Setembro de 2014. A então congressista democrata Tulsi Gabbard recebia um email com o carimbo de ‘Importante’. “Preciso de twittar por volta das 9h”, referia a mensagem enviada por Allison Hoen, assessora de Chris Butler, o líder de uma seita hindu. Na mensagem estava um tweet pré-escrito, com um link para um vídeo, sobre a situação dos combatentes curdos em Kobane, numa altura em que aquela cidade síria tentava resistir a uma invasão do Estado Islâmico.

Cada palavra do tweet foi aprovada”, continua o email, no qual Allison Hoen pede que sejam identificados altos funcionários da Administração Obama. “Ele gostaria que eles vissem o vídeo”, refere o email.

Pouco depois de ter lido a mensagem, Gabbard fez, ao início da tarde, uma publicação na rede social Twitter (atual X), na qual pede ao então Presidente dos EUA apoio militar para a resistência curda na Síria. O tweet que publicou é exatamente igual àquele que tinha sido sugerido no email. “@Barack Obama, por favor, demonstre aloha [palavra havaiana para amor, afeto, paz, compaixão e misericórdia] para os curdos de Kobane. Eles precisam de ataques aéreos [contra o Estado Islâmico] e armamento pesado. Mahalo [obrigado em havaiano, estado pelo qual Gabbard fora eleita para o Congresso em 2012]”, lê-se no tweet.

Depois de ter publicado a mensagem, Tulsi Gabbard respondeu ao email de Hoen. “Tweet enviado”, escreveu.

Líder polémico de seita religiosa tentou promover ideias políticas através de Gabbard

Este é apenas um dos episódios revelados por uma investigação do Washington Post, que teve acesso a milhares de emails e documentos partilhados entre Tulsi Gabbard, de 45 anos, os seus assessores e aliados próximos de Chris Butler, o homem que pediu a Gabbard a publicação do tweet sobre os curdos e que é a referência espiritual de infância da ex-congressista e ex-diretora dos Serviços Secretos dos EUA.

Durante vários anos, entre 2011 e 2017, Butler, o fundador da Science of Identity Foundation, influenciou Tulsi Gabbard, levando a congressista (eleita para a Câmara dos Representantes entre 2013 e 2021 pelo estado do Havai) a promover as suas ideias políticas e pontos de vista sobre diversos temas em declarações públicas ou entrevistas.

Tulsi Gabbard tentou desvalorizar a relação com Chris Butler, atualmente com 78 anos, descrevendo-o apenas como “um pastor hindu vaishnava” que ensinava “belas práticas de meditação”. No entanto, os documentos e mensagens agora divulgados (e que foram partilhados com o Washington Post por Rebecca Saltzburg, uma ex-assessora de Gabbard) parecem mostrar que a influência que Butler exercia sobre Gabbard era muito maior.

Os pais da ex-congressista eram, aliás, membros importantes da seita liderada por Butler, que segue ensinamentos ligados ao movimento hindu Hare Krishna. As palestras de Butler eram caracterizadas por um discurso homofóbico, referindo-se repetidamente a pessoas gays como “demónios” e “baratas” que deveriam ser “exterminadas”, segundo o Iowa Informer. Também incluíam nos seus discursos críticas ao Islão.

Alguns ex-membros do grupo dizem que a Science of Identity Foundation é uma seita, que promovia o isolamento social dos seus membros, levando-os a seguir de forma cega o líder espiritual, Chris Butler. Para alguns dos ex-membros, Butler tinha como objetivo aumentar a sua influência política, numa altura em que os EUA eram governados por uma administração progressista, liderada por Barack Obama. E Gabbard, uma congressista em ascensão (que ganhara o 2º distrito do Havai em 2012 com mais de 80% dos votos) que Butler conhecia desde criança, poderia ser a pessoa ideal para colocar certos temas na agenda nacional.

Chris Butler dava instruções sobre políticas e legislação a promover no Congresso

Entre as instruções transmitidas a Gabbard — na altura uma jovem congressista ainda a habituar-se aos meandros da política em Washington — estavam indicações sobre as políticas que deveria apoiar, que legislação deveria apresentar e até mesmo como se deveria apresentar em aparições na televisão. Em 2014, um aliado de Butler, que não é identificado, terá instado Gabbard a apresentar uma proposta na Câmara dos Representantes com vista a punir os países cujos cidadãos tivessem aderido ao Estado Islâmico e aconselhou-a a fazer uma declaração pública rapidamente. Gabbard acabaria por fazer essa declaração no dia seguinte e apresentou um projeto de lei uma semana depois.

Num outro episódio, já em 2015, Gabbard recebeu instruções sobre o que deveria dizer numa entrevista à CNN, motivada por um desentendimento entre a congressista e o Comité Nacional Democrata acerca da participação de Gabbard num debate entre os candidatos à nomeação democrata para as presidenciais de 2016. A instrução sugeria que Gabbard dissesse que ser excluída de um debate presidencial democrata não era uma situação do tipo “buá, não vou poder ir à festa”. A congressista acabou por usar praticamente as mesmas palavras durante a entrevista.

Os documentos a que a investigação do Washington Post teve acesso sugerem que alguns membros do grupo de Butler estiveram envolvidos na promoção de contas falsas nas redes sociais para impulsionar e defender Gabbard.

Em março de 2015, membros da seita hindu discutiram se Gabbard deveria admitir publicamente que era discípula de Butler. Um assessor de Butler temia que, se Gabbard revelasse a sua relação próxima com o guru, isso lhe iria criar problemas. “Tudo o que ensinei, tudo o que disse nas palestras, cairá sobre ti. Essa é a minha preocupação”, disse o assessor, fazendo ressoar as palavras de Butler. A tese parece ter vingado. Em 2019, quando questionada sobre se Butler era o seu mentor espiritual, Gabbard negou. “Não, não, não, de todo”, garantiu.

Tulsi Gabbard, diretora dos serviços secretos dos EUA, demite-se para acompanhar marido doente

Confrontado com a investigação do Washington Post, um porta-voz de Gabbard classificou o trabalho do jornalista Jon Swaine como “um exemplo flagrante de intolerância anti-hindu”. Contudo, apenas dois dias após o jornal informar Gabbard de que a investigação iria mesmo ser publicada, a então diretora dos serviços secretos demitiu-se, alegando que teria de acompanhar o seu marido, que se encontra doente com um cancro raro nos ossos. No entanto, uma fonte familiarizada com o assunto disse à Reuters que Gabbard foi forçada a sair pela Casa Branca. Menos de um mês depois do início da guerra no Irão, Gabbard esteve numa audição do Senado onde recusou comentar se o país representava uma “ameaça nuclear iminente”, como a Casa Branca argumentava. Pouco depois, Trump insinuou divergências com Gabbard sobre a abordagem que adotou em relação ao Irão, afirmando que ela era “mais branda” do que ele quanto à contenção das ambições nucleares de Teerão.