península de Setúbal.

Todos os sete médicos que já saíram do Hospital Garcia de Orta até ao final de maio de 2025 têm menos de 55 anos, o que significa que, por lei, estavam obrigados a assegurar o serviço de urgência. Sem esses médicos a elaboração das escalas no serviço de urgência, que já era complexa, tornou-se ainda mais difícil.

A partir do final de maio, o serviço de Urgência do Garcia de Orta (que serve uma população de cerca de 350 mil habitantes) começou a fechar quatro dias por semana (de quinta a domingo) e o cenário poderá agravar-se. De acordo com o Portal das Escalas de Urgência do SNS, a urgência de Ginecologia/Obstetrícia esteve encerrada durante o último fim de semana, tendo voltado a abrir esta segunda-feira às 8h30 mas de forma condicionada (apenas para mulheres referenciadas pela linha SNS Grávida ou pelo INEM). Assim se manterá até quarta-feira às 20h. A partir daí, volta a encerrar até à manhã da segunda-feira seguinte.

Diretora de ginecologia e obstetrícia do Hospital Garcia de Orta demite-se

Condições de segurança para as utentes estão em causa. Serviço não tem diretor desde janeiro

De acordo com a obstetra contactada pelo Observador, o serviço já “não assegura as condições de segurança necessárias quer para as doentes quer para os profissionais” e deveria fechar. Os médicos internos, ainda em formação, estão a fazer consultas sem qualquer acompanhamento, adianta — uma vez que não há especialistas suficientes para garantir a atividade assistencial regular, a urgência externa e ainda a formação aos internos.

Para agravar o quadro, existe ainda um vazio na direção do serviço. Desde final de janeiro que o serviço está sem uma diretora, quando a obstetra Cristina Leite decidiu demitir-se do cargo, invocando motivos pessoais. No entanto, o Observador sabe que a especialista saiu por não conseguir elaborar as escalas. Queixava-se também da falta de condições para assegurar uma resposta a grávidas que recorriam à urgência. Entretanto, a administração do Garcia de Orta abriu um concurso para preencher a vaga de diretor, mas o lugar continua deserto até hoje.

A ministra da Saúde, Ana Paula Martins, fala aos jornalistas durante uma visita à ULS (Unidade Local de Saúde) Almada - Seixal, Hospital Garcia de Orta, Almada, 29 de Abril de 2025. RUI MINDERICO/LUSA

▲ Ministra da Saúde visitou o Garcia de Orta há um mês. Os médicos acusam a direção do hospital, liderada por Pedro Azevedo (à direita) de ter "postura hostil"

RUI MINDERICO/LUSA

Para o presidente da Comissão Nacional da Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente, a falta de uma chefia no serviço é um problema sério, que tem impacto na capacidade de retenção e atração de profissionais. “O facto de não haver um diretor torna as coisas mais difíceis. A qualidade dos hospitais depende dos diretores de serviço. São pessoas que têm de ter uma postura de ouvir as pessoas, motivá-las”, explica Caldas Afonso, que tem décadas de experiência na gestão de equipas (sendo que, atualmente, dirige o Centro-Materno Infantil do Norte).

No Garcia de Orta, as equipas estão sob crescente pressão para continuar a manter os serviços em funcionamento, uma pressão que tem sido exercida com mais intensidade pela nova administração, liderada pelo médico internista Pedro Azevedo (também militante do PSD), que iniciou funções em fevereiro. “Daí para cá o serviço piorou“, diz a médica ouvida pelo Observador, responsabilizando a atual administração do hospital pelas mais recentes demissões no serviço de Obstetrícia. O concurso para a direção do serviço continua vazio, explica, porque “ninguém quer ir chefiar ninguém”.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 3.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui e o segundo aqui.]

Médicos acusam atual administração do hospital de ter “postura hostil”

“As duas saídas [de especialistas] que aconteceram em maio e as duas que vão acontecer em junho e julho prendem-se com as pessoas que entraram [na administração]“, realça a médica que falou com o Observador, acusando a atual direção do hospital de ter uma “postura hostil” em relação aos profissionais do serviço. “Não tentam reter as pessoas, têm uma postura crítica e hostil”, sublinha, antecipando que “os poucos [médicos] que permanecem vão acabar por sair também”.

A saída da anterior administração do hospital, liderada por Teresa Luciano, esteve envolta em polémica. A Direção Executiva do SNS e o Ministério da Saúde ficaram desagradados com o facto de o Hospital Garcia de Orta não ter cumprido o esquema de rotatividade acordado no verão de 2024 entre as três urgências de Obstetrícia da Península de Setúbal, e que previa que um dos três serviços de urgência da região (nos hospitais Garcia de Orta, do Barreiro e de Setúbal) teria de estar aberto, à vez, para garantir a resposta às grávidas e evitar encaminhamentos para Lisboa. Em julho e agosto, o Garcia de Orta não cumpriu o acordado, por falta de médicos obstetras para preencher as escalas. Sendo um hospital que registou cerca de 2.300 partos anuais em 2024, precisaria de quatro especialistas em permanência física, indicam as diretivas da Ordem dos Médicos.

Mas o entendimento da tutela, sabe o Observador, é que a anterior administração falhou numa área sensível — o que justificou a substituição da equipa dirigente. Em outubro último, a anterior presidente da ULS Almada-Seixal revelou, no Parlamento, que o ex-diretor-executivo do SNS, António Gandra D’Almeida, lhe pediu, num telefonema de menos de três minutos, em setembro, para que os membros da administração apresentassem a demissão, sem ter sido apresentada qualquer justificação. A administração não saiu pelo seu próprio pé e a substituição só se concretizou cinco meses depois, em fevereiro deste ano, quando entrou Pedro Azevedo (das estruturas do PSD-Almada).

