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A Jerónimo Martins, dona do Pingo Doce, comprou o grupo Luís Vicente de Torres Vedras.

Bloomberg via Getty Images

A Jerónimo Martins, dona do Pingo Doce, comprou o grupo Luís Vicente de Torres Vedras.

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Duas famílias milionárias e o império da fruta que muda de mãos. Como a Jerónimo Martins está a ganhar poder na cadeia alimentar

Se a concorrência aprovar, a dona do Pingo Doce vai passar a controlar a Luís Vicente. O negócio "não é apenas uma operação de crescimento", mas uma "consolidação de poder", dizem analistas.

Pedro Soares dos Santos já tinha antecipado que viria aí algo em grande. Na última conferência anual de apresentação dos resultados da Jerónimo Martins (JM), realizada em março, o presidente do grupo colocou a fasquia das vendas nos 50 mil milhões de euros em 2030, e admitiu que o negócio agroalimentar poderia ser fundamental para esta meta. Esta semana, foram conhecidas as primeiras sementes da estratégia, ao saber-se que a dona do Pingo Doce chegou a acordo para comprar a Luís Vicente, uma das maiores empresas nacionais de produção e distribuição de fruta. Que passa, assim, das mãos de uma grande fortuna familiar para as de outra ainda maior.

Além de vastos pomares em Portugal, o negócio inclui todas as áreas em que a Luís Vicente opera, nomeadamente distribuição, logística e indústria. “A transação inclui também a Nuvi Industrial, responsável pela produção das gamas Frubis e Frubis Fresh”, revela fonte oficial da NuviGroup ao Observador. Além disso, “contempla todos os ativos da Luís Vicente e as suas participações noutras empresas associadas às operações de distribuição e logística”.

Só não está incluída uma fazenda localizada em Angola, com cerca de 5.000 hectares. “O NuviGroup mantém a sua propriedade e está atualmente à procura de um parceiro investidor estratégico para potenciar o desenvolvimento agrícola do projeto”, refere o grupo.

A atual equipa de gestão, liderada pelo CEO David Mota, que não é da família, vai manter-se. “A preservação de todos os postos de trabalho e a continuidade das equipas de gestão foram condições essenciais para o NuviGroup ao longo de todo o processo. Essa salvaguarda foi um ponto de honra nas negociações”, ressalva a mesma fonte do grupo.

A operação, que ainda está dependente da luz verde da Autoridade da Concorrência, abrange 100% do capital da Luís Vicente. O que significa que a família sai do capital da empresa fundada por Luís Vicente na década de 1960 na região do Oeste. O Nuvigroup detinha 75,24% da empresa, que tinha o sucessor do fundador, Luís Manuel Vicente, e outros membros da família, como sócios minoritários. Os valores do negócio não foram revelados. Em 2023, segundo as contas mais recentes do grupo consultadas pelo Observador na plataforma Insight View, a Luís Vicente faturou 53,6 milhões de euros e teve lucros de 1,13 milhões. 

Não sendo conhecidos os valores da operação, não é possível fazer “simulações e projeções sobre o eventual impacto” do negócio, começa por sublinha João Queirós, head of trading do Banco Carregosa, ao Observador. Mas é possível perceber que a estratégia a Jerónimo Martins passa, cada vez mais, pelo controlo da produção.

"A preservação de todos os postos de trabalho e a continuidade das equipas de gestão foram condições essenciais para o NuviGroup ao longo de todo o processo. Essa salvaguarda foi um ponto de honra nas negociações".
Fonte oficial do NuviGroup

“A estratégia da JM tem variado entre expansão vertical e foco no core business da distribuição, ajustando-se às circunstâncias setoriais. A aquisição da unidade hortofrutícola Luís Vicente é um exemplo recente de verticalização, reforçando o controlo da produção”, destaca o analista. No passado, lembra João Queirós, “a JM detinha participação numa joint venture com a Unilever (Unilever Jerónimo Martins) para produtos alimentares industriais (gelados, óleos, margarinas), mas em 2016 vendeu essa operação industrial à sociedade controladora, para se concentrar no retalho e distribuição”. Paralelamente, “fez investimentos em aquacultura (peixe) e na cadeia agrícola (leite, frutas e vegetais) como parte da sua unidade agro”.

