As caixas de velocidade manuais e automáticas, afinal, têm mais diferenças entre si do que a mera questão tecnológica ou dos movimentos que exigem ao condutor. Há uma área do cérebro que apenas é activada pelas primeiras, permanecendo apagada caso se conduzam veículos em que apenas é necessário acelerar ou travar. Quem o afirma é um neurocientista e professor universitário japonês, Ryuta Kawashima.
Kawashima realiza as suas pesquisas no Instituto de Desenvolvimento, Envelhecimento e Cancro da universidade nipónica de Tohoku e foi este mesmo neurocientista que desenvolveu a base para a série de videojogos Brain Age divulgados pela japonesa Nintendo. Estes jogos, tradicionalmente classificados como “treino para o cérebro” e que venderam milhares de unidades, foram baseados no trabalho de Kawashima como uma forma de estimular o cérebro para combater a demência.
Desta vez, o estudo levado a cabo por Ryuta Kawashima e pela sua equipa demonstrou que a condução de um veículo com caixa manual acaba por ser um exercício de coordenação, gestão e estratégia que estimula o cérebro, na medida em que obriga o condutor a lidar, várias vezes por dia, com o pedal da embraiagem, com o manuseamento da alavanca da caixa de velocidades, com a modulação do acelerador, implicando raciocínio por detrás da engrenagem de cada mudança, associado à suavidade do accionamento da embraiagem e do acelerador, sobretudo a baixa velocidade.
De recordar que o Japão combate há muito uma população envelhecida. Hoje, 30% da população tem mais de 65 anos, valor que não destoa muito da média europeia (21,6%) e, sobretudo, da portuguesa (24,5%). O estudo levado a cabo pela Universidade de Tohoku demonstrou que utilizar caixas de velocidades manuais ajuda a estimular uma zona específica do cérebro humano, contrariando a evolução da demência em cidadãos seniores.
Cientistas japoneses realizaram estudo que confirma que as caixas manuais são muito melhores do que as caixas automáticas a combater a demência dos idosos
Conduzir um carro com caixa manual desperta actividade no córtex pré-frontal. Curiosamente, esta região do cérebro permanece desactivada quando o mesmo condutor está aos comandos de um veículo com caixa automática. E aqui importa salientar que as caixas automáticas, sem embraiagem e sem as mesmas solicitações de raciocínio, não puxam tanto pelo cérebro nem exigem o mesmo tipo de funções cognitivas.
Em Portugal (e na Europa), a maioria dos veículos novos vendidos estão equipados com caixa automática, ou até sem caixa, como é o caso dos eléctricos, com as caixas manuais a representarem somente entre 30% e 35% do total de viaturas comercializadas. Não obstante, a percentagem de veículos em circulação com pedal de embraiagem e caixa manual continua a representar entre 70% e 80% do total dos modelos a rodar nas vias públicas. Porém e de acordo com a equipa de Kawashima, as caixas automáticas vão acelerar a deterioração da capacidade dos condutores com mais idade e, logo, favorecer a demência nos mais idosos.