Tiago Antunes, antigo secretário de Estado de António Costa, falhou a eleição para Provedor da Justiça. Acabou por não conseguir os votos suficientes para ser eleito. Teve apenas 104 votos a favor, 86 votos em branco e 36 nulos — precisava de, pelo menos, o ‘sim’ de 154 deputados para receber luz verde do Parlamento.
Na primeira reação ao chumbo, Eurico Brilhante Dias, líder parlamentar do PS, manteve tudo em aberto. Dizendo já ter falado com o antigo secretário de Estado de António Costa, Brilhante Dias afirmou que era “muito cedo para um decisão definitiva”. “Tiago Antunes já serviu o país em muitas circunstâncias. O resultado foi insuficiente, apesar de o PS ter cumprido o acordo [com o PSD]”, começou por lamentar o socialista. “É muito cedo para uma decisão definitiva. Já falei com ele e estamos em reflexão. Teve o conforto de ter o PS e outros deputados que votaram na sua candidatura.”
O Observador antecipou este desfecho logo na manhã de quarta-feira. A indicação do antigo secretário de Estado de António Costa para o cargo tinha sido muito mal recebida, incluindo na bancada parlamentar do PS. Vários deputados iam ameaçando votar contra a escolha dos socialistas. Sendo a eleição feita por voto secreto, não havia garantias de que as direções das bancadas parlamentares de PS e PSD conseguissem disciplinar os respetivos deputados. Atendendo às reservas que iam sendo levantadas em relação a Tiago Antunes, o chumbo de Tiago Antunes era muito provável.
Se as resistências entre deputados sociais-democratas eram mais ou menos previsíveis — afinal, Tiago Antunes foi braço direito de António Costa —, mais reveladoras eram as críticas que se repetiam a partir da própria bancada socialista. Ao Observador, um destacado deputado do PS assumia mesmo que a eleição do antigo secretário de Estado como novo Provedor de Justiça “podia estar em risco”.
Este mesmo deputado socialista questionava a escolha da direção do partido, recordava a “relação muito difícil” que Tiago Antunes tinha quando funcionava como uma espécie de “porta voz de António Costa” e dizia ser muito difícil perceber como é que alguém que nunca esteve alinhado com José Luís Carneiro ou com Pedro Nuno Santos tinha conseguido garantir esta indicação. “A direção nunca explicou esta escolha. É muito difícil de perceber. O PS tinha e tem gente muito qualificada para o cargo e indicou alguém por quem muitos deputados não nutrem uma simpatia profunda. É mesmo uma grande interrogação”, lamentava a mesma fonte.
As ameaças a partir do PSD eram idênticas. “Tiago Antunes acabou de sair do governo. Fez parte do núcleo duro de António Costa e tem ligações aos governos de José Sócrates. Este salto quase direto de um governo para este cargo para caiu muito mal aqui [na bancada parlamentar do PSD]. Gerou muito incómodo. E, apesar de haver orientações claras da direção da bancada para votarmos favoravelmente, os deputados pensam pela própria cabeça”, dizia um destacado deputado do PSD. Aconteceu, portanto, aquilo que se perspetiva.
Houve ainda outras más notícias para os socialistas: como era esperado, o PS acabou por conseguir eleger apenas um elemento para o Conselho de Estado, tendo os sociais-democratas ficado com três indicações e o Chega com outra — estes dois partidos apresentaram uma lista conjunta. O PS passará a ser representado apenas por Carlos César. Em contrapartida, Luís Pais Antunes, nome indicado pelo PSD, foi reeleito presidente do Conselho Económico e Social (CES). Teve 191 votos a favor, 30 contra e 4 nulos.
Eleição de Tiago Antunes como novo Provedor de Justiça em risco