A Jerónimo Martins está a “absorver o impacto” do aumento do preço dos combustíveis, o que deverá acontecer até, pelo menos, ao final de março. “Vamos ver até que ponto é possível ou não é possível aguentar”, declarou o presidente da dona do Pingo Doce, Pedro Soares dos Santos, numa conferência para apresentar os resultados de 2025 do grupo.

Segundo Soares dos Santos, o aumento do preço dos combustíveis é o “único impacto até agora que sentimos que já tem efeito prático nas contas, é imediato”. Poderá haver outros, como o preço dos fertilizantes, mas “temos de aguardar a evolução, porque nestas coisas muitas vezes só acontecem meses depois”. Os fertilizantes “já estão a ser comprados a um preço muito mais alto para a próxima safra e isso poderá vir a ter um impacto mais à frente”.

Pedro Soares dos Santos destaca que há uma diferença neste conflito face ao da Ucrânia: “a Ucrânia era, e é, o celeiro da Europa”. Mas o Oriente “é o celeiro dos fertilizantes e da indústria química”. No que toca a possíveis falhas de abastecimento, como se chegou a temer com a invasão russa da Ucrânia, Pedro Soares dos Santos descarta esse cenário. Mas o aumento dos preços é um cenário possível. “Pessoalmente penso que não terá grande impacto no abastecimento alimentar, a não ser na parte dos fertilizantes, que se aumentarem muito de preço vão puxar muito” pelo preço dos alimentos, antevê.

O presidente da Jerónimo Martins atira para “o final de março” uma avaliação sobre o possível reflexo do aumento dos combustíveis nos preços. “Até ao fim de março vamos ter de medir, depende de quanto tempo este conflito se vai manter. É a parte em que estou menos seguro, não tenho uma ideia clara do que se está a passar no campo, lemos de um lado e outro e não sabemos exatamente quem é que está a falar a verdade. Até ao fim de março vamos ter de saber muito bem onde estamos nessa matéria. Até lá, as companhias têm as suas próprias capacidades para continuar a controlar o preço do combustível”.

Pedro Soares dos Santos foi questionado sobre a hipótese de se voltar a aplicar o IVA Zero num cabaz de produtos essenciais, tal como aconteceu em 2023 num contexto de elevada inflação, e como já foi defendido por outras retalhistas, como a Mercadona. Para Soares dos Santos, a medida “tem mais impacto no consumidor do que connosco”. E mesmo para o consumidor, o líder da JM tem dúvidas. “Tem coisas muito boas e coisas más, premeia os que estão bem e os que não estão… não sei se é a medida mais equilibrada e mais justa para quem tem menos. Estou sempre dividido nesta matéria”, afirmou.

O líder da Jerónimo Martins sublinhou ainda que neste momento não há inflação na Polónia, há deflação. E em Portugal “é praticamente inexistente”. “O que se está a apresentar para a inflação tem sido mais suposição do que realidade”, considera.

Questionado ainda sobre a posição da JM sobre a discussão da reforma laboral e a proposta que está a ser negociada entre o Governo, os patrões e os sindicatos, Pedro Soares dos Santos escusou-se a comentar por “não conhecer a proposta”. “Não sei qual é o pacote laboral, quando tiver uma proposta concreta poderei opinar, mas só vejo soundbites na imprensa”.

Se tudo disparar, “as pessoas vão ter de fazer escolhas”

A Jerónimo Martins fechou o ano com uma subida dos lucros de quase 8% para 646 milhões de euros. A rentabilidade manteve-se “nos dois dígitos, e isso para mim é a parte mais importante”, realçou Soares dos Santos. O presidente da dona do Pingo Doce admite que manter as margens em 2026 será “extremamente desafiante”. “Se tudo o que está ao redor da vida de uma pessoa, como juros, combustíveis, vida social, dispara, as pessoas vão ter de fazer escolhas. E no nosso negócio manter volumes é fundamental para os negócios e para os fornecedores”. O “risco” de a margem baixar “existe não só na Polónia como em Portugal. Temos de aceitar na nossa cabeça que esse risco existe”, admitiu.

Na apresentação dos resultados de 2024, no ano passado, a Jerónimo Martins tinha antecipado a preparação de um plano estratégico que tinha como meta atingir os 50 mil milhões em vendas até 2030. Em 2025 as vendas foram de 36 mil milhões. Soares dos Santos diz que o objetivo se mantém, mas não quis desvendar como é que pretende lá chegar. “A ambição continua, o segredo é a alma do negócio, nunca irei abrir a boca sobre essa matéria. Até agora estou tranquilo, mas se houver grandes crises no mundo teremos de repensar” a meta, declarou apenas.

