Um construtor que sempre aliciou os seus clientes com o rugir de potentes e nobres motores V8 e V12 a gasolina, associados à eficiência do comportamento dos seus coupés desportivos leves e ágeis, estaria certamente à espera que uma generosa quantidade de potenciais clientes se revelasse algures entre o surpreendido e o aborrecido — ou mesmo furioso — por decidir acrescentar à gama um modelo 100% eléctrico, com características familiares e cinco lugares, com quatro portas e consideravelmente mais pesado devido à presença de uma generosa bateria. Agora, um dos coleccionadores convidados pela Ferrari para adquirir um Luce revelou a abordagem comercial da marca, bem como a sua resposta “ácida” à proposta.

Nunca faltaram interessados em adquirir o primeiro Ferrari eléctrico, mas o Luce feriu as expectativas de muitos clientes do construtor, aqueles que sempre compraram coupés com motores a combustão e que acharam quase um insulto a chegada de um modelo a bateria fabricado por uma marca que sempre apaixonou os amantes dos superdesportivos a gasolina. O coleccionador que colocou a boca no trombone, ao partilhar com a imprensa as suas conversas com a marca italiana, foi Jefferson Cheng, um filipino e australiano que é dono de vários clubes de futebol da primeira liga masculina, bem como manager da equipa feminina australiana de futebol.

Contactado pela Ferrari para comprar o Luce, que está reservado para os clientes e coleccionadores da marca com maior notoriedade e com mais unidades da marca na garagem, Cheng terá respondido “devem estar a gozar comigo”, reforçando essa ideia de forma muito clara. “Nem morto me apanhavam a conduzir o Luce”, declarou, para que não restassem dúvidas quanto à sua posição. Como se não bastasse e ainda destilando algum veneno devido ao seu desagrado em relação ao primeiro Ferrari a bateria, Chen, que no Instagram é conhecido como Speedy Jeff, afirmou que “o Luce nem era digno do emblema da Hyundai ou da Kia, quanto mais da Ferrari”.

Jefferson Cheng é, assumidamente, um dos clientes e coleccionador da marca decepcionado pelo facto de a Ferrari ter optado por produzir um eléctrico, ou talvez por não ter apontado mais alto, ao propor apenas um modelo concorrente dos Tesla Model S Plaid e Taycan Turbo GT, com pouco mais de 1000 cv. Se, em vez disso, apontasse armas a hiperdesportivos como Rimac Nevera, igualmente eléctrico, mas com mais de 1900 cv, talvez os clientes mais extremistas da casa do Cavallino Rampante acolhessem o eléctrico da marca fundada por Enzo Ferrari de forma mais positiva.

Mas a Ferrari está no negócio de produzir carros e, para que este negócio seja um sucesso, eles têm de ser vendidos. Daí que, para a administração da marca, o importante é que a maioria dos clientes adquiriu o Luce, sobretudo os chineses, que superaram largamente o lote de unidades do eléctrico destinado àquele mercado asiático, tendo o construtor já reforçado o número de exemplares disponíveis. Talvez mais relevante do que isso é que, depois de as acções da Ferrari terem caído de 310€ para 284€ após a revelação do Luce, sobretudo devido a reacções negativas de clientes como Chen, os títulos têm vindo a subir paulatinamente. Na segunda-feira (29/6), a bolsa encerrou com as acções a valerem 323€, o que significa que até o mercado, ou seja, os investidores acreditam no Ferrari eléctrico.