Logo à chegada, o tom estava dado: Peter Thiel, multimilionário da tecnologia e financiador do universo MAGA, escolheu Roma — cidade que acolhe o Estado do Vaticano — para dar lições numa conferência de quatro dias centrada no Anticristo. A iniciativa não passou despercebida: ainda antes da sessão inaugural, no domingo, surgiram protestos nas ruas, com uma faixa a exigir a sua saída da cidade, enquanto dentro dos círculos próximos do Vaticano a visita lhe valeu acusações de “heresia”, noticiou o The Times.

“Toda a obra de Thiel pode ser interpretada como um ato contínuo de heresia contra o consenso liberal: um desafio aos próprios fundamentos da convivência civil, que ele agora considera ultrapassados”, escreveu o padre Paolo Benanti, presidente da Comissão de Inteligência Artificial para a Informação, na publicação em francês Le Grand Continent.

O encontro, envolto em secretismo, decorre à porta fechada e por convite. Programada de domingo a quarta-feira, a conferência já levou as universidades católicas, como a Pontifícia Universidade de São Tomás de Aquino, que inicialmente se viram associadas ao evento a negarem qualquer envolvimento oficial.

Entre os cerca de cem participantes, que se apresentaram de fato (um deles com um chapéu de cowboy) contam-se figuras ligadas à direita italiana, como próximos de Lorenzo Fontana, presidente de direita da Câmara dos Deputados da Itália, ou membros da órbita de Matteo Salvini. Um dos presentes, Davide Quadri, secretário de Relações Externas da ala jovem da Liga de Matteo Salvini, destacou o tom pragmático das intervenções, sublinhando ao The Times que Thiel apresentou a Inteligência Artificial (IA) como uma oportunidade, “não como o fim do mundo”. No interior, as regras são rígidas: telemóveis proibidos, nada de fotografias e aplicação de acordos de confidencialidade com penalizações financeiras de até 10.000 euros para incumprimentos, segundo o Corriere. No plano temático, segundo a imprensa italiana, Thiel tem defendido políticas de incentivo à natalidade e maior investimento em energia nuclear.

No centro desta e de outras iniciativas, como a que levou a São Francisco, nos EUA, está a obsessão intelectual de Thiel com o Anticristo e o Armagedom (o local bíblico da derradeira batalha entre forças de Deus e o mal) — símbolos que utiliza como metáforas para o que considera serem riscos contemporâneos. O Anticristo, argumenta, pode emergir não como indivíduo, mas como um sistema global de governação que explora medos coletivos ligados à tecnologia — sobretudo à IA — ao clima ou à guerra nuclear. Os “inimigos” apontados no encontro já não são figuras mediáticas que havia apontado no passado, como Greta Thunberg; o papel de agentes de desordem é agora atribuído a organizações não-governamentais e à burocracia europeia — vistas por Thiel como obstáculos à ordem e ao progresso, noticiou o La Repubblica.

Francesco Sisci, analista italiano e diretor do Instituto Appia, afirmou que o Vaticano e o Papa provavelmente “manterão distância” das palestras de Thiel, mas acrescentou que a decisão do investidor de capital de risco de vir a Roma evidencia um crescente interesse no papado e no Vaticano por parte de algumas figuras políticas. “O padrinho dos novos bilionários da tecnologia que chegam a Roma é uma prova da importância do Papa e de que o catolicismo está, de certa forma, voltando à moda. O Papa já não é uma figura distante, mas sim mais envolvido na política americana”, disse à CNN. “Como um Papa americano, é provável que ele mantenha distância [de Thiel]. O Vaticano terá cuidado para não ser manipulado.”

Além de financiador da carreira política do vice-presidente JD Vance, Peter Thiel esteve na origem da Palantir, hoje envolvida em contratos com o Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA para acelerar a identificação e deportação de imigrantes — posições que contrastam com a ênfase no acolhimento e na compaixão defendida pelo pontífice da cidade escolhida para as suas palestras, o Papa Leão XIV.