Logo de manhã, no comboio na linha de Sintra, José Luís Carneiro deu de caras com um desiludido com o PS. A situação era muito concreta (sobre os problemas de adaptação do posto de trabalho a alguém com deficiência) e o desgosto com os socialistas também. O líder socialista sabe que precisa de tempo para a reconquista dos eleitores perdidos em 2025 e espera que nada atrapalhe esse caminho, como fica claro quando confessa ter expectativa na “inversão de marcha” na política de alianças do Governo — uma mudança que afastaria do caminho uma crise política ou a perceção de que o PS é um partido que procura derrubar o Executivo.

Não há qualquer vertigem por uma crise política que possa levar o partido de regresso ao poder. Sendo muito incerto que isso seja possível no curto prazo, José Luís Carneiro tenta o trabalho de formiga, sobretudo junto de eleitores perdidos nos dois círculos eleitorais onde tem sofrido erosão: Lisboa e Setúbal. O líder socialista circulou por uma das ligações ferroviárias mais utilizadas e importantes da Área Metropolitana de Lisboa, visitou uma Unidade Local de Saúde, uma obra do PRR, uma instituição de trabalho social em Setúbal e ainda uma empresa portuguesa (DEIBA) de fertilizantes e adubos.

O PS tenta, assim, correr atrás desse prejuízo com uma agenda voltada para “o custo de vida, o seu aumento e os seus impactos”. É uma tentativa de fazer prova de que é capaz de trazer respostas concretas às vidas das pessoas, como aquelas que Nelson Portinha diz a Carneiro, a bordo do comboio, que nunca lhe chegaram, quando a perda de visão o fez perder também a carreira como oficial de justiça. “Fico com uma certa aversão ao PS, que podia ter feito mais”, confidencia ao próprio líder que tem ali à sua frente logo pela manhã.

A confissão pesa de forma particular sobre o secretário-geral nesta altura. As sondagens podem estar mais favoráveis para os socialistas, mas as últimas legislativas mostraram que o crescimento do Chega está fortemente ligado à absorção de habituais eleitores PS. Isso reforça a ideia de um segmento do eleitorado que está desiludido com os socialistas e que preferiu o Chega como alternativa.

É aqui que entra essa necessidade de dar resposta “eficaz” e “célere” às populações — e a alguns setores em particular. Não foi por acaso a passagem, ao final da manhã, por Loures, autarquia que o PS conquistou com maioria absoluta, onde o presidente da Câmara, Ricardo Leão, esteve ao lado de Carneiro a mostrar um edifício em obras: um projeto do PRR para alojar 21 agentes da PSP deslocados que acabam agora o curso.

O secretário-geral do Partido Socialista (PS), José Luís Carneiro (D), acompanhado pelo presidente da Cãmara de Loures, Ricardo Leão (2E), e pela deputada socialista, Marina Gonçalves (E), durante a visita a uma obra do PRR para alojamento de agentes da PSP deslocados, Loures , 29 de junho de 2026. O grupo parlamentar do Partido Socialista realiza, entre os dias 28 e 30 de junho, as Jornadas Parlamentares sob o tema "Custo de Vida: o seu aumento e os seus impactos". ANTÓNIO COTRIM/LUSA ANTÓNIO COTRIM/LUSA

Em Loures, Carneiro visitou uma obra para alojamento de PSP deslocados.

Carneiro fez questão de sublinhar que tudo começou com governos socialistas, lembrando os contratos de financiamento assinados em 2023 e os projetos planeados pelo PS, para contestar “a tese de que apenas havia obras no papel”. Falou em concreto nos 250 novos alojamentos para polícias na Amadora e nos Olivais, e noutros 250 ainda em curso, numa tentativa de reclamar para o PS os créditos por aquilo que já sabe que será inaugurado e distribuído pelo Governo da AD.

Ao mesmo tempo, José Luís Carneiro parece pouco interessado em criar ondas na frente política. Prefere antes colocar o PS como partido responsável, disponível para desbloquear a governação. Quer ser alicerce de estabilidade e não gatilho de uma crise política. Depois do desaire do Governo com o parceiro que escolheu para a reforma laboral, o Chega, o líder socialista lança um misto de expectativa e desafio ao Executivo de Luís Montenegro, pedindo que “faça a inversão de marcha, porque há muito tempo que está em contramão numa autoestrada e em grande velocidade e só pode dar mau resultado.”

E explicou, em declarações aos jornalistas na estação do Rossio, que a “prova” dessa “contramão” são as “manobras ideológicas que o Governo tem conduzido com o Chega”. Recorde-se que na última semana o PSD e o PS firmaram um acordo para viabilizarem no Parlamento a nova Prestação Social Única, depois de o Governo ter desistido de negociar com o Chega.

O líder do PS parece querer aproveitar a aproximação na PSU para voltar a colocar em cima da mesa as medidas que já apresentou — e viu chumbadas — relativas ao custo de vida, com o aumento da inflação. Entre elas está o IVA zero para os bens alimentares essenciais, a redução do IVA sobre os combustíveis e também sobre a eletricidade e o gás, bem como apoios aos agricultores e aos pescadores nos seus custos produtivos. Já estão todos novamente entregues no Parlamento para serem debatidos e votados já na quinta-feira — porque o PS usou a prerrogativa do agendamento potestativo (obrigatório).

Mas não deixa de atirar à “insensibilidade do Governo” em relação aos problemas da vida das pessoas, acusando Montenegro de estar apenas “preocupado com matérias ideológicas, sempre a procurar encontrar mecanismos de combate e de clivagem ideológica aliando-se para esse efeito com o partido da extrema-direita”.

E um dos exemplos pelos quais puxou, para mostrar esse desligamento do Governo que quer provar, é o anúncio do fundo soberano, feito por Luís Montenegro no encerramento do Congresso do PSD: “Isto foi há oito dias, já ouviram mais falar desse assunto, desse tema? Talvez não tenha pegado”, ironiza chamando-lhe mesmo “OVNI do fundo soberano” e uma “manobra de diversão que faz com que as atenções mediáticas saiam daquilo que é o essencial”, ou seja, das questões do “custo de vida, da habitação, da saúde, dos rendimentos”.

A outra é a do Orçamento do Estado e tenta a todo o custo evitar entrar no debate (sobretudo interno) do viabiliza-não viabiliza. Há duas semanas, quando o PSD procurava o Chega para a reforma laboral, um antigo líder do PS, Eduardo Ferro Rodrigues, veio apressar o partido a dizer já que votaria contra o próximo Orçamento do Estado.

Mas Carneiro não quer mesmo entrar por esse caminho, empurrando uma decisão para outubro, altura em que a proposta do Governo será entregue. Ferro acabou por desanuviar, por agora, esse ambiente quando, em entrevista à RTP2 na passada quinta-feira à noite, recuou na sua posição, tendo em conta os desenvolvimentos na PSU.

“Ao falar do Orçamento, estamos a contribuir para que o Governo mantenha as atenções num ponto de fuga que não é o ponto de fuga que interessa às pessoas que estão lá em casa”, considera Carneiro que prefere pôr o foco noutro lado.

As Jornadas são, assim, uma tentativa de começar a recuperar eleitores perdidos sem os assustar com a pressa de regresso ao poder — que teria de passar por uma nova crise política. Carneiro oferece o PS como parceiro de estabilidade e vai disputando com o Chega o espaço dos desiludidos com o seu partido.