Para o especialista, “esta estratégia híbrida, crescer nas operações de origem (produção) enquanto desinvestia em verticais que destoavam do seu núcleo (ou core), evidencia maturidade” por parte da dona do Pingo Doce.

Dos robalos ao maior laranjal biológico, a estratégia da JM rumo aos 50 mil milhões

Os investimentos da JM no agroalimentar começaram há 11 anos. Na primeira década, a Jerónimo Martins Agroalimentar (JMA), liderada pelo antigo ministro da Agricultura António Serrano, investiu 230 milhões de euros nesta área de negócio, tendo hoje, no total, 10 empresas participadas. À aposta nos laticínios seguiu-se a agropecuária, a aquacultura e as frutas e vegetais, com unidades de negócio e participações em Portugal, em Marrocos e na Noruega. Desde 2020 que vende para outros mercados além do português. No ano passado, faturou pouco mais de quatro milhões de euros, não em vendas mas em prestação de serviços.

Nos laticínios, a JM (que entrou no ano passado no capital do Observador através do Recheio) comprou em 2015 a unidade industrial da Serraleite, em Portalegre, à qual juntou uma nova fábrica, de onde saem hoje cerca de 100 milhões de litros de leite por ano. Para cada área de negócio, o grupo desenvolve uma marca. A dos laticínios é a Terra Alegre.

Na agropecuária, a produção está centrada nos bovinos e borregos, através das marcas Best Farmer e Ovinos da Tapada, mas também inclui a produção de cereais e pastagens, para a alimentação dos animais. No último ano, nesta área, o grupo anunciou um aumento da “capacidade de engorda em Monte de Trigo”, o início da operação da nova unidade de Pernes e o arranque da operação numa nova vacaria automatizada.

O presidente da Jerónimo Martins, Pedro Soares dos Santos, em declarações durante uma entrevista à agência Lusa, em Lisboa, 07 de março de 2024. O presidente da Jerónimo Martins considera que a distribuição em Portugal vai estar "totalmente focada na restauração" em 10 anos e que o grupo vai crescer no agroalimentar, um "novo braço de negócio". (ACOMPANHA TEXTO DA LUSA DO DIA 17 DE MARÇO DE 2024). MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

Pedro Soares dos Santos assumiu o objetivo de chegar a 2030 com vendas de 50 mil milhões de euros.

MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

A área da aquacultura começou a desenvolver-se em Sines em 2016 e chegou entretanto à Noruega e a Marrocos. O grupo criou a Seaculture para produzir robalo no Algarve, e em 2021 garantiu as licenças necessárias para construir de raiz unidades de aquacultura offshore onde cria dourada e robalo. A produção de dourada estende-se à Madeira, onde a JMA trabalha com uma empresa local. No mesmo ano, unidade agroalimentar da JM comprou a maioria de uma empresa em Marrocos para produzir robalo e dourada no mar Mediterrâneo, mas que ainda não terá “expressão relevante” no grupo.

Nos últimos dois anos o grupo foi ainda aumentando a participação numa empresa norueguesa de produção de salmão, a Andfjord Salmon. “No decurso do primeiro semestre de 2025 ocorreram dois aumentos de capital da subsidiária Andfjord Salmon Group, AS (Andfjord), tendo o Grupo, através da subsidiária Jerónimo Martins – Agro-Alimentar, S.A. (JMAA), adquirido um total de 14,6 milhões de ações pelo montante global de 45 milhões de euros. A 30 de junho de 2025 a participação do Grupo na Andfjord ascende a 35,11%”, refere o relatório e contas do primeiro semestre. A operação desta unidade deve arrancar no final deste ano.

A última grande aposta foi, precisamente, nas frutas e legumes. E o grupo Luís Vicente já estava na órbita da Jerónimo Martins mesmo antes da aquisição. Em 2023, os dois grupos uniram forças para criar a meias a Supreme Fruits para “produzir e processar mandarina tango e frutos de caroço (pêssegos, nectarinas e ameixas)”. A produção está centrada em unidades que já pertenciam à Luís Vicente, e que foram transferidas para a nova empresa. Nomeadamente a Herdade de Penique, em Ferreira do Alentejo, a unidade de processamento da Abrunhoeste, em Torres Vedras, e a unidade de processamento do Sobral, na Lourinhã. O investimento inicial da JMA na joint venture foi de sete milhões de euros. No ano passado, reforçou a participação na Supreme Fruits para 80%. Com a aquisição da Luís Vicente passa, assim, a deter 100% da empresa.