SNS. Governo vai pagar mais aos obstetras por horas extra e alarga incentivos financeiros às equipas

Quando esteve na Comissão de Saúde da Assembleia da República, a ex-presidente do hospital já vaticinava que a mudança de administração não iria resolver o problema. “Estamos a fazer escalas com quatro pessoas. Desafio qualquer um a fazer escalas nesta situação. Dificilmente um outro Conselho de Administração vai conseguir fazer melhor que nós”, defendeu a responsável, lembrando que o problema da falta de recursos humanos na Obstetrícia é “transversal”. Há três meses e meio no cargo, o novo conselho de administração não conseguiu ainda inverter o declínio do serviço.

Questionada pelo Observador, a ULS Almada-Seixal confirma a saída de sete obstetras desde o início do ano mas assegura que o Conselho de Administração “está, desde a primeira hora, a envidar todos os esforços para robustecer o número de recursos humanos do Serviço de Ginecologia e Obstetrícia”, salientando que, em maio, iniciaram funções “três especialistas em regime prestação de serviço”.

Quanto ao facto de as saídas coincidirem com o período em que a atual administração está em funções, a ULS realça que essa realidade deriva “na grande maioria dos casos, de um conjunto de fatores alheios a este Conselho de Administração e que culminaram num forte desgaste da equipa médica, sendo que muitos dos profissionais já tinham manifestado intenção de sair antes da tomada de posse do atual CA”. No que diz respeito ao serviço de urgência, a ULS Almada-Seixal refere que “tem procurado, com o número de profissionais existente e graças ao enorme empenho destes, assegurar o maior período de funcionamento da mesma”, sendo “importante salientar que a exiguidade de recursos humanos se reflete, lamentavelmente, nos períodos de funcionamento da urgência, mas não se traduz na deterioração dos cuidados prestados”.

"Se não houver sentido de responsabilidade dos autarcas e dos responsáveis das ULS [Unidade Local de Saúde Almada-Seixal], daqui a pouco não há nenhum obstetra no Garcia de Orta e do Barreiro"
Alberto Caldas Afonso, presidente da Comissão Nacional da Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente

Alberto Caldas Afonso — que foi nomeado pela ministra da Saúde, Ana Paula Martins, para propor medidas estruturantes na área materno-infantil — volta a insistir na necessidade de criar uma urgência metropolitana na Península de Setúbal, perante a impossibilidade de manter as três urgências da zona abertas em permanência devido à falta de especialistas. O médico lembra que esse modelo funciona há vários anos na zona do Grande Porto e com resultados satisfatórios.

Caldas Afonso defende concentração de urgências na margem sul e pede incentivos para médicos

“Temos de criar um pólo que englobe [urgências do] Barreiro e Garcia de Orta. Setúbal mantinha-se porque tem de garantir [a assistência à zona do] norte alentejano”, defende Caldas Afonso, acrescentando que espera que a decisão política seja tomada o quanto antes. “Dessa forma, criava-se um centro de altíssima qualidade na Península. Não podemos continuar com esta instabilidade“, reforça.

Diretor executivo do SNS: “Estranho muito que haja quem fale como ex-diretor executivo ao mesmo tempo que é candidato”

Questionado sobre a eventual necessidade de construir um espaço para acomodar a urgência metropolitana (uma ideia defendida pelo atual diretor-executivo do SNS, Álvaro Almeida, em entrevista ao Observador), Caldas Afonso defende que essa é uma questão ultrapassável e que o importante é concentrar as urgências, de forma a estancar a perda de obstetras. “Podíamos avançar no imediato sem construir nada e sem fazer obras. O [Hospital do] Barreiro manteria toda a atividade programada e a urgência seria partilhada no Garcia de Orta. As coisas vão-se construindo, as obras não são um fator impeditivo”, defende, avisando que, a manter-se tudo como está “daqui a pouco não há nenhum obstetra no Garcia de Orta e do Barreiro”.

Já sobre o outro fator que Álvaro Almeida invoca para justificar as dificuldades em concentrar urgências de Obstetrícia — a “resistência” dos médicos em deslocarem-se para outro hospital —, Caldas Afonso desvaloriza e sublinha o sentido de missão dos médicos. “Quando as pessoas entenderem que estão a defender os doentes, acho que percebem. Pode-se gostar mais ou menos. As mudanças têm de se fazer envolvendo as pessoas [leia-se os profissionais]. Ninguém se sente bem num hospital que fecha dia sim dia não”, sublinha o diretor do Centro Materno-Infantil do Norte, referindo-se aos casos das urgências obstétricas dos hospitais da margem sul.

Caldas Afonso avança que o Garcia de Orta é um dos hospitais onde está prevista a implementação do novo modelo de incentivos financeiros para reter e atrair obstetras, e que ainda não avançou. A proposta de incentivos às equipas obstétricas (que premeia não só o aumento da produção assistencial mas também o compromisso para manter as urgências abertas) foi apresentada pela Comissão Nacional da Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente à tutela em outubro de 2024, mas ainda não viu a luz do dia. O objetivo era lançar os incentivos em janeiro mas o processo foi-se arrastando no Ministério da Saúde, que precisava de dotação orçamental para avançar com a portaria. Entretanto, a queda do governo ‘congelou’ tudo.

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