South Pars é o maior campo petrolífero do Irão e uma infraestrutura crítica na indústria energética iraniana. E foi também o alvo de um ataque israelita esta quarta-feira. Apesar de relatos na imprensa norte-americana darem conta de um ataque coordenado ente Washington e Telavive, Donald Trump distanciou-se daquilo que classificou como “um ataque violento” de Israel.
Já o Irão respondeu “na mesma moeda”: com ataques contra a infraestrutura energética dos países do Golfo. Um ataque com mísseis balísticos contra o complexo de gás natural liquefeito de Ras Laffan, no Qatar, resultou em múltiplos incêndios e “danos extensos”. A resposta iraniana motivou um ultimato de Trump, que ameaçou “rebentar em grande escala” com South Pars se as infraestruturas qatari forem novamente alvo de ataques. Também a Arábia Saudita deixou avisos, tendo o ministro dos Negócios Estrangeiros afirmado que a “paciência não é ilimitada” e admitindo uma resposta de Riade contra o Irão.
Apesar do pendor cada vez mais económico dos alvos, a campanha israelo-americana contra alvos militares mantém-se. Depois da morte de Ali Larijani, Israel matou esta quarta-feira o ministro dos Serviços de Informações do Irão, enquanto no Líbano e no Iraque os ataques voltaram a visar os grupos e milícias armadas apoiantes do Irão.
Pode recordar os acontecimentos de terça-feira aqui.
Estes foram os desenvolvimentos na guerra no Médio Oriente ao longo desta quarta-feira, dia 18 de março:
No Irão:
- Israel atacou o campo petrolífero de South Pars, a maior infraestrutura da indústria petrolífera iraniana, na província de Bushehr, no sul do Irão. Donald Trump distanciou-se do ataque, que considerou uma “reação violenta” de Israel.
- O ministro das Informações e Segurança do Irão, Esmail Khatib, foi morto num ataque aéreo israelita. A sua morte foi avançada pelo Exército de Israel e confirmada pela imprensa estatal iraniana. Khatib é o quarto membro dos onze membros do Conselho Supremo de Segurança Nacional a ser morto na guerra.
- Israel atacou vários alvos do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, das milícias Basij e do Comando das autoridades policiais nas províncias de Teerão, Alborz e Lorestan. Os ataques terão visado ainda patrulhas que tentavam impedir as celebrações do ano novo persa, relatou um responsável israelita.
- Os ataques israelitas visaram ainda cinco navios da Marinha iraniana no Mar Cáspio. É a primeira vez que os ataques israelo-americanos visam forças no Mar Cáspio.
- O mapa dos ataques israelitas reflete uma expansão geográfica da ofensiva militar — pela primeira vez, as forças de Israel atacaram alvos no norte do Irão.
- Outros três navios iranianos ficaram danificados no porto de Bandar Abbas, atacado repetidas vezes ao longo da guerra. Imagens de satélite publicadas esta quarta-feira mostram que um dos navios destruído é o “Curdistão” da Marinha da Guarda Revolucionária, que só tinha sido inaugurado em novembro do ano passado.
- Imagens de satélite e de fonte aberta confirmaram ainda danos dos ataques israelo-americanos na base aérea de Fath, da Guarda Revolucionária, e no complexo industrial de Pasargad, em Teerão, onde estão indústrias sancionadas pelo Ocidente pela produção de mísseis.
- Mojtaba Khamenei reagiu à morte de Ali Larijani, no dia em que se realizaram as cerimónias fúnebres, e declarou que “os assassinos criminosos dos mártires terão de pagar”. Esta foi a segunda declaração pública de Khamenei desde que foi escolhido como Líder Supremo do Irão.
- O ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Aragchi, instou os vizinhos do Golfo Pérsico a traçar um novo protocolo para a passagem no Estreito de Ormuz depois de o conflito terminar, de forma a preservar os interesses regionais e iranianos.
- O comandante da Marinha da Guarda Revolucionária, Alireza Tangsiri, emitiu um alerta de evacuação para as infraestruturas petrolíferas do Golfo com ligações aos Estados Unidos, que definiu como próximos alvos do regime iraniano, depois do ataque a South Pars.
- O Irão deteve dezenas de pessoas acusadas de espionagem contra o regime. A campanha de repressão que já começou na terça-feira manteve-se ao longo de quarta-feira com rusgas, detenções e apreensões de centenas de satélites Starlink, para bloquear o acesso à internet.
- A contabilização mais recente do Ministério da Saúde do Irão dá conta de 1.444 pessoas mortas e 18.551 feridas nos ataques israelo-americanos.
Em Israel e no Líbano:
- Um casal israelita foi morto num ataque com um míssil iraniano durante a manhã de quarta-feira em Ramat Gan, no centro de Israel.
- O Irão voltou a utilizar munições de fragmentação em ataques contra Israel. Para além das duas vítimas mortais, os ataques com mísseis balísticos iranianos causaram um ferido no centro de Israel, danificaram a estação de comboios central de Telavive e atingiram o aeroporto de Telavive, destruindo três aviões privados.
- O Hezbollah lançou dezenas de ataques com mísseis e drones contra cidades no norte de Israel e posições do Exército israelita no sul do Líbano e reclamou a destruição de seis tanques. As forças israelitas dizem ter intercetado “mais de metade” dos ataques.
- O Exército israelita atingiu várias infraestruturas em Beirute e no sul do Líbano, na campanha contra o Hezbollah, e matou pelo três pessoas que acusou de terem ligações ao grupo armado libanês.
- Os ataques destruíram ainda duas pontes sobre o rio Litani, classificadas pelo ministro da Defesa israelita, Israel Katz, como “pontos de passagem essenciais para a organização terrorista Hezbollah”.