"A compra da Luís Vicente não é apenas uma operação de crescimento, mas uma consolidação de poder estrutural na cadeia alimentar". 
João Queirós, Head of Trading do Banco Carregosa

“Ao adquirir Luís Vicente, a JM adota uma postura ofensiva: não só permite garantir fornecimento próprio e robustez da cadeia de distribuição, tema crescentemente relevante, mas pode também impor padrões de qualidade, eficiência logística e gerir melhor riscos externos (como variações de custos agrícolas). A exigência poderá passar pelo sucesso na integração operacional, controlo de custos e obtenção da aprovação da autoridade concorrencial”, denota João Queirós.

Para o analista do Banco Carregosa, “a compra da Luís Vicente não é apenas uma operação de crescimento, mas uma consolidação de poder estrutural na cadeia alimentar. A Jerónimo Martins deixa de depender exclusivamente de fornecedores externos e passa a controlar de forma mais ampla o ciclo produtivo, posicionando-se com vantagens competitivas de longo prazo num setor cada vez mais condicionado por custos, sustentabilidade e segurança alimentar”.

A JMA tem ainda 100% de outras duas empresas de produção de fruta. Já este ano, passou de uma quota de 50% para 100% da Tastyfruits, com a qual o grupo pretende ser dono do “maior laranjal biológico em Portugal” já a partir de 2025. A par desta, a JMA passou a deter também 100% de empresa Outro Chão, que começou por ser uma parceria com o antigo dono da herdade do Vale da Rosa, António Silvestre Ferreira, para a produção de uva biológica sem grainha. Em 2024, a JMA adquiriu os 20% do parceiro, “que precisou focar-se no seu negócio core: a Vale da Rosa”. A Vale da Rosa foi, entretanto, vendida a investidores espanhóis, após uma “situação difícil” que a empresa atribuiu, em parte, ao facto de ter perdido a Jerónimo Martins como cliente.

Com a Outro Chão, a JMA lançou entretanto a marca de uvas sem grainha “hey,vita!”, para a qual desenvolveu um “trabalho extenso de divulgação” e que no ano passado, além de Portugal, foi comercializada na Polónia, onde a JM tem, aliás, a maior fatia do seu negócio, com os supermercados Biedronka.

Para cada uma das marcas, a JMA criou um website, formou a equipa comercial “e realizou iniciativas destinadas a abrir canais de venda com o objetivo de promover os seus produtos no mercado nacional e internacional, permitindo aumentar a sua atividade e diversificar os clientes em 2025”.

O objetivo, assumido pelo grupo nos sucessivos relatórios e contas, é “salvaguardar a capacidade de as Companhias do Grupo se abastecerem de alguns produtos estratégicos e criar diferenciação de qualidade”. No ano passado, no rescaldo do primeiro embate da guerra na Ucrânia e do pico da inflação alimentar, tanto Pedro Soares dos Santos como António Serrano admitiam que podia ser necessário procurar investimentos “para proteger a cadeia de abastecimento”. “O país precisa que grupos como a JM continuem a fazer este trabalho, precisamos de agricultura viável”, afirmou António Serrano na apresentação dos resultados de 2023 aos jornalistas.

Já no contacto mais recente entre a administração da dona do Pingo Doce e a imprensa, que teve lugar em março deste ano, o grupo deixou ainda mais claro que a área agroalimentar vai ser, cada vez mais, uma prioridade. E uma peça fundamental para a meta de 50 mil milhões de euros em receitas (em 2024 foram de 33,5 mil milhões).

Jerónimo Martins prepara plano estratégico para chegar a 2030 com vendas de 50 mil milhões. Conselho de administração vai mudar

“Construímos know how e uma ideia do impacto que pode ter para o grupo e estudámos muito como se desenvolve o negócio agroalimentar num mundo que está muito competitivo e onde a tecnologia joga um papel importante”, afirmou, em março deste ano, Pedro Soares dos Santos, admitindo que o grupo estava a “pensar no que pretende fazer do agro para o seu futuro”. Não abriu o jogo sobre possíveis aquisições, remetendo para a apresentação, ainda este ano, de um plano estratégico até 2030.

