Acompanhe o nosso liveblog sobre as tensões internacionais

Leão XIV disse, na segunda-feira, 13 de abril, que não queria entrar em debate com a administração de Donald Trump. Mas depois de novas críticas vindas de Washington — e de um aviso do vice-presidente JD Vance, que o instou a ter “cuidado quando fala sobre assuntos de teologia” —, o Papa voltou a responder, aproveitando o discurso na Catedral de São José, durante a visita aos Camarões esta quinta-feira, para continuar a alimentar a tensão que se estabeleceu com Trump após Leão se manifestar contra a guerra no Irão.

Sem nomear destinatários, o líder da Igreja Católica disse que o mundo está a ser “devastado por um punhado de tiranos” que gastam milhões em guerras e fazem declarações que não são mais do que forma de escalar as tensões, lê-se no The Guardian.

Num dos momentos mais duros do discurso, o Papa deixou ainda uma advertência: “Ai daqueles que manipulam a religião e o próprio nome de Deus para seu próprio ganho militar, económico e político, arrastando o que é sagrado para as trevas e imundície”, disse.

Embora as palavras possam servir para outras geografias, o Papa fazia um apelo à paz em Bamenda, epicentro do conflito separatista anglófono que causou milhares de mortos em quase uma década, na etapa mais simbólica da viagem.

Chegado num papamóvel com vidros blindados e sob escolta militar, Leão XIV abençoou a multidão que o recebeu num ambiente de alegria, entre cânticos, buzinas, apitos, percussão, bandeiras dos Camarões e do Vaticano e trajes tradicionais coloridos com a sua efígie.

“Vamos servir a paz juntos”, apelou o líder da Igreja Católica já na catedral de São José de Bamenda, “terra ensanguentada, mas fértil, terra ultrajada, mas rica em vegetação e generosa em frutos”.

“Aqueles que despojam a vossa terra de recursos investem geralmente grande parte dos lucros em armas, numa espiral de morte sem fim”, denunciou o Papa perante os fiéis.

“Fingem fechar os olhos ao facto de que são necessários milhares de milhões de dólares para matar e devastar, mas que não se encontram os recursos necessários para curar, educar e reconstruir”, afirmou Leão XIV.

Ainda na Catedral, o Papa elogiou o movimento pela paz e manifestou-se contra permitir que a religião se intrometa nos conflitos. “Bem-aventurados os pacificadores!”, disse.

Na véspera, o Papa apelou a que se rompesse as correntes da corrupção, ao respeito pelos direitos humanos e ao Estado de direito.

Desde esta manhã, o dispositivo de segurança foi reforçado nas principais artérias da cidade.

Na sequência de manifestações pacíficas violentamente reprimidas, surgiu no final de 2016 um conflito que opõe o Governo de Yaoundé aos independentistas da minoria anglófona do país, que proclamaram a República da Ambazonia. Tanto os separatistas como as forças de segurança são regularmente acusados de abusos.

Presos num impasse, principalmente na região noroeste, onde os grupos armados são mais ativos, os civis tornaram-se alvo de assassínios, extorsões e sequestros para obtenção de resgate. Pelo menos 6.000 morreram desde 2016, segundo a ONU.

Na segunda-feira, alguns grupos armados anunciaram uma trégua de três dias nas duas regiões anglófonas, onde vive cerca de 20% da população, para permitir receber o Papa em segurança. Os separatistas também depositam grandes esperanças nesta visita.

O grupo Unity Warriors of Ambazonia explicou à agência de notícias France-Presse (AFP) que espera que o Papa exorte o Governo a retomar as negociações “onde as raízes do conflito possam ser discutidas”.

Neste país da África Central, onde cerca de 37% dos cerca de 30 milhões de habitantes são católicos, a Igreja desempenha um papel de mediação e gere uma vasta rede de hospitais, escolas e obras de caridade — uma alavanca de influência que a Santa Sé deseja consolidar.

“Falámos com ambas as partes e pensamos que chegou o momento de elas agirem e encetarem esse diálogo”, declarou Andrew Fuanya Nkea, arcebispo de Bamenda, conhecido por ser próximo de Leão XIV.

Os separatistas solicitaram, nomeadamente através do seu advogado, “o estabelecimento de um diálogo sob a égide do Vaticano que permita debater as causas profundas do conflito, com a participação da ONU, única via credível para a paz”.

Devido à violência associada a este conflito, mais de 330.000 pessoas foram deslocadas no interior dos Camarões em 2025 e mais de 100.000 outras refugiaram-se na vizinha Nigéria, segundo a ONU.

Antes de chegar aos Camarões, o Papa norte-americano realizou uma visita histórica à Argélia, parcialmente ofuscada por um duplo atentado suicida a cerca de 40 quilómetros de Argel e pelo Presidente norte-americano, Donald Trump, que o acusou, nomeadamente, de ser “um zero na política externa”.

Argélia tentou esconder dois atentados bombistas no primeiro dia da visita histórica do Papa

No sábado, o líder dos 1,4 mil milhões de católicos segue para Angola, onde estará até dia 21, para a terceira etapa da sua viagem, que termina na próxima semana, dia 23 de abril, na Guiné Equatorial.

[Depois de assassinar Carlos Castro, Renato Seabra vai passar 95 dias numa ala psiquiátrica. É lá que diz ter agido como um instrumento de Deus e ser “Jesus Cristo”. “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, conta os bastidores nunca revelados da investigação a um crime brutal. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui o segundo episódio, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir aqui o primeiro episódio]