Era perto das 12h em Washington, 16h em Portugal, quando Donald Trump usou o seu canal de comunicação oficial — a rede social Truth Social — para informar que estava a caminho do gabinete de guerra para tomar uma “decisão final” em relação à guerra com o Irão. Num longo texto enumerou condições que já estariam previamente acordadas, entre as quais a proibição do Irão de ter armas nucleares e a reabertura do Estreito de Ormuz sem portagens. Não demorou para os iranianos defenderem na imprensa estatal que a questão nuclear não está em negociação e que o acordo não está finalizado. Duas horas depois, a reunião de oficiais na Casa Branca terminou, sem uma resolução para o conflito.
No texto publicado na tarde desta sexta-feira na rede social, o Presidente norte-americano anunciou os principais pontos em negociação, e nomeou as linhas vermelhas para um acordo. “O Irão tem de concordar que nunca terá uma Arma ou Bomba Nuclear. O Estreito de Ormuz tem de ser imediatamente aberto, sem portagens, para o tráfego marítimo sem restrições, em ambas as direções. Todas as minas marítimas (bombas), se existirem, serão eliminadas (nós já removemos, através de detonação, inúmeras dessas minas com os nossos excelentes caça-minas subaquáticos). O Irão irá concluir a remoção imediata e/ou detonação de quaisquer minas que tenham ficado para trás, que não serão muitas!”.
Trump anunciou ainda que iria levantar o bloqueio no Estreito de Ormuz. “Os navios retidos no Estreito devido ao nosso incrível e sem precedentes Bloqueio Naval, que será agora levantado, podem começar o processo de ‘ir para casa!’”, escreveu. “Digam OLÁ às vossas mulheres, maridos, pais e famílias da minha parte, o vosso Presidente favorito!”
O Presidente norte-americano falou também sobre as questões nucleares, como o que é feito ao urânio enriquecido que o Irão ainda mantém enterrado no seu território após o ataque norte-americano de junho de 2025 a instalações nucleares. “O material enriquecido, por vezes designado como ‘Poeira Nuclear’, que está enterrado nas profundezas do subsolo com montanhas praticamente colapsadas por cima dele — resultado do nosso poderoso ataque com bombardeiros B2 há 11 meses —, será desenterrado pelos Estados Unidos (que, ficou acordado, é o único País, juntamente com a China, com a capacidade mecânica para o fazer!), em estreita coordenação e articulação com a República Islâmica do Irão, além da Agência Internacional de Energia Atómica, e DESTRUÍDO.”
Por fim, Donald Trump esclareceu que não pretende indemnizar o Irão, como o país tem exigido ao longo das negociações.. “Não haverá qualquer troca de dinheiro, até aviso em contrário.”
Contudo, em resposta à publicação de Donald Trump na Truth Social, fontes informadas sobre o processo de negociação disseram à agência semi-oficial iraniana Fars que o Presidente norte-americano terá distorcido as condições para passar uma imagem de “falsa vitória”. De acordo com as fontes anónimas, a publicação de Trump será uma “mistura de verdades e mentiras”. Entre as condições “infundadas” e que não estariam no rascunho do acordo destacam-se a destruição do material enriquecido iraniano e a afirmação de que o Irão deve abrir o Estreito de Ormuz sem cobrar taxas. As fontes acrescentaram que Trump omitiu outras disposições fundamentais do rascunho do acordo, incluindo a libertação por parte dos EUA de milhares de milhões de dólares em ativos iranianos e o estabelecimento de um cessar-fogo total no Líbano.
Depois, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano, Esmaeil Baghaei, disse à televisão estatal iraniana, citado pela CNN, que o acordo entre os EUA e o Irão ainda não está finalizado, apesar de os dois países estarem em negociação. De acordo com Baghaei, o futuro do bloqueio no Estreito de Ormuz depende tanto do Irão quanto de Omã — já que os dois países terão um plano para administrar a passagem de navios na região. O porta-voz sinalizou ainda que as conversações entre o Irão e os EUA focam-se neste momento em terminar a guerra, e que as questões nucleares não estarão em cima da mesa.
O ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, disse ao seu homólogo de Omã, Badr Albusaidi, que a obtenção de um acordo depende dos EUA abandonarem as suas “exigências excessivas”, avançou o Times of Israel. “O ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano indicou que a obtenção de um acordo final dependia do fim da atitude da parte americana baseada em exigências excessivas e em posições instáveis e contraditórias”, disse ao resumir uma chamada telefónica entre os ministros.
Um oficial sénior iraniano avançou à Reuters que, apesar de um acordo ainda não ter sido finalizado, o Irão e os EUA terão alcançado um “entendimento político”, o que poderá explicar a forma como Donald Trump se referiu à reunião no gabinete de guerra desta tarde. Contudo, ao fim de duas horas, o Presidente dos Estados Unidos não terá tomado qualquer decisão sobre um eventual acordo com o Irão, informou um alto funcionário do governo norte-americano segundo o The New York Times. Depois da reunião, a Casa Branca emitiu um comunicado a confirmar a conclusão do encontro. “O Presidente Trump só aceitará um acordo que seja bom para os EUA e satisfaça as suas linhas vermelhas. O Irão nunca poderá ter uma arma nuclear”.