“Tivemos uma década de grande crescimento e grande consolidação, agora temos de olhar para os próximos cinco anos. Esse vai ser o grande desafio desta direção executiva. Temos um número da cabeça, temos uma ambição que queremos atingir. Queremos chegar a 2030 ou 2029 a 50 mil milhões. Temos de pensar no caminho, o que as operações atuais podem valer e o que tem de ser adquirido de novo para fazer parte do nosso portefólio”, comentou. Como? “O segredo é a alma do negócio”.

[Apesar da euforia em torno de Freitas, Soares recupera. O debate com Zenha será decisivo. Quando acabar, nunca mais serão amigos. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador sobre as Presidenciais de 1986. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir o primeiro episódio aqui e o segundo aqui]

O “rei da fruta do Oeste” e uma fortuna que encolheu

É, segundo o próprio grupo, um dos principais operadores do país na produção e distribuição de frutas e legumes. Em vendas, a Luís Vicente é a 12.ª maior do seu setor, segundo os dados (de 2023) consultados pelo Observador. Fatura mais de 50 milhões de euros por ano. Pertencia, até agora, a uma das 50 famílias mais ricas do país. A venda à Jerónimo Martins vai alterar apenas a posição que os seus donos ocupam no ranking da Forbes.

A lista mais recente das maiores fortunas de Portugal, feita no final do ano passado, coloca Luís Vicente, a quem chama de “rei da fruta do Oeste”, na 49.ª posição, com um património estimado em 314 milhões de euros, proveniente dos negócios em Portugal e em Angola. Em 2018 ocupava a 8.ª posição, com 822 milhões de euros. No mesmo ranking, a família Soares dos Santos surge na terceira posição, com uma fortuna avaliada em 2.942 milhões de euros.

A história da Luís Vicente começa em 1967 em Torres Vedras. Foi nesta região do Oeste que o empresário que dá nome ao grupo começou a produzir e a distribuir pera rocha. O primeiro armazém foi construído já nos anos 70, mas foi na década de 80 que começou a expansão para aquele que viria a ser o grupo que a Jerónimo Martins agora adquiriu. A empresa Luís Vicente propriamente dita é constituída em 1987, ano em que começa a distribuir fruta tropical. É Luís Manuel Vicente, filho do fundador, que dá continuidade ao negócio.

O grupo vendido à Jerónimo Martins produz em nome próprio em quatro mercados: em Portugal, a aposta é na pera rocha, maçãs, pêssegos, ameixas, nectarinas, dióspiros e marmelos; na Costa Rica, que tem “as melhores condições do mundo para a produção de abacaxi”, o grupo tem áreas de produção deste fruto em parceria com produtores locais; no Brasil, também com parcerias em vários estados, concentra-se nas frutas tropicais, nomeadamente manga, papaia, mamão e lima. Tem ainda uma herdade em Angola, que fica de fora do negócio com a JM. Tudo o resto passa para a família Soares dos Santos.

Tangerinas

A JM quer ter o "maior laranjal biológico em Portugal" com a Tastyfruits.

Anadolu via Getty Images

As marcas mais reconhecidas da Luís Vicente (LV) são a Plump, para a fruta tropical, e a Maria, para a fruta de origem portuguesa. A par destes investimentos, a Luís Vicente diz ter parcerias com produtores em mais de 20 países. Tem, no total, sete empresas participadas, a maior parte delas na área da logística e distribuição internacional, áreas que serão novidade no portefólio da Jerónimo Martins.

Uma integração que, para João Queirós, “permite também reforçar a eficiência operacional e logística, aproveitando as infraestruturas já existentes do grupo em Portugal, Polónia e Colômbia. A produção hortofrutícola poderá ser articulada com os canais de distribuição com as insígnias do Pingo Doce, Recheio e Biedronka, assegurando uma cadeia mais curta e eficiente, com ganhos em frescura, custos e margens”.

