Nos últimos 10 anos, morreram 54 jovens e crianças que pediram asilo no Reino Unido, sendo que 44 destes óbitos ocorreram desde 2020. Os dados recolhidos pelo Da’aro Youth Project, uma instituição de apoio a jovens requerentes de asilo, citados pelo The Guardian, indicam ainda que a principal causa de morte foi suicídio (31).

Outras sete mortes de jovens que entraram no sistema de acolhimento entre 2015 e 2024 foram em consequência de homicídio, oito causadas por acidentes fatais, seis por doença e duas por “causas desconhecidas”. 2024 foi o pior ano, com 14 mortes, das quais metade foram por suicídio.

Ainda de acordo com o mesmo relatório, seis dos suicídios envolveram menores de 18 anos, 16 foram de jovens com idades entre os 18 e os 20 anos e nove foram de jovens entre os 20 e os 24 anos.

“Esta é a primeira vez que estes dados são compilados – consideramo-los extremamente chocantes. Jovens não acompanhados, que foram forçados a fugir das suas casas e vieram para o Reino Unido em busca de segurança e refúgio, estão a morrer por suicídio em grande número”, declarou Sarah Robson, diretora do Da’aro Youth Project.

Entre as 31 uma mortes por suicídio estão as de quatro jovens da Eritreia, país do este africano:  Alexander Tekle, Osman Ahmed Nur, Mulubrhane Medhane Kfleyosus e Filmon Yemane morreram entre novembro de 2017 e fevereiro de 2019. Outro dos casos é o de Amir Safi. O afegão, que dizia ter 16 anos, viu o Estado britânico classificá-lo como adulto. Morreu em 2024, depois de se tornar “muito quieto e retraído”, revelou um inquérito citado pelo mesmo jornal, que não especifica qual foi a causa da sua morte.

Os números podem, porém, estar incompletos. Quando um jovem chega ao Reino Unido dizendo ser menor de idade, deve ser entregue aos serviços sociais das autoridades locais de proteção de crianças e jovens. No entanto, segundo o The Guardian, o Ministério da Administração Interna (MAI) do Reino Unido contesta frequentemente essas idades. Se o ministério decidir que o jovem é, afinal, adulto, a pessoa sob avaliação da tutela não entra no sistema de proteção a crianças e jovens. Ou seja, se um jovem foi classificado como adulto e morreu pode não aparecer nos dados das autoridades locais para menores, mesmo que o fosse efetivamente. Como o relatório da Da’aro Youth Project foi compilado através de pedidos a centros sociais, serviços de saúde e departamentos de serviços infantis, os números obtidos referem-se apenas a jovens que estavam oficialmente sob o cuidado dessas instituições.

As limitações do relatório devem-se em muito à indisponibilidade do MAI em fornecer dados sobre ao tema. A alegada falta de transparência levou a que, desde 2024, o Gabinete do Comissário de Informação emitisse cinco notificações a concluir que o ministério reteve informações de forma indevida. O MAI está a contestar quatro das cinco decisões deste gabinete.

“Estes jovens têm sido repetidamente maltratados pelos Governos — com crianças a serem tratadas como adultos pelo Ministério da Administração Interna — e por um sistema de asilo que privilegia a dissuasão em detrimento do acolhimento”, acusou ainda Sarah Robson.

O relatório foi enviado para o Governo britânico, com uma nota que dava conta da preocupação da instituição com “a falta de transparência do governo em relação a estas mortes”, frisando que “todas as crianças e jovens são importantes, independentemente de seu estatuto migratório, nacionalidade ou etnia”.

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