- Israel emitiu novos alertas de evacuação para o sul do Líbano, forçando os habitantes da região a deslocar-se para norte do rio Zahrani, a mais de 50 quilómetros da fronteira entre o Líbano e Israel. São os maiores alertas de evacuação emitidos por Israel desde a guerra de 2006.
- Pelo menos 968 pessoas foram mortas por ataques israelitas no Líbano, segundo os números mais recentes do Ministério da Saúde libanês. Entre as vítimas mortais contam-se 116 crianças e 77 crianças, às quais se somam milhares de feridos e mais de um milhão de deslocados.
No Golfo:
- No Qatar, um míssil balístico atingiu e causou “danos extensos” no complexo industrial de gás natural liquefeito de Ras Laffan, segundo a companhia estatal petrolífera QatarEnergy.
- O Ministério da Defesa da Arábia Saudita relatou a interceção de sete mísseis balísticos — quatro dos quais sobre a capital Riade — e 19 drones. Os fragmentos de um dos mísseis balísticos caíram nas imediações da base aérea Prince Sultan, enquanto um dos drones foi intercetado na aproximação a uma instalação de gás natural.
- Nos Emirados Árabes Unidos (EAU), foram intercetados 13 mísseis balísticos e 27 drones, relatou o Ministério da Defesa.
- Um míssil atingiu as imediações da base aérea Al Minhad, nos EAU, onde funciona o comando de operações australiano no Médio Oriente, danificando uma infraestrutura médica e habitacional da base, mas sem causar vítimas, relatou o primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese.
- No Kuwait, foram intercetados quatro mísseis balísticos e 20 drones. Outros três drones caíram em áreas abertas.
- As autoridades do Kuwait continuam a fazer detenções no âmbito de um alegado plano para sabotagem das infraestruturas energéticas do país, atribuído ao Hezbollah. Esta quarta-feira, foram detidas mais dez cidadãos kuwaitianos.
- Um navio foi atingido por um “projétil desconhecido” no Golfo de Omã, tendo começado um incêndio a bordo.
- A Arábia Saudita organizou uma reunião diplomática para discutir a estabilidade regional que contou com a presença dos ministros dos Negócios Estrangeiros da Turquia, dos Emirados Arábes Unidos, da Jordânia, do Qatar e da Síria, entre outros.
- O ministro dos Negócios Estrangeiros saudita, Faisal bin Farhan, reservou a Riade “o direito de tomar ações militares se necessário”, em resposta aos ataques iranianos. “A paciência que temos exibido não é ilimitada”, declarou numa conferência de imprensa no final do encontro com os seus homólogos.
- O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, anunciou que já estão no Médio Oriente mais de 200 especialistas ucranianos para ajudar os países do Golfo a defenderem-se dos ataques com drones iranianos.
- O Kuwait anunciou o cancelamento das celebrações públicas do Eid al-Fitr na Grande Mesquita, devido às “circunstâncias atuais”. O Eid começa esta sexta-feira e é a celebração muçulmana que assinala o fim do mês sagrado do Ramadão.
No resto do mundo:
- No Iraque, pelo menos três combatentes das Forças de Mobilização Popular (PMF) e outros três combatentes do Hezbollah iraquiano foram mortos em ataques israelo-americanos.
- Os Estados Unidos e Israel lançaram novos ataques contra infraestruturas militares destas duas e de outras milícias iraquianas apoiantes do regime iraniano.
- As milícias iraquianas atacaram novamente as posições norte-americanas no aeroporto internacional de Erbil, mas todos os drones foram intercetados.
- As representações diplomáticas da Arábia Saudita e do Qatar vão abandonar o Iraque depois dos repetidos ataques contra o bairro diplomático de Bagdade, avançaram fontes da imprensa iraquiana.
- Apesar de se ter distanciado do ataque israelita a South Pars, Donald Trump condenou a resposta iraniana contra a infraestrutura energética do Golfo e deixou novas ameaças, dizendo que se as infraestruturas do Qatar forem novamente atacadas, os EUA vão “rebentar em grande escala com o campo petrolífero de South Pars na sua totalidade”.
- O secretário-geral da NATO disse que os aliados estão a trabalhar para reabrir o Estreito de Ormuz ao tráfego comercial. “Os aliados estão a trabalhar em conjunto, a discutir como fazer isso, para encontrar uma forma de avançar”, declarou Mark Rutte, de visita à Noruega.
- Apesar das discussões, o Reino Unido afirmou que estas ainda estão numa fase inicial e que ainda não há qualquer plano claro sobre como o Estreito de Ormuz poderá ser reaberto.
- A diretora norte-americana dos Serviços de Informações, Tulsi Gabbard, foi acusada de ter alterado o seu testemunho sobre o conflito perante o Congresso. A sua declaração escrita dava conta de algumas tentativas do Irão de reconstruir o seu programa nuclear depois dos ataques de junho passado, mas não menciona que Teerão estivesse próximo de obter uma arma nuclear, como a administração tem vindo a dizer para justificar a presente guerra. Também disse que a classificação da ameaça iraniana como “iminente” é uma avaliação política e não dos serviços secretos.
- O ataque de Israel ao campo petrolífero de South Pars causou um novo aumento no preço do petróleo, que ultrapassou os 110 dólares por barril.
- A reserva federal norte-americana manteve as taxas de juro inalteradas, destacando que as implicações da guerra na “economia dos EUA são incertas”. Mas a Fed garantiu estar a prestar atenção ao desenrolar da situação e aos riscos que podem vir a surgir.