O Papa considerou esta segunda-feira preocupante o rearmamento da Europa e pediu respeito pelo direito internacional e “coragem diplomática” aos líderes mundiais, considerando que “a verdadeira segurança” resulta do “diálogo paciente”.

“No plano internacional, a paz exige coragem diplomática, responsabilidade ética e uma visão de futuro baseada no respeito pela identidade de cada povo e na obrigação dos Estados de resolver as suas controvérsias através dos caminhos pacíficos que oferece o direito internacional”, disse Leão XIV, num discurso inédito no Parlamento de Espanha.

Considerando que “as armas podem impor um silêncio temporário, mas nunca poderão edificar uma paz autêntica e duradoura”, o Papa disse ser “preocupante que em diversos lugares do mundo, e também na Europa, o rearmamento se volte a apresentar como resposta quase inevitável face à fragilidade do cenário internacional”.

“A verdadeira segurança”, para o Papa, “nasce da justiça, do diálogo paciente, do respeito pelo direito internacional e de uma política capaz de pôr a vida dos povos acima dos interesses que se beneficiam com a guerra”.

“A comunidade internacional está chamada a redescobrir o valor indispensável do diálogo” para chegar “a acordos justos e duradouros” que tenham por base “o respeito pelos tratados, a transparência da ação diplomática e a vontade sincera de colocar a paz à frente do recurso à força”, acrescentou.

Papa pede resposta multilateral e digna para “trágico drama migratório”

Defendeu que o “trágico drama migratório” deve agitar “a consciência das nações” e apelou à cooperação multilateral para lhe ser dada uma resposta “solidária e eficaz” que tenha no centro a dignidade humana.

“O trágico drama migratório interpela hoje a consciência das nações e o fundamento ético da ordem internacional. Homens, mulheres e crianças são obrigados, por circunstâncias muitas vezes dramáticas, a partir das suas comunidades e deixar atrás seres queridos, histórias e vínculos. Esta realidade extravasa qualquer leitura puramente demográfica: é uma questão eminentemente moral e jurídica”, disse Leão XIV num discurso no parlamento de Espanha.

Para o Papa, “a situação dos migrantes e refugiados exige uma resposta que olhe para as pessoas, enfrente as causas que os obrigam a partir e vá mais além da mera gestão de fluxos”.

As responsabilidades dos governos, defendeu, são garantir e oferecer “vias seguras e legais, um acolhimento com respeito e possibilidades reais de integração” e promover “o direito a permanecer na própria terra, a trabalhar para que ninguém tenha de abandonar a sua casa por falta de paz, segurança pu condições dignas de vida”.

“Nenhuma nação pode enfrentar sozinha um desafio desta magnitude” e é “indispensável uma resposta coordenada, solidária e eficaz”, no “quadro da uma cooperação regional e multilateral”, defendeu Leão XIV.

O papa sublinhou que nos últimos anos, as rotas de imigração, sobretudo em direção à Europa, se tornaram “cada vez mais perigosas” e “é necessário fortalecer a prevenção, o resgate a assistência às vítimas”.

Leão XIV iniciou no sábado uma visita a Espanha de uma semana que o vai levar, nos últimos dois dias, às Canárias, ilhas que lidam com o fenómeno da chegada de migrantes em embarcações precárias oriundas de África conhecidas como “pateras” ou “cayucos”.

Esta é a primeira viagem de um Papa a Espanha em 15 anos e esta foi a primeira vez que um líder da Igreja Católica discursou no Parlamento nacional, num país com um discurso político muito polarizado, como o próprio Leão XIV referiu no sábado, logo depois de aterrar em Madrid, e em que o terceiro maior grupo parlamentar, do Vox, de extrema-direita, mantém há meses um confronto com os bispos por causa da imigração.

Os bispos espanhóis têm sido alvo de críticas por parte dos dirigentes do Vox por estarem envolvidos no acolhimento dos migrantes que chegam às Canárias em ‘pateras’ e na integração destas pessoas e de outros estrangeiros e por terem reivindicado e apoiado publicamente a regularização extraordinária de imigrantes com que avançou recentemente o Governo liderado pelo socialista Pedro Sánchez.

Além disso, os bispos, incluindo a cúpula da Conferência Episcopal Espanhola, criticaram os acordos dos últimos meses do Vox com o Partido Popular (PP, direita) para coligações de governos regionais que integram um princípio de “prioridade nacional” nos acessos a serviços públicos e apoios sociais, por imposição da extrema-direita. O objetivo, assumido pelo Vox, é dar prioridade aos espanhóis em relação a imigrantes.

Só cinco deputados não ouviram esta segunda-feira no parlamento o discurso do Papa — que é também o chefe de Estado do Vaticano, qualidade em que se dirigiu ao plenário espanhol — todos de partidos de esquerda (Podemos e Bloco Nacionalista Galego).