O grupo LV tem duas empresas de distribuição em Portugal continental, Açores e Madeira, um centro de distribuição em Luanda, atividade em Espanha, a partir do mercado de Madrid, onde “cobre os principais mercados em Espanha, fazendo a ligação desde a produção no Brasil até aos consumidores”, e uma empresa na Holanda, onde faz “a ligação entre as origens onde o grupo tem presença até aos mais variados mercados como a Alemanha, França, Escandinávia, Polónia e os mais longínquos como o da Rússia”.

Neste sentido, a Luís Vicente “pode ainda comportar um conhecimento técnico relevante que a JM poderá replicar noutros mercados, nomeadamente no Brasil, onde o grupo mantém interesse estratégico e uma estrutura logística madura através da Jerónimo Martins Agroalimentar”.

Além de que, do ponto de vista comercial, “esta operação abre também novas perspetivas exportadoras, permitindo à JM posicionar-se como fornecedora de referência de produtos frescos para mercados europeus e lusófonos, reforçando a reputação de qualidade e rastreabilidade das suas marcas. Adicionalmente, a aposta no segmento agroalimentar complementa outras iniciativas da empresa, como os investimentos anteriores em aquacultura e produção de azeite, reforçando o compromisso do grupo com uma expansão sustentável e integrada”, ressalva o responsável de trading do Carregosa.

A par da distribuição, a Luís Vicente tem ainda investimentos na indústria, também incluídos no “pacote” vendido à dona do Pingo Doce. O grupo produz fruta e legumes desidratados, sendo a Frubis a marca mais conhecida.

Apesar do longo historial familiar, a Luís Vicente foi posta à venda no início de 2025. Segundo avançou o Jornal Económico no final de março, o grupo mandatou a consultora PwC para receber propostas de compra. Falava-se então numa abertura de capital, não necessariamente numa venda de 100% apesar de não ser uma hipótese excluída, e uma fonte próxima do processo, citada pelo jornal, justificava a iniciativa do Nuvigroup, a holding que controlava a Luís Vicente até agora, com o objetivo de reforçar a presença internacional do grupo e acelerar a diversificação da produção. Procurava-se, para isso, um parceiro com conhecimento operacional e uma “presença relevante” no setor agroalimentar, e não um fundo de investimento, por exemplo. A parceria já existente com a Jerónimo Martins terá sido determinante.

O grupo liderado por Soares dos Santos “ganha” uma empresa que em 2023 tinha capitais próprios positivos de 4,42 milhões de euros, um ativo total na casa dos 38 milhões, uma dívida de curto prazo de 27,2 milhões (de um total de 33,8 milhões) e 162 funcionários.

Já o grupo vendedor, o Nuvigroup, também com origem e gerida pela família Vicente, ganha tempo para se dedicar a outros negócios, nomeadamente em Angola. No comunicado em que revelou a venda da Luís Vicente, o grupo adiantou que vai focar-se na expansão da indústria de bebidas, onde detém, em Angola, a Refriango, que produz 16 marcas próprias de bebidas, além de representar em Angola marcas como a Coca-Cola, o Super Bock Group e a Moët Hennessy.

A outra área “onde detém maior vantagem competitiva e potencial de crescimento” é o retalho alimentar. O grupo “prepara a duplicação da sua rede de retalho alimentar”, os supermercados Arreiou, de 200 para 400 lojas, também em Angola. “Estamos a preparar a empresa para um novo ciclo, com investimentos que consolidam a nossa presença em mercados estratégicos e asseguram um desenvolvimento sustentável no longo prazo”, afirmava Diogo Caldas, administrador executivo do Nuvigroup, na mesma nota.

Nem todos os investimentos do Nuvigroup deram, no entanto, frutos. A família Vicente apostou, em 2013 em Angola, na Kinda Home, uma rede de lojas de mobiliário e decoração que chegou em 2018 a Portugal. A primeira loja abriu no Porto, e terá representado um investimento de 20 milhões de euros. Ainda abriu lojas em Oeiras e Lisboa, tendo estado previsto um espaço na Amadora, na antiga fábrica dos Cabos d’Ávila, que não chegou a abrir. No início de 2024, o grupo anunciou o encerramento das operações em Portugal e avançou para um despedimento coletivo.

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