A apresentação do Ferrari Luce foi, muito provavelmente, a mais atribulada da história da marca. E tudo porque mexeu com as expectativas de muitos, mas não necessariamente dos potenciais clientes, uma vez que estes e de acordo com as declarações à Bloomberg do CEO da marca, Benedetto Vigna, a Ferrari tem já vendidos — e pagos, cerca de 550.000€ do lado de cá do Atlântico e 640.000 dólares do lado de lá — todos os exemplares que vai conseguir fabricar do Luce até final de 2027. Isto significa que a ideia da concepção de um modelo sem motor de combustão pela marca do Cavallino Rampante não agrada, essencialmente, aos não clientes e fãs da Ferrari.

A revelação do modelo a que não faltam atributos, como pode ler abaixo, contou com a presença dos pilotos da equipa de F1 da casa, Lewis Hamilton e Charles Leclerc, que além de retirar o tradicional pano vermelho que cobria o Luce, se divertiram em pista assustando-se mutuamente. Ou pelo menos simularam, pois é pouco provável que dois dos melhores pilotos de F1 da atualidade se impressionem como passageiros de uma berlina de estrada e com pneus de série, a rodar em pista, mesmo se possuir 1050 cv, quatro rodas motrizes e direccionais, com suspensões activas e um centro de gravidade quase 10 cm mais baixo do que o Purosangue.

Ferrari Luce é uma berlina eléctrica com 1050 cv desenhada pelo designer da Apple

As críticas que choveram um pouco de todo o lado, não devido às performances do Luce — 310 km/h de velocidade máxima e 0-100 km/h em 2,5 segundos —, mas sim pela estética criada pelo ex-designer da Apple, assustaram os investidores, o que provocou uma queda de 8,4% no dia 25 de Maio, em que a revelação teve lugar, caindo os títulos de 310€ para 284€. Para tal contribuíram comentários como os de Matteo Salvini, vice-presidente de Itália, que depois de se questionar sobre “o que diria Enzo Ferrari”, afirmou à BBC que o Luce “não se parece com nada que envergue o emblema do Cavallino Rampante”. Pelo mesmo diapasão alinhou Luca de Montezemolo, que foi assistente de Enzo e mais tarde dirigiu a Ferrari durante anos, numa época antes da marca enveredar pelos motores híbridos com baterias recarregáveis nos modelos que mais vende e de produzir o SUV Purosangue, igualmente polémico quando foi apresentado, ao quebrar uma regra nunca escrita que impedia a Ferrari de comercializar SUV, tradicionalmente mais altos e pesados. Hoje é um sucesso e só não vende mais porque a marca não quer que ultrapasse 20% no share do construtor, cerca de 5 mil unidades por ano.

Depois das críticas e da queda do valor das acções na segunda-feira 25 de Maio, os títulos do construtor paulatinamente recuperaram, atingindo à hora do fecho de hoje (2 de Junho) 304,75€, o que representa uma subida de 7,3%. A Ferrari recupera, assim, praticamente tudo o que perdeu em cerca de uma semana.

As entregas das primeiras unidades do Luce estão previstas para Outubro de 2026 e, pelo menos para já, tudo indica que os investidores e os clientes encararam as críticas apontadas à berlina eléctrica pelos fãs da marca com o mesmo desinteresse com que acolheram os comentários negativos que foram, de início, esgrimidos contra o SUV. Resta esperar para conhecer as reacções dos primeiros clientes que terão a hipótese de conduzir o Luce, seguindo o conselho do construtor: “O Luce é um carro que necessita de ser conduzido para ser percebido.”