Quando o líder do PS estava prestes a sair do encontro de uma hora com o Presidente da República, entraram vários membros do Governo pelo Palácio de Belém adentro para a tomada de posse do novo secretário de Estado da Saúde. O próprio primeiro-ministro quase se cruzou com José Luís Carneiro à frente das câmeras e quase o ouviu disparar, ali em direto, sobre o seu “desgoverno” — e a pressionar repostas às vítimas dos temporais deste inverno.
Mas Carneiro parece não querer aparecer às costas de António José Seguro — que fez uma Presidência Aberta de cinco dias pelo país atingindo pelas tempestades do início do ano — nesta pressão sobre o Governo. Até chegou mesmo a destoar da exigência do Presidente da República sobre a necessidade de ser conhecido o relatório que explique o que se passou nesse período e o que falhou no terreno.
Questionado várias vezes sobre os jornalistas a propósito dessa prioridade de Seguro, Carneiro preferiu pôr o foco na necessidade de respostas e disparou mesmo, a dada altura, que “o importante agora é fazer chegar os recursos financeiros às autarquias, às famílias, aos trabalhadores e às empresas. Vamos ser honestos, que é aquilo que as pessoas esperam de nós: mais do que de relatórios, as pessoas querem respostas.”
Durante os últimos dias de visita aos locais mais afetados pelas tempestades, Seguro tinha dito que não podia “continuar a passar o tempo sem haver um documento que explique verdadeiramente o que é que se passou nesses dias finais de janeiro e também nos dias iniciais de fevereiro.” Carneiro garante que acompanha “as preocupações do Presidente”, mas coloca a prioridade noutro ponto, que não aquele em que Seguro se focou nos últimos dias, mas o mesmo peso sobre o Governo.
“O importante agora é fazer chegar os recursos financeiros às autarquias, às famílias, aos trabalhadores e às empresas”, disse Carneiro quando confrontado pelos jornalistas com a questão do relatório. “O Governo é perito a apresentar planos de ação”, disse ainda para logo seguir criticar: “Mas o que é certo é que não há respostas para as questões concretas das pessoas.” E, na sua leitura, isso acontece “não por falta de relatórios, nem por falta de diagnósticos, nem por falta de planos de ação. É por falta de capacidade”, concluiu.
Na audiência esteve acompanhado pelo presidente do partido reeleito no Congresso do final de março, Carlos César, e saiu a garantir que “foi uma reunião muito construtiva” sobre o “complexo” quadro internacional e o que ele afeta os portugueses, sobretudo com o aumento dos preços da alimentação, combustíveis e energia.
À saída da reunião com Seguro, Carneiro queixou-se de se ter disponibilizado para apoiar o Governo, mas que este “teima em não ouvir o PS” nas medidas para a redução dos custo de vida “quer com os combustíveis, quer com a eletricidade, quer com o gás e, particularmente, nos setores da produção agroalimentar.”
Também disse que este é um Governo “sem rumo, em que verdadeiramente cada ministério parece por vezes um governo e, em alguns casos, até um certo desgoverno”. Ainda assim, José Luís Carneiro acabou por afirmar que foi a Belém dizer ao Presidente que o PS tem uma “vontade inquebrantável de colocar o interesse do país acima dos interesses partidários e de servir as portuguesas e os portugueses”.
O PS reafirma a “disponibilidade para cooperar nas áreas vitais à vida nacional”, disse Carneiro detalhando quais são: “Em primeiro lugar, as áreas da defesa e da segurança, as áreas da proteção civil, porque elas são vitais para a vida em comunidade e o desenvolvimento económico e social”.
O partido já não aparece tão inclinado em cooperar em matéria de lei da nacionalidade, que está agora em Belém à espera de uma decisão presidencial. No Parlamento, o PS também tem uma decisão a tomar, mas sobre isso Carneiro não quis dizer quase nada. “É um assunto que está em apreciação no grupo parlamentar e haverá decisão oportuna, no momento adequado, sobre uma das dimensões da Lei da Nacionalidade”, disse sem referir que essa dimensão é o decreto da perda de nacionalidade como pena acessória — que é o ponto em que o PS está focado. Tanto o Presidente como o PS têm a próxima semana para decidirem o que farão.