Questionado sobre possíveis aquisições para alcançar a meta, nomeadamente do negócio do Carrefour na Polónia através da Biedronka, Luís Araújo, CEO da insígnia da ‘joaninha’, não fechou a porta à hipótese. “Não temos muito por hábito comentar operações de aquisição, e no caso da Polónia, a Biedronka é líder destacada e as aquisições serão sempre um processo muito escrutinado”. Mas a empresa “olha para todos os movimentos do mercado com atenção”.

Depois de dez anos no país, Luís Araújo diz poder olhar para o mercado com “objetividade” e que “se pensar na perspetiva do povo polaco e do mercado, talvez gostasse que a Biedronka fosse uma solução para muitos dos ativos do Carrefour” naquele mercado. O que poderia acontecer pelo modelo de franchising, sugeriu. “Temos por hábito abrir o modelo de negócio a parceiros e pequenos investidores. Seríamos bons parceiros para estas pessoas e seria bom para o país e para o consumidor polaco”. Sobre se o grupo já está em conversões neste sentido, Luís Araújo não quis comentar.

As únicas aquisições recentes da Jerónimo Martins têm sido na área agroalimentar. A 1 de janeiro ficou concluída a transação da Luís Vicente, anunciada em outubro do ano passado. Uma “pequena operação”, segundo o responsável pela área agroalimentar do grupo, António Serrano, que não detalhou, no entanto, o valor do negócio.

“É uma empresa que faturava 60 milhões, o que neste negócio da fruta é muito residual. Já éramos sócios numa empresa de produção e o grupo (Luís Vicente) decidiu apostar na sua estratégia de África e alienou a pequena operação que tinha em Portugal. Acreditamos que temos condições para desenvolver este negócio nos próximos anos”, acrescentou António Serrano.

No ano que passou, a Jerónimo Martins continuou a “consolidar negócios no agroalimentar”. No final do ano entrou numa empresa norueguesa cotada que produz bacalhau em aquacultura, a Norcod, que tem um “conceito inovador” de “aquacultura do futuro”, porque “não vamos ter peixe selvagem suficiente e é uma das espécies mais pressionadas, e, como portugueses, entendemos a importância do bacalhau na nossa mesa”, constatou António Serrano. Foi esse o racional estratégico do investimento de 13,5 milhões de euros. A empresa está ainda “num estagio de desenvolvimento do bacalhau de aquacultura, que é uma investigação recente e tem menos anos que o salmão”.

Quanto ao salmão, onde o grupo tem uma participação na também norueguesa Andfjord Salmon, as primeiras vendas vão acontecer no terceiro trimestre do ano. A capacidade instalada de produção estará concluída em 2027.

O ano da Jerónimo Martins foi ainda marcado pela entrada do grupo na Eslováquia, o seu quarto mercado depois da Polónia, Portugal e Colômbia. Entrou com a marca Biedronka, e será com sinergias com a ‘joaninha’ que o projeto de expansão no país será desenvolvido. Para já “corre bem, terminámos o ano com 15 lojas, a estratégia de expansão é clara e a proposta de valor foi muito bem aceite pelo consumidor eslovaco”.

Implementar sistema de depósito e reembolso custou 15 milhões

A partir de 10 de abril entrará em vigor em Portugal o sistema de depósito e reembolso, que fará com que bebidas engarrafadas custem mais 10 cêntimos, que poderão ser recuperados se a embalagem for devolvida. O retalho é uma grande parte desta operação, e os supermercados estarão equipados com máquinas de venda inversa, onde as garrafas serão depositadas e o valor do depósito será devolvido ao consumidor. A Jerónimo Martins terá 450 máquinas em todo o país, revelou Isabel Ferreira Pinto, CEO do Pingo Doce. O investimento foi 15 milhões de euros. “Estamos prontos. Começámos agora a implementação do sistema, é uma operação nova e terá os seus desafios. Ainda bem que somos um grupo internacional, porque temos estado a aprender com a Polónia”, que teve de implementar o mesmo sistema em outubro.

Face à dimensão da operação da Biedronka, na Polónia o investimento foi mais avultado. “Não ultrapassará os 400 milhões de zloty”, que equivalem a cerca de 93 milhões de euros, adiantou Luís Araújo, CEO da Biedronka. O investimento tem três níveis: nas máquinas, no ajustamento dos processos tecnológicos e da infraestrutura, ou seja, em alguns casos pode ser necessário fazer ajustes nas lojas. Segundo Luís Araújo, na Polónia o consumidor é “muitíssimo racional” e desde a implementação do sistema a taxa de retorno “esta a subir rapidamente. Presumo que em Portugal também vá acontecer assim”.

Lucros da Jerónimo Martins sobem 7,9% em 2025 para 646 milhões de euros

(Notícia atualizada pela última vez às 14h30)